Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Beber, dançar e lutar: Uma etnografia sobre modos de morar e fazer política no Centro Histórico de São Luís (MA)
Este trabalho é sobre articulação política e produção da vida. Foi escrito a partir de um pequeno bar, que é também uma casa, uma sala de reuniões, um salão de festas, um espaço de produção de fantasias de carnaval e de distribuição de cestas básicas, no Centro Histórico de São Luís, capital do Maranhão. Nossas e nossos interlocutores são moradores dessa região da cidade, engajados na luta por moradia e nos debates sobre os direitos das profissionais do sexo. Atuam criativamente, há anos, contra parte dos esforços de revitalização da região - Patrimônio da Humanidade desde 1997 - que desenham uma ocupação padronizada e asséptica de cidade. Além disso, defendem a diversidade das pessoas que vive no local, se posicionando contra a estigmatização e exclusão de formas de trabalho e modos de morar presentes na “comunidade”. A pesquisa é uma etnografia, realizada a partir da convivência no Centro Histórico, especificamente no bar escolhido como parte de nossa análise. Pretendemos contribuir com dois debates: aquele sobre política e cotidiano, enfatizando nossa percepção de que as situações ordinárias são fundamentais para a compreensão das insurgências e potências que dão sentido à vida; e aquele sobre a feitura das casas, das redes entre elas, da mobilidade e da produção da “comunidade”
Educação e cultura: Diálogos entre saberes e pertencimento a partir de Círculos de Cultura
O diálogo educacional e intercultural entre conhecimentos formais e não formais muitas vezes se torna desafiador diante da hierarquia de saberes e da formatação curricular das instituições de ensino. O presente trabalho busca levantar alguns questionamentos em torno de educação, cultura e pertencimento a partir da pesquisa em andamento que venho desenvolvendo conjuntamente na Universidade Federal Fluminense. O objeto de análise da pesquisa centra-se na prática pedagógica desenvolvidas no curso de licenciatura em Ciências Sociais e no projeto de extensão, onde são realizados Círculos de Culturas. Nestas práticas são realizados trabalhos de campo em grupos e coletivos de artes e cultura popular da cidade e a realização de roda de saberes dentro e fora do espaço universitário. Como o campus está localizado no interior do Rio de Janeiro, grande parte dos discentes é de outras localidades e não conhecem muito bem a cidade, restringindo suas atividades entre local de estudos e moradia. Com isso, os Círculos de Culturas vêm se tornando uma prática educativa importante na construção de vínculos na universidade e também de laços de pertencimento com a cidade a partir de trocas de saberes e mapas afetivos entre a cidade de origem e com a cultura local
“Facas de dois legumes”: Sobre os emaranhamentos e tramas no aprendizado de um curso de culinária
“É como se a flecha estivesse pensando, inseparável que é do corpo tanto como ferramenta quanto como beleza” (Taussig, 2021, p. 2, grifo do autor). Como entender a relação entre os sujeitos e as coisas que se emaranham (Ingold, 2012) ao longo da trama de uma determinada superfície, e como o aprendizado de uma prática atravessa essa reunião e a produção mútua tanto das coisas como dos sujeitos? Como esses emaranhamentos são orientados por uma perspectiva estética e ética de relação tanto com os materiais quanto com as ferramentas? Situando-se no contexto de um curso de preparo de sushi da cidade de Florianópolis (SC), este trabalho se dedica a uma “etnografia afiada” para apresentar um conjunto de observações iniciais sobre a rotina de aulas e exercícios neste lugar, notando como o desenvolvimento das habilidades culinárias pelos estudantes participa da produção de um campo de práticas relacionadas (Ingold, 2010), em que as técnicas corporais (Mauss, 2005) se emaranham às ferramentas e materiais do trabalho ‒ em especial às facas ‒, e como as formas dessas “coisas” produzem seus próprios modos de fazer na dinâmica entre corpo humano e corpo metálico, entre traços e rastros feitos pela atividade culinária nesta malha de pessoas e coisas
Digitalização de Práticas Psis: Uma problematização sobre o uso alienado de tecnologias digitais na psicologia
A digitalização das práticas psis compõe uma das faces de um processo amplo de captura digital da vida, catalisado e evidenciado pela pandemia. As formas de conhecer, comunicar e intervir psis têm sido moduladas amplamente pelo uso de TDIC’s que mediam e conectam profissionais e usuários. Plataformas digitais que além dos serviços fins que oferecem, também compõem um projeto de dataficação e algoritmização da vida. Propomos um ensaio teórico que problematize a digitalização das práticas psis através do uso ingênuo e alienação técnica com a qual a psicologia tem usado plataformas comerciais para deslocar práticas tradicionalmente analógicas na ecologia digital. Como pode a psicologia modular suas práticas de trabalho com interfaces digitais para promover saúde mental coletiva e ampliar modos de ser e existir no mundo fazendo uso de TDIC’s situadas no domínio de big techs de vigilância, colonialismo e extrativismo digital? A paradoxal digitalização das práticas psis através de interfaces digitais hegemônicas coloca em análise o problema da crença na neutralidade das tecnologias e no desenvolvimento alienado de práticas psis que têm sido catalisadoras de elementos singulares e sensíveis transformados em dados na maquinaria hegemônica da informática de dominação que controla e quer ditar modos de subjetivação contemporâneos. Como saída possível, apostamos na desalienação digital das práticas psis e no uso de tecnologias de software livre
O impacto da pandemia na vida das mulheres: a distribuição da violência no município de Campinas
A violência contra as mulheres é um problema estrutural em nossa sociedade. No cotidiano, as mulheres enfrentam diversos tipos de violência, seja nas ruas, no trabalho ou dentro de suas próprias casas. Essa violência também afeta diretamente a vida delas, retirando-as a liberdade e consequentemente seus direitos. Ao abordarmos a questão das mulheres, é fundamental compreender como elas estão distribuídas na sociedade, considerando como raça e classe social. Em Campinas, uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes, de acordo com o censo do IBGE de 2022, observa-se uma frequência alarmante de violência contra as residentes, especialmente em áreas periféricas e de maior vulnerabilidade social. Este estudo, desenvolvido por alunas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM) do Instituto de Geociências da Unicamp, tem como objetivo compreender e analisar a distribuição da violência de gênero no município de Campinas durante o período da pandemia, por meio de uma abordagem geográfica. Este projeto utiliza a metodologia do PBL (Problem-Based Learning). A análise revelou que o período da pandemia impactou de modos diferentes as denúncias de violência contra as mulheres nas diversas regiões de Campinas, destacando-se o fato de que os principais agressores estão próximos às pessoas vítimas e, principalmente, o aumento acentuado de registros na região sul do município
A relevância do trabalho de campo e do turismo pedagógico para o processo ensino-aprendizagem de Geografia da educação básica
O presente trabalho faz parte de uma pesquisa de mestrado profissional em ensino de Geografia, pertencente ao programa em Rede Nacional PROF GEO e que está sendo desenvolvida no Instituto de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IGEOG - UERJ), e é apoiada pelo EduCapes. A pesquisa defende que as metodologias de ensino-aprendizagem do trabalho de campo e turismo pedagógico apresentam grandes contribuições para o processo de (re)construção do conhecimento de Geografia de estudantes da educação básica. As hipóteses da pesquisa são as de que os trabalhos de campo e atividades de turismo pedagógico despertam o interesse dos(das) discentes sobre os assuntos trabalhados; que os(as) alunos(as), os(as) quais realizam trabalhos de campo e visitas relacionadas ao turismo pedagógico, geralmente demonstram um conhecimento geográfico, sobre os temas abordados, mais aprofundado do que aqueles(as) que não participam dessas atividades; que os(as) educandos(as) participantes reconstroem sua relação com os espaços das atividades do trabalho de campo e turismo pedagógico; e que a relação entre o(a) professor(a) e o(a) aluno(a) é transformada. Sendo assim, o objeto de estudo da pesquisa em questão é o trabalho de campo e o turismo pedagógico no processo ensino-aprendizagem de Geografia de estudantes da educação básica. O objetivo principal é analisar a importância do trabalho de campo e do turismo pedagógico para o processo de construção de conhecimento geográfico de estudantes da educação básica. A metodologia adotada é a revisão teórico-conceitual sobre trabalho de campo e turismo pedagógico, ressaltando autores(as) como Callai e Zarth (1988), Padilha (2021), Raykil e Raykil (2005) e Moesch (2013); a relação entre os instrumentos pedagógicos em destaque; e a abordagem do trabalho de campo e turismo pedagógico como metodologias ativas no processo ensino-aprendizagem. Baseando-se na concepção de uma educação transformadora com o objetivo de formar indivíduos críticos e ativos na construção de uma realidade e espaço igualitários, o trabalho de campo e turismo pedagógico se mostram como metodologias contribuidoras para a emancipação dos(das) lecionandos(as) e formação de uma sociedade justa. Isso porque essas metodologias, além de geralmente despertarem o interesse de estudantes, valorizam o seu conhecimento e a interação entre professores(as), alunos(as), teorias e porções do espaço geográfico, tornam a aprendizagem e o ensino significativos e reconhecem os(as) discentes como produtores(as) de conhecimento e sujeitos históricos
Práticas no ensino de Geografia: propostas pedagógicas para o estudo do relevo
Este trabalho visa apresentar algumas práticas pedagógicas desenvolvidas por professores de Geografia do 6o ao 9o ano do ensino fundamental. As atividades compreenderam metodologias diferenciadas aplicadas em sala de aula para o estudo do lugar de vivência dos alunos, do relevo do território brasileiro e dos continentes americano, europeu e asiático. O objetivo principal das atividades desenvolvidas foi colocar os alunos como protagonistas do processo de ensino/aprendizagem, permitindo que eles realizem pesquisas, comparações, relações, produção de mapas temáticos, e que possam compreender as dinâmicas envolvidas na formação do relevo terrestre. Para tanto, as atividades contaram com leitura de textos do livro didático, elaboração de resumos, leitura de mapas, produção de mapas com lápis de cor, produção de mapas táteis e vídeos explicativos e maquetes. A diversidade de metodologias, bem como o uso da cartografia, vídeos, maquetes, colocando os estudantes como protagonistas no processo de ensino e aprendizagem, pode enriquecer o trabalho do professor. O estudo do relevo com práticas diferenciadas tem se apresentado como tal
Hidro-grafias: Pensar-com ou desenhar-com os rios
Este trabalho se propõe a construir um vínculo entre a cartografia e as ideias defendidas pelo antropólogo britânico Tim Ingold para explorar maneiras de cartografar com os rios. O objetivo é tentar superar a aridez tradicional que registra os corpos d’água como meras linhas vazias de vida. Será feito um breve apanhado histórico da cartografia em sua dimensão geográfica, invocando os mapas como ferramenta para imaginar mundos. Com esse aporte conceitual, voltamos a Ingold para conjecturar a pesquisa cartográfica como uma forma de se juntar ao que o autor chama de “processo de formação”. Buscamos entender a constituição das paisagens, lugares e territórios como formações continuamente abertas. Logo, pesquisar e representar os corpos d’água pressupõe superar a separação objeto-sujeito, pesquisador-meio. Tendo como mecanismos de investigação as pesquisas bibliográfica e iconográfica, pretende-se defender que a compreensão dos rios e dos imaginários que se misturam às suas águas estão para além de desenhos que os representam vistos de cima e de fora. A intenção é debater como cartografar e mapear com os rios. Parte-se da compreensão que é com o corpo que se faz pesquisa, experimentando as fronteiras borradas entre o corpo pesquisante e os corpos d’água para o rio finalmente molhar o mapa
Aspectos da escatologia entre os Rikbkatsa
O artigo pretende perseguir as seguintes questões: por que os Rikbaktsa, uma população de língua Macro-Jê do sudoeste amazônico, não sustentam mais a realização das festas do ciclo chuvoso? Qual a relação disso com a prevalência dos espíritos (hyrikoso) dos mortos no cotidiano? Atualmente, os Rikbaktsa dizem que os espíritos dos mortos estão destruindo as roças e é isso o que os impede de fazerem as festas. Afinal, a presença de alimentos vegetais em abundância é imprescindível para a realização do ciclo de cerimonias da chuva, cuja fase final é dedicada às escarificações corporais e confirmações cerimoniais de nomeação. Dessa maneira, os Rikbaktsa atestam que a destruição das roças é uma das formas possíveis de agressão causada pelos espectros dos mortos. Com essa modalidade de agressão, os espíritos comprometem a vitalidade e a construção dos corpos em contexto ritual. Essa imagem nos servirá de pretexto para apresentar a classificação que os Rikbaktsa fazem dos espectros terrestres dos mortos, os quais eles dividem em não agressivos (bato tsikyriaĩtsa) e agressivos (tsikyriaĩtsa). Ao abordar esse problema, pretendo demonstrar de que modo os indígenas incluem os espíritos dos brancos na categoria de agressivos.