Universidade do Minho: LASICS (Laboratório de Sistemas de Informação para a Investigação em Ciências Sociais)
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A biblioteca de babel e a árvore do conhecimento
A ideia de logosfera surgiu, à primeira vista, enquanto força que irradia conhecimento absoluto e comunicação universal, como que prolongando o sonho das comunidades científicas de todas as épocas. Mas tal não passa de um equívoco. O que há é um efeito de mobilização, dos trabalhadores para a competitividade no mercado. Além disso, o imperativo tecnológico da teoria da informação dispensa o imperativo ético da racionalidade comunicativa. O esquema informativo vem agora ajustar o homem à tecnologia informativa, sendo seu propósito reduzir as perdas de mensagem. Às novas tecnologias de informação ouvimos chamar-lhes “tecnologias limpas”, numa expressão que mistura a admiração e o deslumbramento e que contraria as “tecnologias velhas”, poluentes, capazes do debaste. Porém, Gianno Vattimo (1991) vislumbra aqui algo menos “limpo”: as novas tecnologias da informação caracterizam esta sociedade não como mais transparente, nem como mais consciente de si ou mais iluminada, mas como uma sociedade mais complexa, até caótica. E, também para Virilio (2000), o que há é uma mudança radical na nossa cultura ao deslocarmo-nos dos átomos para os bits. Passamos do espaço da matéria ao tempo da luz. Esta desmaterialização contraria a nossa visão da violência, tradicionalmente centrada na carne e no sangue. Mas não dissolve a violência. Nem a supera. Não há, de modo nenhum, transparência humana, nem harmonia ecológica, na racionalidade informativa
Desafios e oportunidades do desenvolvimento sustentável local: o projeto WeGIx como proposta de monitorização
O presente capítulo apresenta os primeiros resultados do projeto de investigação WeGIx que tem como principal objetivo propor a construção de um índice de bem-estar global compósito que possibilite a monitorização da implementação dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Agenda 2030, à escala local. Os 42 indicadores, alinhados com os ODS e analisados entre 2009 e 2017, resultam num índice final que possibilita uma análise detalhada do bem-estar das populações, a nível municipal. Assumindo como valor de referência o total nacional (Portugal = 0), os 308 municípios portugueses flutuam acima ou abaixo da referência. Tal significa, respetivamente, que as populações residentes experienciam um bem-estar superior ou inferior ao valor nacional. Os resultados evidenciam uma diminuição do bem-estar de, aproximadamente, 5%, entre 2009 e 2017
Práticas sustentáveis no âmbito da iniciativa comunitária “Aveiro em Transição”
Este capítulo apresenta a iniciativa “Aveiro em Transição” e busca promover a discussão sobre a relação entre as inúmeras possibilidades de práticas ambientalmente sustentáveis e os modos de vida que procuram equilibrar trabalho, ócio, consumo consciente e experiências de reflexão sobre si e a comunidade em que se vive. Através deste capítulo, é possível perceber que a iniciativa estudada desenvolve uma mobilização local com o intuito de gerar efeitos principalmente em relação à consciência e educação ambiental, o que, de acordo com a visão dos seus participantes, se reflete na construção de modos de vida sustentáveis, saudáveis e potencialmente mais felizes
Práticas de sustentabilidade no mundo da moda e do vestuário
A produção e consumo de vestuário cresceu de modo exponencial nas últimas décadas, mas a fast fashion acarreta demasiados custos sociais e ambientais, os quais começam lentamente a inquietar os consumidores. Exploração laboral e poluição excessiva são alguns destes problemas que têm instigado a ação de diferentes atores. Providenciando uma visão destas ações, constatamos que produtores, vendedores e consumidores têm procurado integrar princípios da economia circular, uma maior cooperação e comunicação e a alteração e redução do estilo de consumo. Porém, só com uma rápida aceleração da adoção e disseminação destas medidas, por via legislativa e educativa, se conseguirá menorizar a gravidade dos problemas associados a uma das indústrias mais poluentes do mundo
O protagonismo do homem ordinário no jornalismo: reflexões a partir da narrativa de Bru Rovira
Neste estudo, desenvolve-se uma análise interpretativa da narrativa jornalística do catalão Bru Rovira, presente em sua obra Solo pido un poco de beleza (2016), que reúne textos de sua autoria originalmente publicados no jornal La Vanguardia, entre os anos de 2004 a 2007, sobre personagens anônimas de Barcelona, especificamente sobre um grupo de ex-alcoolatras que semanalmente se encontram no Centro de Serviços Sociais do bairro El Gotic, de modo a evidenciar o protagonismo noticioso do sujeito ordinário, em alusão às reflexões de Michel de Certeau (1994). A partir da escolha de Bru Rovira em narrar o que ele mesmo designa de carreteras secundárias do jornalismo, discute-se sobre a potencialidade de dinâmicas informativas alinhadas à noticiabilidade do cotidiano, em ordem de contraposição aos valores de desvio e proeminência social que tradicionalmente caracterizam o acontecimento e a cultura jornalística, e que predominantemente inscrevem a cobertura da imprensa em termos de imprevisibilidade e figuras oficiais. Com isso, busca-se destacar elementos teóricos e dispositivos práticos convergentes à uma noção de desacontecimento enquanto notícia, sendo esse uma espécie de movimento de resistência de profissionais que, a despeito de constrangimentos organizacionais diversos, reportam os contextos de atores sociais que se situam à margem do interesse hegemônico público e midiático
Café cultural/residências artísticas
O presente trabalho resulta de uma investigação sobre o projeto de residências artísticas desenvolvido em parceria com a Câmara de Celorico de Basto e Fafe, intitulado “Café Cultural Residências Artísticas”, um polo de estímulos a pesquisas, intercâmbio e interação social entre artistas e público. Esse projeto propõe ao artista refletir sobre essa relação de reciprocidade, no seu processo de criação, através dos murais, do teatro, da música, ensino e aprendizagem. O trabalho discute também a importância das residências artísticas para as intervenções nas cidades por meio da arte urbana com ênfase no graffiti. Uma atenção particular é dada ao processo de comunicação através da arte assim como aos meios de comunicação social, com ênfase nas novas tecnologias de comunicação e nas suas transformações sociais. A sinergia artística é outro ponto a ser analisado desde a sua primeira e única residência artística na vila de Celorico de Basto até às residências na cidade de Fafe, que perduram há quatro anos. Assim, analisar-se-ão as transformações dos espaços urbanos dessas referidas cidades por decorrência das intervenções urbanas, as trocas de conhecimentos e as negociações sociais/estéticas que permearam todo esse processo de trabalho. A necessidade de repensar o processo de ensino das artes com ênfase dos workshops artísticos, a importância do acolhimento de diversos artistas que desenvolvem diferentes linguagens com o objetivo de estimular uma troca de conhecimentos entre o artista e público local, serão também objeto de análise deste trabalho. A importância da sinergia artística e o processo de evolução da arte urbana como agregadora de valores artísticos, a evolução do graffiti enquanto obra de arte, as realidades e os conceitos de criação artística, do ser artista na sociedade atual, o processo de resiliência e de comunicação entre artista e curadoria nos processos de criação constituirão assim o foco da presente investigação
Um diálogo de ecosofia com Iván Illich
A partir de Iván Illich, faz-se uma digressão pelas noções de ecofilosofia e ecosofia. Tal como Guattari (1996a) e Naess (2007), torna-se fundamental recentrar o pensamento sobre modos ecosóficos de viver e pensar, tendo na figura do rizoma uma das principais matrizes. Perto de um abismo infligido por uma dinâmica tecnocientífica, eis que a esperança reside num rizoma teórico capaz de ter na linha da frente uma linha de ação ecosófica
A rádio e o som do silêncio
Entende-se erradamente que, sendo a rádio um meio sonoro, o silêncio não tem lugar na narração da história. Nesta aceção simplista, ele é percecionado como um vazio na linguagem, contrastando com a fala, prova clara e suficiente do ato de comunicar. No entanto, o silêncio é um elemento fundamental para a apresentação e a compreensão de um texto em rádio, na medida em que a ausência de som também é ouvida, encerrando em si um significado. Face à palavra, à música e aos efeitos sonoros, o silêncio é, todavia, o menos estudado, não merecendo as suas possíveis funções na narração radiofónica mais do que algumas referências pontuais em subcapítulos de livros ou em pequenos artigos académicos. O presente texto pretende suprir esta escassez, partindo de uma revisão das teorias de investigadores do meio rádio com o objetivo de evidenciar a relevância do silêncio e das pausas num tempo em que o excesso de informação parece temer a ausência de palavras
Redemocratização do espaço de vias urbanas e a criação de ruas completas: aplicação teórica na Rua D. Pedro V em Braga
Este texto tem como objetivo mostrar como o conceito ruas completas é fundamental para efetuar planeamento urbano condizente com as necessidades das populações, respondendo ao mesmo tempo aos objetivos de descarbonização e de melhoria da qualidade de vida nas cidades. No contexto urbano atual, é fundamental que as estradas possam servir como corredores para a mobilidade eficiente e sustentável, uma vez que as cidades sofrem cada vez mais de problemas de congestionamento e poluição atmosférica. Neste sentido, o presente texto documenta um exercício teórico da aplicação da metodologia de ruas completas na rua D. Pedro V, em Braga, do qual emergiram propostas de reordenamento com significativas melhorias na circulação e na convivência de vários meios de transporte
A mobilidade escolar pedonal no caminho para a descarbonização
Este capítulo pretende demonstrar a necessidade de alterar o paradigma de mobilidade vigente na sociedade contemporânea, nomeadamente no que se refere à mobilidade e transporte de crianças. Argumenta-se que a adoção de práticas de mobilidade mais suaves no contexto escolar, inclusivamente através da implementação do pedibus, pode contribuir para uma mudança de comportamentos e mentalidades nas camadas etárias mais jovens. No texto apresentam-se as vantagens, as dificuldades e os desafios que a implementação deste tipo de projeto implica