Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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“O mundo é intra-atividade em seu diferencial”: Descrevendo relações nas ruínas do plantationoceno
Neste trabalho vamos tratar de como lugares e paisagens emergem a partir da relacionalidade entre humanos e outros seres-outros-que-humanos. Para esse exercício vamos nos deter em situações etnográficas onde buscamos historiar relações em ecologias tensionadas por infra-estruturas da plantation agroindustrial e da produção de energia em paisagens de multitudes de seres visíveis e invisíveis de povos indígenas e beiradeiros na Amazônia e na Mata Atlântica. Nossa proposta é refletir sobre o potencial do conceito de intra-ação, formulado por Karen Barad, como ferramenta para descrever relações na antropologia. Intra-ação, ao contrário da ideia de interação (que trata de relações entre entidades dadas de antemão), refere-se a uma ação simultaneamente recíproca, em qe as separações dos componentes de um fenômeno se dão a partir de resoluções locais para a indeterminação ontológica geral. E é nesses momentos em que as paisagens podem se tornar aparentes. Nosso argumento etnográfico é que paisagens tornam-se-com por meio de intra-ações diferenciantes. As intra-ações em curso são práticas discursivas materiais ou performatividades da multiplicidade de processos vitais por entre temporalidades diferenciantes, e é por meio destas práticas e dos seus padrões de recorrência e exclusão que certos limites, por exemplo entre espécies ou identidades, ou organismos e mundo, ou entrelugares, são promulgadas e executadas: “o mundo é intra-atividade em seu diferencial”. Junto com Barad, contar histórias dessas paisagens, em si um processo de materiação, implica uma responsa-habilidade, uma preocupação com práticas de justiça por-vir que anima a apresentação esse trabalho
As roupas, os cuidados e os tempos: Notas para pensar as corporalidades nas transformações sociais
Este trabalho debruça-se sobre um conjunto de práticas e objetos que normalmente não despertam muito interesse etnográfico: as roupas e as relações sociais que por meio delas se engendram. Ao longo de oito meses de pesquisa de campo, o diálogo e as vivências com as interlocutoras mostraram que as formas se de vestir constituíam um importante qualificativo material e moral de reflexão sobre as transformações sociais e as relações assimétricas entre grandes e pequenos, brancos e negros ou o Estado e os pobres. Paralelo a isso, e enfatizando a centralidade desses bens, as roupas eram também um valoroso marcador social, horizonte de preocupação dessas mulheres em função do seu lugar na constituição pública das corporalidades e da consequente virtual possibilidade de humilhação ou estigmatização. Nesse sentido, as roupas, o trabalho nelas investido e os corpos e coletivos que se fazem por meio delas colocavam em relação esferas ou mundos normalmente pensados como separados (ou antagônicos), mas que estão em constante co-criação, a saber, a casa e a rua, o doméstico e o público, o cuidado e a política. Sendo assim, nosso objetivo é pensar como os dispositivos e técnicas relativas a esses bens ativam pertencimentos coletivos e conflitos sociais, seja na relação com a higiene e as águas, nas práticas de cuidado e cultivo e de si e dos seus ou, ainda, nas mobilizações sociais da comunidade
Do fio à carne: Etnografia como registro do poder, autoinstituído, dos seres humanos sobre vida e morte de outros-que-humanos
Este artigo pretende discutir, a partir de interações com o campo, o poder autoconcedido aos humanos, de legislarem sobre a vida e a morte de outros-que-humanos, infligindo penas capitais, mediante interesses alimentares e outros consumos. Para além dos preceitos humanos de ética e moral, seres vivos não humanos são compulsoriamente convidados a participar e contribuir com seus corpos em rituais macabros. Outrossim, o manuseio de artefatos de corte, cuja constituição e propósitos visam, que estes, cada um a seu tempo, agenciem a morte, a mutilação, o descarne, dividindo os corpos de não humanos em parte úteis e inúteis, conforme pressupostos humanos. O registro dessas interações entre seres humanos e outros-que-humanos faz parte de minha pesquisa sobre a produção de alimentos em ambiente urbano e periurbano. Em determinada fase da pesquisa participei, a convite de um interlocutor, de um ritual de morte e dilaceramento de um porco, para fins alimentares. Nesse contexto, a etnografia daquele confronto entre as facas e o corpo de outro-que-humano, impõe indagações sob uma perspectiva menos privilegiada de “homens enquanto espécie e humanidade enquanto condição”. Ainda, às questões religiosas e dogmáticas, indicativas de que ao porco só cabe a função de alimentar humanos. Outras lógicas para algumas aves e seus ovos, bovinos e seu leite. Por fim, a função comercial, pela qual classificamos outros-que-humanos conforme interesses: alimentos, de estimação e companhia para outro
A contribuição da Geografia e das imagens sobre o racismo estrutural fora e dentro do ambiente escolar
O texto pretende apresentar o desenvolvimento e construção da pesquisa teórico-metodológica realizada em duas escolas públicas do estado do Rio de Janeiro com alunos do ensino fundamental e médio. Assim, o trabalho é um relato de experiências da prática profissional nas aulas de Geografia. No entanto, o que será apresentado é somente recortes e observações realizados até o presente instante, já que seu desenvolvimento ainda está em curso no cotidiano das aulas de Geografia. As observações se iniciam a partir da percepção do interesse dos alunos no pedido para assistirem filmes e aulas diferenciadas e ao mesmo tempo se mostrarem desanimados e desmotivados (mesmo com aulas diferenciadas). No entanto, o processo de construção do trabalho, vai além da sala de aula, mas também no entorno em que estão inseridos, onde há a falta de ações do poder público em promover políticas públicas culturais, econômicas e sociais aos jovens em sua maioria negros de periferia. Dessa forma, o trabalho se propõe investigar se o racismo estrutural e institucional arraigados na sociedade é uma das causas da desmotivação escolar vivida por grande parte desses jovens e o quanto as linguagens geográficas podem contribuir no despertar de formação crítica desses jovens
Abordagem espacial e social na Geografia Escolar: a geograficidade do setor de Uberlândia-MG
O artigo discorre sobre os pressupostos e encaminhamentos metodológicos para o estudo do espaço geográfico e, que devem alicerçar o ensino de Geografia, a partir da apreensão e reflexão sobre a realidade dos lugares onde se vive. Logo, o presente artigo tem como objetivo central considerar a dinâmica e a complexidade do espaço urbano tendo como ponto de partida as paisagens dos lugares da vida cotidiana citadina para estimular a construção do pensar geográfico, o pensamento crítico e a consciência espacial. Para alcançar o objetivo exposto é necessário recorrer às categorias/conceitos geográficos, as quais serão explicitadas na primeira parte do texto; a seguir, discorre-se sobre as possibilidades metodológicas para ensino de Geografia e, por fim, considera-se na realidade urbana do Setor Sul da cidade de Uberlândia, e a materialização de tais conceitos
A base de saberes profissionais e os contextos de realização da prática de docentes de Geografia
Este texto propõe refletir acerca dos conceitos de conhecimento pedagógico do conteúdo de Lee Shulman e dos saberes experienciais de Maurice Tardif. Também irá explorar as categorias de um repertório de conhecimentos para a prática profissional docente de forma geral, a partir das teorizações de ambos autores. Esta reflexão visa fornecer uma base teórico-metodológica para a investigação acerca da maneira pela qual múltiplos e complexos saberes são mobilizados e produzidos na prática cotidiana dos professores de Geografia. Com destaque para os conceitos de conhecimento pedagógico do conteúdo de Shulman e dos saberes experienciais desenvolvido por Tardif, compreendendo estes enquanto a matéria-prima do trabalho do professor, sua criação mais original e potente que emerge de sua ação cotidiana na escola, em confronto com as condições de sua atuação. Depreende-se desta revisão de literatura que, para a construção do conhecimento escolar é fundamental, o conhecimento profundo da ciência de referência, dentre outros. Dessa maneira reafirma-se a importância da Geografia no currículo escolar, em sua intensa relação com a ciência de referência e sua inserção mais ou menos autônoma em uma escola situada e contextualizada. Além disso, destaca-se como fundamental considerar nas análises sobre os saberes docentes os contextos dos quais emergem: as políticas curriculares, as características da formação inicial e continuada, as condições de trabalho, remuneração e progressão na carreira, distribuição dos tempos pedagógicos, estrutura das escolas e o grau de autonomia na implementação do currículo. As condições socioespaciais estão diretamente relacionadas com o saber que os professores produzem e mobilizam, com as racionalidades que sustentam esses saberes e com as ações pedagógicas desempenhadas por estes sujeitos.
A Geografia Escolar no período escolanovista (1930-1960)
Essa pesquisa apresenta o segundo momento histórico da Geografia escolar no Brasil, marcado pelas propostas de inovações pedagógicas vindas da Escola Nova, com destaque para as metodologias de ensino ativas, que possuem princípios pedagógicos indispensáveis ao ensino da época e podem auxiliar na busca de outros caminhos para os problemas do presente. Assim, foram ressaltados os aspectos da metodologia do ensino de Geografia, incluindo a relação entre a Geografia moderna e os princípios da Escola Nova, especialmente na década de 1930. Tem como objetivo compreender as orientações escolanovistas sobre os métodos de ensino em Geografia. Para tal propósito, utilizou-se de pesquisa documental e bibliográfica. Entre as fontes documentais utilizou-se os artigos publicados no Boletim Geográfico e na Revista Brasileira de Geografia, analisados por meio da bibliografia especializada em ensino e ensino de geografia, além de reforçar o contexto escolar moderno da época, com o predomínio da Geografia local e terem sido destacadas as técnicas de ensino e os recursos didáticos mais indicadas para aplicação no período escolanovista (1925-1960), recomendados enquanto elementos mediadores do processo de ensino-aprendizagem. Os resultados possibilitaram compreender que as orientações escolanovistas consideravam as atividades geográficas extracurriculares, as técnicas de ensino, os recursos didáticos e a atividade do aluno definitivos no processo de aprendizagem, possibilitando a ampliação do conhecimento geográfico. A investigação foi desenvolvida junto a Faculdade de Ciências, Tecnologia e Educação (FCTE), da Universidade Estadual Paulista (UNESP), no curso de Geografia, com auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)
Poemas e desenhos em sala de aula: a Geografia aprendida e arte produzida por alunos
O presente artigo tem como objetivo analisar a produção de poemas e desenhos por alunos de duas turmas do 9° ano da Escola Estadual Hilton Federici, localizada no município de Campinas, durante um estágio de licenciatura em Geografia. As aulas observadas no estágio geraram os objetos de estudo deste trabalho que foram baseadas na habilidade EF09GE05: “Analisar fatos e situações para compreender a integração mundial (econômica, política e cultural), comparando as diferentes interpretações: globalização e mundialização”. Com o apoio do livro didático, de documentários, de músicas e a elaboração pelos alunos de mapas mentais, poemas, charges e história em quadrinhos foi possível trazer diversos temas dentro desse contexto para sala de aula, bem como trabalhar diversas questões relacionadas à condição do educando. Essa análise será feita em dois momentos: no primeiro, será realizada a exposição das motivações e usos dessas diferentes metodologias; no segundo momento, será feito a análise de algumas obras produzidas pelos alunos, buscando debater alguns conhecimentos e raciocínios geográficos que podem ser observados no material. Esta análise busca dialogar com alguns trechos da obra de Milton Santos, ‘Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal’.
.ukiyo-e [ 浮 世 絵 ]: modos de trajetar em paisagens do mundo flutuante
Os gatilhos promovidos por tecnologias e infraestruturas capitalistas e pré-capitalistas, modificaram e seguem modificando, em ritmo vertiginoso, as paisagens mais que humanas nas mais diversas camadas do planeta. A paisagem que se apresenta, em forma e movimento, aos olhos de quem a observa no presente, é, não raro, fruto de uma série de perturbações de origem antrópica ao longo dos tempos – das infraestruturas militares às plantations nas colônias. Do reconhecimento desse aspecto histórico, dinâmico e recursivo das relações entre os projetos de fazer mundo humanos e as paisagens multiespécies, verte um segundo momento, o da descrição das particularidades processuais que configuram paisagens específicas: contar essas estórias pode ajudar antropólogos e seus companheiros humanos a entender os motores dessas modificações – muitas vezes ocultos pela familiaridade impressa na fotografia do presente –, bem como as consequências dessas modificações na vida – e na morte – de humanos e não humanos que habitam tais paisagens. Comparar momentos distintos de um mesmo lugar no mapa, extrapolando os contornos do aqui e agora, pode ser útil a essa tarefa. Mas como trajetar por paisagens que “não existem mais”? A esta pergunta, tentarei ensaiar aqui algumas respostas. Em meu auxílio nessa deambulação transtemporal, recorro aos processos que resultaram nas descrições pictóricas da antiga Estrada de Tōkaidō, especificamente pela série de desenhos e gravuras ukiyo-e As 53 Estações de Tōkaidō (東海道五十三次之内 – 1833-1834), composta por Hiroshige Utagawa e equipe. O desenho e seus gestos, como nos ensina Tim Ingold, é versátil à pesquisa antropológica: ora como objeto, ora como método, ora como produto, ora, como diria Anna Tsing, como arte de notar. Entre outras características remetidas pelo desenho e o desenhar em campo, elenco seus ritmos processuais lentos de composição – favorecendo o que Ingold denominou de educação da atenção –, e a capacidade de destacar, com impressionante nitidez, elementos de complexas assembleias mais que humanas – seja a partir da percepção do autor, ou da imaginação de seu observador
Agenciando casas e(m) movimentos: O trabalho cotidiano de mulheres vaqueiras e a categoria feminina na vaquejada pé de mourão cearense
Com base em um estudo etnográfico realizado em duas fazendas no município de Sobral (CE), esta pesquisa busca analisar o trabalho feminino exercido nessas casas de morada e a presença das mulheres nas vaquejadas pé de mourão cearenses a partir da existência de um coletivo denominado Associação Feminina de Vaqueiras da Vaquejada Pé de Mourão (AFEVA). A partir da problematização da invisibilidade das mulheres, do seu apagamento em espaços públicos e privados, e a escassez de produções envolvendo mulheres na agropecuária sertaneja, procuro demonstrar como as vaqueiras aparecem a partir do razoável sucesso obtido por elas com a AFEVA e a categoria feminina, que apesar de mínimo, aciona a sua presença na cena pública, performática e ritual das vaquejadas. As mulheres, enquanto sujeitos generificados e relacionados ao cuidado (seja ele direcionado a criação dos filhos, da casa, dos animais - de terreiro e/ou de seus cavalos de corrida), quando associadas à dimensão feminina-materna, lidam com julgamentos morais concernentes a ser ou não uma boa mãe, principalmente pela constante necessidade de mobilidade que as competições acionam. Essa movimentação provoca ainda adaptações quanto ao uso da “casa”, visto que, por se estenderem por mais de três dias, os caminhões-boiadeiros ocupam nesse cenário de disputas, a função de casa para vaqueiros e vaqueiras, sendo esse o seu local de descanso, banho e preparo de refeições. Destaco que esse movimento de mulheres, apesar dos ideais de rompimento com uma estrutura dominante masculina, não necessariamente coincide com aqueles dos movimentos feministas, mas ocorre dentro de um agenciamento feminino como maneira de viver uma “tradição” centrada na masculinidade, causando rupturas, efeitos e transformações importantes ao longo dessa inserção