Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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A experiência coletiva da permacultura frente à crise socioambiental
O presente texto pretende discutir a permacultura como estratégia frente à crise socioambiental. Com fundamento na pesquisa de campo, desenvolvida em sítios dedicados à prática permacultural, e em entrevistas com pioneiros da aplicação desta estratégia no Brasil, buscou-se descrever estes espaços através dos processos de associação entre diferentes entidades que compõem os “sistemas permanentes”. Neste escopo, discute-se a relação de aproximação e recusa entre a permacultura e a ciência acadêmica, refletindo sobre as noções de pesquisa e ciência neste campo. Como resultado, obteve-se uma descrição desta estratégia, à luz da teoria ator-rede, e que suscita a reflexão sobre modos de vida contemporâneos e possibilidades futuras emergentes
“Yepalogia”: um experimento de reflexividade indígena e de antropologia simétrica
Alunos indígenas da pós-graduação em antropologia social da UFAM, professores orientadores e esquisadores de apoio técnico formam uma equipe de trabalho com o objetivo de desenvolver coletivamente uma obra sobre os conhecimentos Yepamahsã (tukano). A empreitada iniciou-se dentro de um projeto do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) que buscava compreender antropologicamente os “conceitos práticos e discursivos ancorados nas cosmologias indígenas”. O exercício reflexivo em questão seguiu uma proposta, lançada anos antes, em defesa de uma ‘antropologia plural, simétrica e cruzada’ (Mendes dos Santos e Dias Jr, 2009), a qual foi refinada e amadurecida pelo ingresso dos alunos tukano na pós-graduação. Essa experiência analisada aponta para dois momentos e dimensões: um, contínuo, entre 2015 e 2016, no âmbito das discussões coletivas do NEAI e outro pontual, fora do espaço universitário. O primeiro estimula e alimenta o exercício de reflexividade indígena que visa pensar o pensamento, no processo de identificar categoriais e conceitos que melhor deem conta de expressar as ideias Yepamahsã, desfazendo-se, pouco a pouco, das noções científicas e cristãs sedimentadas pela instituição escolar. O outro momento refere-se a um encontro desses alunos indígenas, já munidos de certos estratagemas da tradução antropológica, com detentores do conhecimento Yepamahsã – os kumuã –, num simpósio organizado em São Gabriel da Cachoeira (AM), com o objetivo de apresentar e debater os esquemas conceituais que eles vinham desenvolvendo. A partir disso, como então trazer os conhecimentos produzidos em uma possível teoria Yepamahsã para ser inscrita de modo simétrico no modelo de escrita e sistematização do conhecimento antropológico
Estudantes indígenas nas universidades: sobre modos de conhecer, de construir relações e de traduzir conhecimentos
Essa comunicação apresenta as principais questões de uma pesquisa em andamento que tem como foco o acesso recente e intenso de estudantes indígenas às universidades e aos espaços acadêmicos, refletindo em torno de regimes de conhecimento. É possível, nesses espaços, aproximar e permitir dialogar saberes e conhecimentos que se exprimem por processos diferentes? Ou ainda, é possível apostar em modos de tradução e de transformação desses conhecimentos?Ao acompanhar experiências de estudantes indígenas em cursos regulares de graduação na UFSCar e de alguns estudantes indígenas de pós-graduação em Antropologia Social na UFAM, buscarei levantar alguns pontos para reflexão, como: 1) os modos de conhecimento que se realizam nessas experiências devem ser percebidos não somente em ambientes de sala de aula e de pesquisa, mas se estendem a diversos momentos da formação universitária desses estudantes, demonstrando que a ideia de “conhecimento” deve ser ampliada para umas perspectiva mais composta, que se atente a modos de se relacionar, de ocupar espaços, de constituir sujeitos políticos e de construir alianças e relações que se entremeiam no campus universitário e para além dele; 2) o acompanhamento das experiências dos pós-graduandos indígenas em Antropologia nos leva a refletir sobre processos de produção de pesquisa como modos de tradução e de transformação de conhecimentos, cujos efeitos parecem caminhar para novas possibilidades de produções antropológicas, tanto com relação às metodologias de pesquisas quanto à produção de conceitos e categorias que se realizam nesses processos; e 3) a necessidade de nos atentar para as relações construídas em todas essas experiências, e os efeitos que elas produzem nas formações e produções acadêmicas desses estudantes
Farmácia e farmacêuticos em São Paulo por um viés de gênero: Formação de alianças e delimitação de fronteiras
Este texto apresentará algumas discussões que realizo em minha pesquisa de mestrado (em andamento), seguiremos os farmacêuticos paulistas que, através da fundação de associações científicas, revistas e instituições de ensino, buscaram criar um campo profissional separado da medicina, nos anos iniciais da Primeira República. Para tanto, esses grupos estabeleceram alianças com outros profissionais e também com os nãohumanos, determinando, assim, quais conhecimentos e objetos povoariam suas práticas. Juntamente a esta busca por alianças poderemos perceber um movimento co-extensivo de delimitação de fronteiras: quem estaria autorizado a exercer esse ofício? Após a fundação da Escola de Pharmácia (1898), observaremos como esse processo de institucionalização se misturou à um novo e controverso elemento: a formação de mulheres. Sendo assim, atentaremos como os grupos envolvidos na fundação da Escola (farmacêuticos, médicos e políticos paulistas) buscaram criar uma relação de coerência entre a formação de farmacêuticas e o fortalecimento de um ethos científico de neutralidade, esse último vinculado ao masculino (STENGERS, 2013). Observaremos por meio de quais estratégias e argumentos os discursos de fundação da Escola desejaram, de antemão relegar as futuras farmacêuticas a aturem junto às misturas, nos “bastidores” da prática científica que se desejava fundar. Entretanto, por fim, desejamos pontuar como, afastar as farmacêuticas do nobre momento da purificação científica (LATOUR, 1994) e do progresso, pode coloca-las num espaço mais potente e criador COM os não-humanos (DESPRET; STENGERS, 2011)
Psicologia e tecnologias de comunicação: desafios contemporâneos para intervenção com sujeitos conectados
O aumento exponencial da participação de especialistas psis em programas de televisão e revistas, a criação de perfis profissionais nas redes sociais, sites e blogs para divulgação, orientação e aconselhamento psicológico, justificam o problema proposto nesta pesquisa: como psicólogos fazem uso das tecnologias de comunicação para fins profissionais e quais os efeitos dessas práticas na construção da Psicologia enquanto ciência e profissão? O objetivo é problematizar a constituição dos saberes psicológicos apoiados na intimidade dos sujeitos acompanhando o movimento de tornar pública esta intimidade por meio de tecnologias de comunicação. A presente pesquisa está pautada naquilo que Mol (2002) indica como um estilo de investigação praxiográfico, afirmando que naspráticas os objetos são feitos (enacted), isto é, eles existem por meio das práticas e não antes delas. Tendo como base o campo de estudos Ciência Tecnologia e Sociedade será investigada a psicologia em ação por meio do rastreamento da participação de psicólogos em diferentes mídias. O desenvolvimento tecnológico permitiu que práticas psicológicas atingissem um número significativo de pessoas. No entanto, não há uma mudança de foco nas intervenções de psicólogos, continuam por tratar intimidade, mas há uma mudança de práticas e espaços ocupados: deixam os limites do consultório particular e ocupam meios de comunicação de massa. Práticas somente possíveis na articulação com as tecnologias. Esta pesquisa intenciona analisar os efeitos dessas práticas na sociedade e na construção da Psicologia enquanto ciência e profissão
Deuses ou ciborgues? Uma análise multiespécies do conceito de assentamento no candomblé
O candomblé foi frequentemente definido, tanto pelos afro-religiosos quanto pelos antropólogos, como sendo uma religião de culto à natureza. O conceito de natureza porém nem sempre apresenta uma definição unívoca. Pelo contrário, é um dos termos mais controversos do debate contemporâneo. Combinando dados etnográficos e teóricos, a autora pretende refletir sobre o papel do dispositivo, ao mesmo tempo tecnológico e espiritual, que caracteriza a religiosidade de matriz africana: o assentamento. Requisito do culto e dos rituais iniciáticos, o assentamento geralmente é descrito como receptáculo simbólico, mas também como corpo e boca físicos da própria divindade (orixá, nquice, vodum, ancestral, entidade, etc.). As regras da confecção desse fe(i)tiche (LATOUR, 2002) nos ajudam a entender melhor uma possível teoria da natureza, onde um conjunto de objetos materiais serviria de instrumento de comunicação com o mundo invisível.Este objeto misterioso e secreto, vivo e fabricado, é alvo de controvérsias, negociações e relações de poder dentro e fora das comunidades de terreiro. O assentamento se configura também como encruzilhada entre tudo aquilo que é humano e não-humano, visível e invisível, natural e tecnológico, animado e inanimado. Subvertendo as grandes divisões dicotômicas do pensamento ocidental, o assentamento nos obriga a retomar a metáfora do ciborgue (HARAWAY 2000) como tecnologia essencial na construção cultural e social dos seres humanos e “sobrenaturais”
Cães, gatos, mamães e pet sitters: a relação entre humanos e animais de estimação e seus contrapontos
As relações interespecíficas estão presentes em nosso cotidiano desde o início do que se convencionou chamar Humanidade, e vêm transformando e sofrendo transformações, marcadas por uma trajetória não necessariamente linear, mas com ambiguidades e controvérsias. Num intento de compreender, a partir de uma mirada sociológica, os cuidados humanos nos processos de adoecimento, envelhecimento e morte de animais de estimação, realizei uma etnografia em um hospital veterinário localizado num bairro de classe média alta na cidade de Curitiba – PR, acompanhando veterinárias e responsáveis pelos animais. Este trabalho expõe as principais reflexões advindas desse contato, especialmente ligadas a emoções e modelo social de afeto, expansão da produção e consumo ligados à saúde animal, luto e procedimentos funerários. Mais do que isso, pretendo apresentar as primeiras impressões surgidas a partir de um grupo focal, desenvolvido posteriormente à etnografia, com estudantes de Educação de Jovens e Adultos na cidade de Jaraguá do Sul - SC, que já atuaram como cuidadoras de animais ou empregadas domésticas em residências em que havia animais de estimação. Diante da dificuldade de compreender aquilo que os próprios cães ou gatos sentem em relação aos humanos, uma saída metodológica interessante é a de contrapor as diferentes visões humanas acerca da relação entre os animais de estimação e seus responsáveis humanos
DESMANCHANDO A ÁFRICA EM MIM – A COLAGEM COMO POSSIBILIDADE DE CRIAÇÃO NA EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA
Trata-se de um fragmento de uma pesquisa-experimentação. Experimentação como pensamento, como criação, como potência de subjetivação, e não como vontade de verdade. Um exercício de pensamento com e pelas imagens na educação geográfica. Uma escrita que é resultado de uma pesquisa que intencionou problematizar a África presente nas imagens didáticas a partir do estereótipo e da alteridade, principais estratégias do discurso colonial, e que operam pela dimensão racial. Entre os exercícios realizados está a colagem. A partir da técnica de colagem como possibilidade de tratar a imagem como um espaço de experiência, penso a educação pelas imagens num diálogo entre a geografia, a filosofia e a educação a partir da dimensão das subjetividades, do espaço como trajetórias e estórias, e não apenas como superfície, como localização geográfica. Mobilizo o pensamento a encontrar outras paragens e passagens para ver Áfricas que escapem desse desejo de ilustrar, representar, didatizar, e fixar os espaços em imagens que paralisam o pensamento. Para isso foi preciso desarranjar, deslocar imagens, suprimir legendas, mover o continente que está fixo nas páginas dos livros didáticos, e levar essas imagens para brincar, ou seja, deslocá-las do lugar de ilustração e experimentar com e a partir delas outros encontros, outras imagens. Esse exercício também oportunizou um pensamento que toma a espacialidade da questão racial como dimensão fundamental para os debates e práticas educativas na educação geográfica
O DISCURSO JORNALÍSTICO E A VINCULAÇÃO DE NOTÍCIAS SOBRE FENÔMENOS CLIMÁTICOS: POTENCIALIDADES DIDÁTICAS
Nesta pesquisa, trazemos como intencionalidade o estudo das potencialidades do discurso jornalístico como um dispositivo didático. Buscamos selecionar notícias que foram publicadas por jornais de grande circulação para poder analisar a maneira com a qual é tratada a informação climática e assim identificar possíveis erros conceituais empregados por elas, observar a relevância da informação climática no conjunto jornalístico e finalmente, organizar uma hemeroteca, propondo usos didáticos e proporcionando aos professores da área de Geografia o uso deste relevante material que está inserido no cotidiano dos alunos para tratar temas relacionados à Geografia Escolar dentro da sala de aula
EDUCAÇÃO E FOTOGRAFIA: MULTIPLICIDADES DO LUGAR ESCOLAR
O presente artigo é resultado parcial da pesquisa de mestrado intitulada “A linguagem cinematográfica no estudo do lugar”, que propõe uma metodologia com cinema para o ensino de Geografia a partir do conceito de lugar, segundo Doreen Massey (2008). A pesquisa consiste na elaboração, produção e aplicação da versão cinematográfica do projeto “Diferentes linguagens no estudo do lugar: propostas e diálogos para Atlas Municipal Escolar”, que está sendo desenvolvido com o apoio colaborativo dos discentes do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID Geografia – UNESP Ourinhos (Núcleo Escola Racanello). Para tal, num primeiro momento realizamos uma pesquisa bibliográfica buscando compreender o fenômeno do surgimento da fotografia no século XIX, seguida da invenção do cinema e seus desdobramentos no século XX. Em seguida, buscamos analisar os olhares dos alunos dos 8°s anos do ensino fundamental da Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof.ª Adelaide Pedroso Racanello, na cidade Ourinhos-SP, através de oficinas de fotografia e dispositivos sugeridos para a captação de imagens pelos próprios alunos com seus celulares. E, posteriormente, num terceiro momento, os alunos apresentaram as fotografias que produziram na escola aos demais colegas de classe, proporcionando uma roda de conversa sobre as imagens por eles registradas. Os resultados obtidos apresentaram uma vasta amplitude de olhares e concepções sobre o lugar escolar, abrindo assim caminhos para novos trabalhos nesse sentido, nos quais as imagens possam ser incorporadas como uma forma de representação validada pelo olhar do sujeito, revelando a multiplicidade dentro do espaço e ambiente escola