Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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A época é do homem! E como fica a vida com os outros animais?
O atual panorama ambiental da sociedade está em transformação. Para uns, desdobra-se de uma crise civilizacional, para outros de um ciclo geofísico natural e para outros um mix desses dois aspectos. Nisso, as discussões que envolvem este cenário dirigem-se ao entrecruzamento dos debates sobre o antropoceno, a defaunação e ética, tendo como eixo estruturador neste trabalho, a conservação da fauna silvestre amazônica a partir da relação humano e não humano. É um trabalho qualitativo descritivo, favorecendo o entrecruzamento das informações coletadas. Baseando-se na pesquisa bibliográfica foram realizados diálogos entre as informações obtidas em órgãos oficiais, periódicos científicos e em bases empíricas dos autores. Inicialmente partimos do fato de que toda e qualquer análise ou avaliação ocorre por um viés etnoantropocêntrico. O outro condiz ao panorama ambiental refletindo no perfil dos atuais agentes transformadores da estrutura do sistema ambiental global, logo estes seres não são meros agentes biológicos, mas sim geológicos, caracterizando assim, a época do antropoceno. E como empreendimento do antropoceno, temos a defaunação, ou seja, o processo da perda de espécies das populações de animais silvestres, a qual seria a sexta em curso. Vista inicialmente como uma estratégia salvadora, a conservação, ou seja, o ato de utilizar algo de forma sustentável tem-se mostrado relevante neste cenário. E isso é potencializado quando as ações para conservar uma espécie animal envolvem a dimensão ética, social, cultural e educativa local
Quadros de referência de hidrelétricas, um olhar ontológico
A respeito dos estudos sociais da ciência e tecnologia, GOODMAN (1978) diz que o os métodos são aqui vistos como formas de fazer o mundo, assim é possível compreender a virada ontológica que ocorreu nas últimas décadas sobre o tema. SISMONDO (2015) apresenta esta virada neste campo por causa das afirmações sobre a ubiqüidade de um certo tipo de construção ôntica. O Brasil possui um alto potencial de produção de energia através de usinas hidrelétricas por conta da grande disponibilidade hídrica em seu território, focando a promoção de energia para esta fonte. Desta forma, este trabalho propõe discutir as diferentes realidades dos empreendimentos de hidreelétricas, diante da perspectiva das mudanças climáticas. A maneira em que as emissões de barragens são comparadas com as de combustíveis fósseis muitas vezes distorce os resultados, particularmente para o valor do tempo (FEARNSIDE, 2015). Relatar os interesses e as diferentes formas de trabalho demonstra a percepção holística e colabora para o desenvolvimento das políticas públicas com objetivo de diminuir as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do país. As diferentes escalas identificam os principais atores como os grupos tradicionais diretamente afetados, cientistas divergentes e agentes diretos nas políticas públicas. Esta análise contribuiu para caracterizar as ontologias envolvidas no processo, isto é, qualifica os pontos de similaridade focando para conversão dos objetivos para mitigação das mudanças climáticas
Direito, mudança climática e apropriação da natureza: uma aproximação teórica
A crise socioambiental tem sido construída por um processo de constantes violências e apropriações, sobretudo nos espaços colonizados. É inegável a presença de uma força externa que explora recursos e povos, trazendo consequências negativas e, logo em seguida, apresenta soluções para resolver os problemas então gerados: a colonização gerou a degradação das riquezas naturais e os enraizou nos problemas sociais; após o período colonial, impôs-se o estigma do atraso a ser superado pela adoção de parâmetros dos países centrais e, atualmente, têm se imposto os ideais desenvolvimentistas para os povos. Um dos mecanismos mediadores destes processos é o direito. As políticas públicas brasileiras partem desta estratégia, porém, sem atentar que as bases de dito modelo são as mesmas que geraram os problemas: a lógica do lucro a todo custo e da mercantilização de tudo, inclusive da natureza. Os mecanismos propostos para o enfrentamento da mudança climática não fogem a estes padrões, limitando os usos tradicionais dos territórios em troca de benefícios, frequentemente, exclusivamente financeiros. Há que se reconhecer que a diversidade de formas de aproximação e apropriação da natureza precisam ser consideradas, posto que nem todas elas passam necessariamente pelo mercado. Os mecanismos jurídicos, contudo, reafirmam modos coloniais de relacionar-se com a natureza, sendo frequentemente o próprio direito instrumento de exclusão das falas de determinados grupos em privilégio a outros
Fragmentos de uma rede imensa – o sistema de clãs e metades dos Ticuna
Tendo em foco o maior grupo indígena do Brasil (mais de 46.000 indivíduos), seria impraticável para um único etnógrafo delinear toda a genealogia lembrada pelos Ticuna (AM). Pretendo aqui fazer um exercício semelhante ao que faz um arqueólogo que, com um fragmento de tecido encontrado de uma população já extinta, nos explica como funcionava o processo de tecelagem desta população. A rede genealógica em questão, portanto, tem a peculiaridade de ser apenas um recorte, um fragmento de uma malha gigantesca para os padrões ameríndios. O método utilizado, portando, é induzir a partir de um fragmento desta rede genealógica algumas proposições que considero possivelmente gerais para o parentesco ticuna, que o número de repetições de um mesmo tipo de aliança de casamento é bastante recorrente.Apesar de operarem com um sistema de metades exogâmicas, há uma forte tendência de o sistema de parentesco operar nas comunidades Ticuna com um par ou trio de clãs dominantes numérica e politicamente, que trocam cônjuges majoritariamente entre si. Através do tratamento computacional (Access) de duas genealogias coletadas por mim em campo pude confirmar que a tendência de intercasamentos exclusivos entre pares de clãs é muito presente entre os Ticuna, ao menos para esta amostragem significativa. Isso indica que as unidades trocadoras de cônjuges no sistema de parentesco ticuna, apesar de operar com metades, são alguns pares ou trios de clãs, como mostrarei, identificáveis
Por uma abordagem ecológica dos efeitos terapêuticos da ayahuasca
A partir de pesquisa de campo em preparos de Vegetal na UDV notei que os efeitos da Hoasca não são atribuídos exclusivamente à Dimetiltriptamina (DMT) presente na Psychotria Viridis e nas betacarbolinas do Banisteriopsis Caapi, mas à mútua aprendizagem entre inteligências humana e Vegetal. Esta concepção assemelha-se com outras indígenas, nas quais a ayahuasca é vista como um Ser cuja ação terapêutica depende de relações entre seres humanos e destes com outros seres. Os recentes estudos em neurociências, por sua vez, apontam a ayahuasca como um promissor antidepressivo da nova geração de tratamentos farmacológicos. A depressão é caracterizada principalmente como um desequilíbrio nas monoaminas cerebrais e os efeitos antidepressivos são avaliados com base nas alterações provocadas pela interação entre a DMT/Betacarbolinas e três neurotransmissores: a serotonina, a norepirefrina e a dopamina. Pretendo traçar diferenças entre tais concepções sobre a ayahuasca, substância e saúde, refletindo com Ingold, e Matthew Ratcliffe no intuito de esboçar uma abordagem ecológica dos efeitos terapêuticos com a ayahuasca. No caso da ayahuasca enquanto antidepressivo levanto as seguintes questões: quais os limites desta caracterização bioquímica da ayahuasca e da depressão? Quais as possíveis consequências da dissociação dos efeitos da ayahuasca de seus contextos espirituais/terapêuticos? Em que medida esta dissociação abrevia processos reflexivos de aprendizagem entre humanos e plantas ao privilegiar a interação entre substâncias como causa dos benefícios terapêuticos
A lama que rolou de cima: As condições das águas na região da foz do rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão-MG
Após o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão em Mariana-MG, em novembro de 2015, houveram diversos desdobramentos do desastre, dos quais destaca-se as discussões sobre as condições das águas na região da foz do rio Doce a partir das práticas de conhecimento empírico-locais e tecnocientíficas. O texto faz parte do trabalho desenvolvido durante pesquisa de mestrado, na qual as práticas de conhecimento empírico-locais foram tratadas etnograficamente em Regência, no estado do Espírito Santo, entre os anos 2015-2018 e as práticas de conhecimento tecnocientífico serão apresentadas a partir da investigação sobre as águas em três relatórios científicos, sendo eles: O relatório da Marinha do Brasil, o relatório consolidado da rede-UFES rio Doce e o relatório sobre as águas vinculado à empresa Samarco. A discussão sobre as práticas de conhecimento tem como objetivo evidenciar as aproximações e os afastamentos em relação às condições das águas produzidas pelas práticas de conhecimento analisadas
Múltiplas ontologias do ser hacker: experiências da CryptoRave
O que é ser hacker está em constante transformação e disputa. Ainda que em alguns espaços de prática e discussão algumas formas do ser hacker se configuraram hegemônicas – como a do hacker como um jovem com conhecimento técnico-científico que programa, constrói e se diverte transformando tecnologias eletrônicas e digitais para sua satisfação – tantas outras formas coexistem, convergem e divergem entre si. A CryptoRave é um dos espaços onde várias formas do ser hacker coexistem e entram em disputa. Neste trabalho, proponho refletir sobre a existência de múltiplas ontologias do ser hacker a partir das observações e vivências em duas edições brasileiras da CryptoRave (2017 e 2018), buscando considerar como essas formas se reafirmam e se contrapõem entre si e se relacionam àquelas identificadas na literatura dos estudos hackers
Música na raça: compondo com mestras e mestres do terreiro Matamba Tombenci Neto
Em 2017 iniciamos nosso projeto de pesquisa/intervenção, vinculado ao Mestrado Profissional em Educação e Relações Étnico Raciais na UFSB, trabalhando com Mestres/Mestras e aprendizes da comunidade do Matamba Tombenci Neto (Ilhéus/BA). Temos concebido juntos o projeto editorial de um livro poético/didático para educação musical e um site que apresente a comunidade a partir da música. Desde o ponto de vista desse trabalho discutimos o entendimento de existências pluriepstêmicas no sul da Bahia; as negociações e conflitos relativos a produção autoral e sua tradução para a racionalidade do sistema escolar, assim como possíveis conflitos com concepções de educação musical de matriz europeia historicamente hegemônicas na organização educacional estatal do Brasil. Discutimos também contribuições de propostas de formações ideológicas, políticas, estéticas e culturais, instruções sobre modos de entendimento sonoro do mundo, pensando dessa perspectiva de encontro de saberes/lugares distintos para recriação (intercultural, transversal) de modos educacionais de matriz afro. Partimos de uma abordagem multidisciplinar que envolvesse ao menos história, legislação, educação, etnopedagogia e etnomusicologia para exercitarmos a tentativa arriscada de pensar nossas práticas locais sem desvincular nossas reflexões de movimentos históricos e geográficos de dimensões mais diversas. Na comunidade do Terreiro Matamba Tombenci Neto, estamos trabalhando com três mestrxs de saberes, Mãe Ilza, Marinho e Ney e com três mestrxs aprendizes, Felipe, Pâmela e Yuri. Nesta empreitada, perguntamos quem foram, quem são e como se dão os modos de educação musical na comunidade do Matamba Tombenci Neto. Nesse processo, mapeamos um pequeno pedaço da história de formadorxs das tradições musicais da comunidade e sua inserção na história da música da região, na formação dos afoxés e blocos afro e no movimento negro no Litoral Sul da Bahia. Nesta etapa do trabalho, em curso, está em andamento a realização de duas oficinas para experienciarmos percursos formativos que nos propomos a traduzir – a deslocar – para o livro/site, num gesto de afirmação e celebração das autorias negras diaspóricas
A interdisciplina Encontro de Saberes/UFRGS como proposta investigativa-metodológica
A disciplina Encontro de Saberes surge na Universidade de Brasília em 2010 na esteira dos debates em torno da inclusão da população afrodescendente e indígena na educação superior e do desenvolvimento de políticas públicas para as culturas populares.Propõe a docência compartilhada entre professores das universidades e Mestres dos Saberes Tradicionais e Populares pertencentes às matrizes indígenas e afro-brasileiras através de experiências interepistêmicas que não separam teoria e metodologia, reflexão e intervenção. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul é oferecida semestralmente desde 2016/2, já envolveu mais de 275 alunos, docentes de várias unidades e cerca de 20 Mestres e Mestras em exercícios interdisciplinares de observação e análise, trabalhos de campo, registros, práticas, improvisações, intervenções e pesquisa teórica. A partir de trabalhos de alunos e de sala de aula, ressignificamos a proposição de Boaventura de Sousa Santos (2002) de que as experiências sociais produzem conhecimento. Reconhecemos nos Mestres os saberes afro-pindorâmicos definidos pelo intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos (2015) a partir da territorialidade
A experiência coletiva da permacultura frente à crise socioambiental.
O presente texto pretende discutir a permacultura como estratégia frente à crise socioambiental. Com fundamento na pesquisa de campo, desenvolvida em sítios dedicados à prática permacultural, e em entrevistas com pioneiros da aplicação desta estratégia no Brasil, buscou-se descrever estes espaços através dos processos de associação entre diferentes entidades que compõem os “sistemas permanentes”. Neste escopo, discute-se a relação de aproximação e recusa entre a permacultura e a ciência acadêmica, refletindo sobre as noções de pesquisa e ciência neste campo. Como resultado, obteve-se uma descrição desta estratégia, à luz da teoria ator-rede, e que suscita a reflexão sobre modos de vida contemporâneos e possibilidades futuras emergentes