Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Habitar incertezas: modos de problematizar as ciências behavioristas
O presente trabalho propõe uma torção de abordagens da filosofia da ciência, Isabelle Stengers, Vinciane Despret e Donna Haraway, fazem das ciências behavioristas do período pós-Segunda Guerra Mundial como um passo na direção de pensar possíveis relações dessas ciências com a cibernética. Formas de habitar as incertezas trazidas pela questão do que podem vir ser as relações entre os organismos e seus ambientes, de modo a não recorrer a sistemas de equivalência que achatem as diferenças unilateralmente, podem ser sugeridos com a recuperação dos modos pelos quais os entraves entre experimentadores, dispositivos experimentais e interrogados se configuraram nas práticas das ciências behavioristas e foram problematizados pelas autoras. São ressaltadas as formas como os animais trouxeram para a produção de conhecimento feita pelas ciências behavioristas questões que não estavam previstas. A problematização das ciências behavioristas, por sua vez, segue pistas sobre como considerar a multiplicidade de afetos, de agências, de mundos que estão em questão, ainda que a proposta não seja partir de um ponto de vista dos animais. A torção proposta pelo presente trabalho vai na direção de pensar como problema os termos de equivalência (como os que colocam, com seus pressupostos, a relação entre organismo e ambiente em termos de comunicação e deslocamentos) que subscrevem a legitimidade que autoriza certos modos de conhecimento se desvencilharem de formas de habitar incertezas em densos emaranhados de relações – congelando transformações, perdas e mudanças que não podem antecipar ou conduzir
Lembrar ruínas: ocupações guarani do espaço e relações com turismo em Puerto Iguazu, Argentina
Este trabalho deriva de minha pesquisa de campo junto aos guarani mbya na cidade de Puerto Iguazu, Missiones, Argentina. Trato do histórico de uma floresta, habitada pelos guarani, que nos anos 2000 foi parcialmente cedida ao grande capital (redes hoteleiras internacionais) que passaram a explorá-la comercialmente por sua ‘intocabilidade’, vedando aos guarani o acesso a áreas com recursos que sempre estiveram disponíveis: plantas, nascentes, rios. Os guarani foram, evidentemente, extremamente afetados pela invasão hoteleira e o turismo passou a ser uma questão/problema cotidiano. Neste trabalho, passo por problemas como: avaliações dos turistas (em sites como trip advisor) considerando os guarani como uma dentre outras atrações turísticas da cidade, as relações dos hotéis com as aldeias, interesses internacionais no turismo sustentável em aldeias indígenas (e suas noções de preservação); mas enfatizo as estratégias adotadas pelos guarani para sobreviver em meio a essa devastação socioambiental. Escrevo principalmente sobre a aldeia Ita Poty que consiste em uma retomada dentro do que viria a ser a área do hotel Hilton (que teria um campo de golf de 18 hectares com um imenso espelho d\u27água), os guarani retomaram essa terra quando a destruição já havia sido iniciada: parte do monte dinamitada, árvores derrubadas e um rio desviado para alagar uma área e transformá-la em laguna (tudo feito em uma zona de preservação). A estratégia dos guarani passou por dar visibilidade às ruínas da floresta, ao invés de tentar reconstruir e aterrar o espaço, optaram por fazer da destruição um lugar de memória e fizeram um observatório de aves para onde levam os turistas em uma caminhada guiada onde contam a história da aldeia e da briga contra o campo de golf. Neste trabalho exploro os caminhos escolhidos pelos guarani, as estratégias inventadas para se movimentar em meio a todos esses atores e como tentam se esquivar do enquadramento e cercamento do turismo criando seus próprios percursos nos espaços que habitam
As intermediações entre o coletivo e o individual no sofrimento psíquico de graduandos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP): diálogos antropológicos com campos da saúde mental
Esta proposta debruça-se sobre um fenômeno no meio universitário: o sofrimento mental de seus alunos. Com pesquisa empírica junto aos alunos de graduação da FFLCH-USP, a pesquisa visa entender em que medida há uma interação específica entre saúde mental e a experiência de discriminação associada aos marcadores sociais da diferença (raça, classe, gênero, sexualidade, dentro outros) através da convivência e das narrativas destes alunos. Deseja-se apreender o caráter relacional desses sofrimentos que ocorrem no ambiente universitário e as formas complexas como tais marcadores se entrelaçam nessas narrativas. Parte-se do entendimento de que tal fenômeno não se estabelece de forma homogênea entre os alunos, mas as junções de determinados marcadores apontam uma maior suscetibilidade de sofrimento psíquico, derivado de condições precárias específicas de determinados grupos sociais em contraposição a outros no contexto universitário e da precariedade nas estruturas de inclusão e permanência
Corpos castos, sangues profanos: mulher, menstruação e medicina na américa portuguesa do século XVIII
O conceito de ciclo menstrual foi se construindo, ao longo dos séculos, e incorporando significados concebidos a partir do imaginário social e religioso. Foi objeto de censura e, muitas vezes, de medo nos meandros da sociedade mineira na América portuguesa do século XVIII. Esse tema recebeu atenção no manual de medicina setecentista Erário mineral (1735) do cirurgião-barbeiro Luís Gomes Ferreira, que aborda o assunto e descreve como se deve tratar essas alterações fisiológicas. Deste modo, propõe-se, enquanto projeto de pesquisa, compreender como a medicina estava organizada no setecentos, qual o paradigma médico dominante nas academias e em quais teorias os praticantes da colônia mineira se pautavam, pretendendo, também, assinalar as manifestações do útero que moldaram a desqualificação/inferiorização das mulheres. A metodologia adotada pela pesquisa é a descritiva, onde se procurou fazer um levantamento das descrições sobre a menstruação e as consequências do contato com esse sangue, bem como, a explicativa, examinando as descrições para apreender o conceito de menstruação no setecentos, quanto compreender as relações que situam o sangue menstrual com doenças patológicas, físicas e mentais. A pesquisa concluiu até o momento que a Teoria Humoral HipocráticoGalênica foi o paradigma médico dominante desde o século V a.C até a primeira metade do século XVIII, onde os manuais de medicina que circulavam na colônia mineira na América Portuguesa, trabalham as doenças com base nessa teoria, bem como, devido ao complexo contexto do setecentos, no que tange aos campos de conhecimento que buscavam explicar a saúde e a doença, havia diversos personagens na colônia que atuavam na terapêutica, tais como poucos médicos, muitos cirurgiões, boticários e atuantes na ilegalidade, como curandeiros, benzedeiros e parteiras. A medicina portuguesa baseada nos princípios hipocráticos enquadrou a menstruação feminina na teoria, a enxergando como uma catarse, um fluído venenoso que se formava todo mês em seu útero e necessitava ser evacuado, a mulher era vista como uma doente desde seu nascimento por sua fisiologia, o mesmo fluído causava-lhe doenças físicas, incluindo diversos sintomas como dor e epilepsia, até as mentais como histeria e desordens mentais
Las dos pachas: notas etnográficas sobre arte, conflictos y comunidades en salinas grandes
En el verano de 2020, el artista Tomás Saraceno llevó adelante un proyecto en Salinas Grandes en articulación con las comunidades locales, llamado Aerocene Pacha. Inspirado parcialmente en la cosmovisión andina, el proyecto fue ideado como una experiencia multidisciplinar y cooperativa que contó con la participación de artistas, ingenieros, sociólogos y las comunidades del salar. Uno de sus objetivos era articular los intereses del arte contemporáneo, los debates alrededor de la noción de Antropoceno y las luchas indígenas contra el modelo neoextractivista. Desde 2010, Salinas Grandes es el epicentro de una serie de conflictos con el Estado por proyectos de minería de litio. En este sentido, la propuesta de Saraceno es una de las tantas de origen ‘externo’ que desde hace dos décadas vienen asociándose a las comunidades en el marco de procesos locales de movilización. Estas articulaciones, que convocan los más diversos intereses, tienen como principal eje de referencia el conflicto socioambiental en el salar. No obstante, al explorar etnográficamente este punto de aparente convergencia, son las ‘diferencias’ las que paradójicamente cobran un papel organizador relevante. En esta ponencia, me detendré en algunas de las relaciones que emergieron entre el artista y su equipo y las comunidades de la cuenca de Salinas Grandes y Laguna de Guayatayoc. Mi propuesta es que estas relaciones implicaron al menos dos perspectivas, en las que solo en una de ellas (la de Aerocene Pacha) las acciones pueden definirse motivadas por intereses comunes. Para argumentar esta afirmación, voy a presentar una descripción de los supuestos implicados en la noción de pacha de Aerocene y de las comunidades, así como del uso del ‘desacuerdo’ en la organización local. A través de estos materiales, mostraré que la conexión que el proyecto impulsó entre estas nociones y prácticas puede conceptualizarse como un “equívoco”, en el sentido definido por Viveiros de Castro. También voy a señalar que estos equívocos no fueron vividos de forma equivalente. Para el artista, algunas de las situaciones producidas por la discrepancia entre sus expectativas y las ‘fricciones’ de los vínculos intercomunitarios, fueron interpretadas en ciertas ocasiones como un obstáculo organizativo. Mientas que para las comunidades estas fricciones son parte de un dispositivo de territorialización denominado localmente como ser dueños, que cumple un importante papel en las prácticas cosmológicas y en la defensa del territorio
Midiatização, cibercultura e educação: vocabulário e processos de ensino aprendizagem na educação profissional
A internet e as redes sociais têm se tornado, cada vez mais, parte do cotidiano e da aprendizagem de jovens, adolescentes e crianças, o que representa um desafio ao método tradicional de ensino das escolas brasileiras. Sendo assim, a presente comunicação discute a influência dos novos meios de comunicação no processo de ensino-aprendizagem, especificamente, no cotidiano de estudantes do Ensino Médio Integrado à Educação Profissional do Instituto Federal do Pará (IFPA). Os resultados apresentados foram obtidos por meio de revisão bibliográfica, aplicação de questionário e entrevistas junto a estudantes de cursos técnicos integrados ao ensino médio do IFPA, campus Belém. Por meio dela, notou-se a existência de um vocabulário social, que oriundo do ciberespaço, participa, crescentemente, dos processos sociais, em especial a educação. Notou-se, ainda, que as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) estão, cada vez mais, presentes no ambiente escolar, participando dos processos de ensino-aprendizagem. Com base nestes resultados, foi possível inferir que a internet e as redes sociais não só participam ativamente da socialização e vida da maioria dos alunos, como também são componentes indissociáveis do processo de ensino-aprendizagem tradicional, demonstrando a importância de sua incorporação ao debate sobre o fazer pedagógico
Seu ouvido é um penico algorítmico: como o Spotify pasteuriza os ouvintes e direciona os plays de acordo com os objetivos comerciais dele
Este trabalho é uma pesquisa sobre a audição de música no Spotify e sobre as sugestões ofertadas pelos algoritmos que mantêm a audição contínua e passiva dos usuários. Foi realizada através de múltiplos perfis conectados à plataforma, em diferentes mídias e sistemas operacionais. Cada perfil era utilizado tocando música por períodos variáveis (de 4 a 24 horas dia) e dentro de uma diversidade limitada de estilos, artistas e músicas. A partir dessas execuções eram registradas, a cada ciclo, as recomendações feitas pelos algoritmos, nos três níveis em que eles operam no Spotify. O resultado é surpreendente, e a ideia deste trabalho é apresentar a metodologia utilizada e os resultados alcançados ao longo do período de dois anos desta cyberetnografia. Fica demonstrado como a passividade do ouvinte é direcionada para o ganho das grandes gravadoras, em detrimento da experiência musical diversificada prometida pela plataforma quando um usuário se inscreve
Reconhecendo a rede terrestre: apontamentos para uma antropologia da vida
A pandemia de COVID-19 surpreendeu o mundo. Se espalhando pelo globo com uma velocidade compatível com os fluxos ditados pelo capitalismo contemporâneo, produziu milhões de mortes e muitas incertezas. Se a epidemia foi mais inesperada para os que, apesar dos inúmeros alertas referentes à crise ecológica e climática, acreditam cada vez mais no domínio humano sobre a natureza, notadamente por meio da ciência e tecnologia, estudiosos da crise já imaginavam a possibilidade de uma pandemia decorrente da crise ambiental. Com a crise pandêmica, vêm à tona muitos aspectos subjacentes à nossa condição (humana) de viventes terrestres. O risco do adoecimento e as mortes em série explicitam a vulnerabilidade da condição biológica, tornando mais perceptíveis, assim, as conexões com os outros-que-humanos, que compartilham tal condição. Mas os riscos dos tempos atuais vão muito além da pandemia. Assistimos a acontecimentos catastróficos, como os incêndios na Amazônia e no Pantanal, e também a eventos extremos como as ondas de calor em diversas partes do mundo, notadamente no continente europeu. Os alertas, provenientes de atores ligados à comunidade científica, ou a instâncias políticas, desde locais até transnacionais, são cada vez mais comuns, e se sobrepõem aos acontecimentos. Os planos de fuga, seja de soluções mais terrestres para a crise, quando propõem, em seu lugar, a adoção de medidas ligadas à geoengenharia, seja, mais radicalmente ainda, do próprio planeta, ao se estudar e se investir em voos espaciais para Marte, também estão presentes nesse tempo de crises, catástrofes e desestruturações.
Refletir e se engajar para construir uma antropologia da vida requer atenção, sensibilidade e crítica a tantos acontecimentos e forças em jogo. Uma abordagem que busque uma resistência ativa às tragédias em curso, implica que, em primeiro lugar, nos reconheçamos como terrestres, condicionalmente conectados ao planeta onde nascemos e à rede físico-biológica que permite que estejamos vivos. Admitir nossos vínculos com as demais espécies, recusando um antropocentrismo extremo e acionando alguns imperativos da ética ambiental, é um passo imprescindível para concretizar tal empreendimento. A presente proposta buscará trazer reflexões a respeito das temáticas aqui levantadas, contribuindo para os debates tão urgentes e necessários da habitabilidade em um mundo caracterizado pela crise/catástrofe ecológica e climática e das contribuições que uma antropologia da vida pode trazer para o entendimento e a reconstrução desse mundo
Rexistências e cosmopolíticas afro-brasileiras em tempo pandêmico
A pandemia de Covid-19 é uma tessitura multidimensional, que entrelaça fatores biológicos, sociais, políticos e culturais, no processo de saúde e doença, coletivo e individual, vida e morte: portanto, podemos defini-la como sindemia. As comunidades das religiões afro-brasileiras reagiram à sindemia reconhecendo a vulnerabilidade de seus membros e denunciando o fato de o racismo estrutural levar a uma maior incidência de contágios, mortes e perda de emprego entre os negros. Ativaram uma série de ações para proteger a si mesmo e aos outros, fazendo apelo a seus valores tradicionais, tais como a responsabilidade, a união, a solidariedade, a caridade, o amor e o cuidado. Muitos discursos de praticantes das religiões afro-brasileiras denunciam as consequências do sistema colonial capitalista, que levou a uma degradação do ambiente e à pandemia, e coloca em risco a continuação da vida na Terra. Os seres humanos são parte da natureza, conexos ao ambiente e a todos os seres ao longo de linhas de vida, são “compostagem”
Quando a escola toma partido contra o pensamento único
Oficina Pedagógica que objetiva criar um espaço e tempo de discussão sobre o programa Escola Sem Partido, identificando as suas contradições e refletindo sobre a necessidade de pensar outra educação