Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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As Controvérsias em Torno da Tauromaquia na Espanha no Período de 1991 a 2018
A causa animal passou a adquirir grande relevância na sociedade e acabou por refletir em áreas como a justiça, a literatura, dentre outros. Na política ela também ganhou mais espaço, seja no âmbito municipal, estadual ou federal. Na sociedade os interesses, por vezes, são difusos e contrastantes e essas dimensões também estão presentes nos vários projetos de lei que são elaborados e votados. Então, diante disso, foi preciso acompanhar esse processo no que se refere às políticas voltadas para os animais não humanos. Pois, as legislações também compõem o social e podem estabelecer condutas socialmente aceitáveis e propor sanções para quem descumpri-las. Além disso, modificações estruturais e infraestruturais ou até mesmo a criação de novas instituições podem ser implementadas. As legislações também refletem os anseios de parte da sociedade e parte delas podem ter como destinatários/beneficiários os não humanos, como é o caso das leis relacionadas aos animais. A pesquisa foi desenvolvida através da metodologia qualitativa centrada na análise de conteúdo. Portanto, para compreender o processo legislativo que suscitou controvérsias em torno da tauromaquia na Espanha entre 1991 e 2018, foi realizada a análise das legislações aprovadas nas Comunidades Autônomas e pelo governo espanhol, bem como as decisões do Tribunal Constitucional sobre as leis aprovadas
Do homem aos peixes: sobre relações multiespécies na arte de Jonathas de Andrade
O texto discorre sobre relações entre humanos e animais no campo da arte a partir da obra “O peixe” (2016) do artista brasileiro Jonathas de Andrade. Investigo os engajamentos entre homens e peixes que se aproximam ao que Haraway chamou de “partilha do sofrimento”. Depois, acentuo os gestos que tensionam os limites entre as espécies. O filme se inicia por cenas de um grupo de pescadores de Piaçabuçu e Coruripe, entre Alagoas e Sergipe, chegando a diferentes trechos de pesca, onde prendem os barcos e lançam redes. Enquanto aguardam, cochilam ou observam a superfície da água. Ao capturar, os pescadores seguram o animal em seus braços e abraçam-no, observando-o atentamente até arrefecer. No final, é dado um close-up sobre os olhos de cada homem. As relações interespecíficas podem ser sumarizadas em cinco: 1) a pesca: põe em relação direta predador e presa. As técnicas empregadas para capturá-los diferenciam os agenciamentos entre homens, peixes e armadilhas; 2) o olhar: a cena final dos olhares dos pescadores, no qual este encara a lente da câmera por uns minutos, retorna o olhar ao espectador, agora participante. Argumento que os olhares desviantes marcam o encontro do homem e do peixe e evitam uma familiarização durante a morte em processo, apartando-os; 3) o abraço: o gesto ritualizado – ficcional e real –, antes que afirmar uma resposta à necessidade alimentar, põe em jogo a transformação em curso da morte do animal, por meio de um acompanhamento gradual do sofrimento, fundamental para a interação das espécies; 4) a comunicação: por meio do silêncio, produz-se uma indeterminação, um momento-limite dos pontos de vista anteriores ao abraço. O corpo de um encontra o outro, se confortando e comunicando; e, por fim, 5) há uma partilha entre o homem e o peixe ao acompanhar seu sofrimento para confortá-lo durante o fim iminente. Compreendo o abraço como momento liminar registrado e ficcionalizado que atesta o perigo de conversão, sendo necessário uma identificação não mimética durante um período controlado entre as partes
Desigualdade, “Cuidado em Rede” e Saúde Mental Infantil
Esta comunicação tem por objetivo explorar o modo de produção de um “cuidado em rede” em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij), em Campinas. O ponto de partida é apresentar as estratégias terapêuticas da equipe CAPSij descritas em um documento entregue ao Juiz da Vara da Infância. O documento detalha o itinerário terapêutico de uma adolescente cuidada pela equipe e que vive em um abrigo, separada de sua filha de três anos. A estratégia da equipe é produzir um agenciamento social, com a ajuda do Juiz da Vara da Infância, que permita à adolescente e sua filha seguirem juntas no mesmo abrigo. Pretendo, com isso, apresentar as estratégias de “cuidados em rede” que acionam diferentes instituições que acompanham adolescentes institucionalizados em situação de sofrimento psíquico e de precariedade social. Minha ideia é chamar a atenção para o trabalho minucioso de construir um “cuidado em rede” a partir de uma relação de vínculo/proximidade/intimidade mediada por experiências instáveis/frágeis/contingentes de uma adolescente em sofrimento que circula pela cidade, abrigo e CAPSij
O problema da retificação dos anéis matrimoniais
“Anel matrimonial” é um conceito forjado em região de fronteira entre os territórios da matemática discreta e da antropologia do parentesco. Do ponto de vista antropológico, corresponde a um matrimônio entre pessoas previamente aparentadas. Do ponto de vista matemático, descreve um caminho em um grafo misto, fracamente acíclico, que não leva em conta a direção dos arcos, no qual nenhum vértice tem grau de saída igual a zero, o último vértice é igual ao primeiro e nenhum vértice entre eles ocorre mais de uma vez. Embora a cristalização deste conceito interdisciplinar seja um fenômeno recente, algumas de suas manifestações correspondem a objetos antropológicos com idade provecta, como não desmentem o artigo pioneiro de Tylor (1889), que inaugura a noção de “casamento de primos cruzados”, as conferências de Rivers (1913) sobre a relação entre práticas matrimoniais e classificações de parentesco e o tratado de Lévi-Strauss (1949) sobre os regimes elementares de aliança. Em termos heurísticos, a análise de uma forma circular como um anel requer, como passo inicial, a sua retificação, isto é, a sua projeção em um segmento de reta, com a preservação de todos os seus vértices. Para estudar um circuito, então, é preciso segmentá-lo em uma de suas conexões e, por convenção, definir o primeiro vértice desta cadeia como Ego e o último como Alter
Grafos no Rio Purus: análise exploratória de genealogias apurinã
A presente proposta é apresentar o andamento da pesquisa genealógica entre os Apurinã do Médio Rio Purus. Trata-se de uma análise exploratória, que conjuga teorias do parentesco com ferramentas computacionais, com o objetivo de realizar uma primeira aproximação a aspectos do parentesco e da organização social apurinã
Tempo Ogúnico: uma interpretação da agenda neocolonial contemporânea a partir de personagens conceituais do Candomblé Nagô
Prever e modificar o comportamento humano, controlar mercados e influenciar escolhas políticas de países inteiros. Essas são algumas das principais características do que vem sendo chamado de capitalismo de vigilância — há muitos outros nomes para as consequências das mudanças em andamento no Capitalismo em função das tecnologias da informação e comunicação e suas conexões com processos extrativos e financeiros de produção de valor. Todo o amplo e complexo conjunto de fenômenos associados também pode ser interpretado como um neocolonialismo muito específico, porque baseado na extração de dados pessoais em grandes proporções. Como em outras etapas colonialistas, esta também se caracteriza por se constituir num investimento na morte, a partir de um modelo de dominação que elimina seres e atenta contra subjetividades; tal investimento reflete uma conhecida matriz de dominação e de violência. Tais características são exploradas no artigo, que propõe uma leitura desse processo em um diálogo com uma cosmologia não ocidental. A questão que o texto coloca é: que elementos e personagens conceituais do Candomblé Nagô (ketu), e das cosmotécnicas associadas, nos ajudam a recontextualizar as tecnologias atuais e a reagir em sintonia com a tradição latino-americana de insurgência contra-colonial? Assim, a reflexão faz uso do Axé de Ogum (o Orixá da guerra e das tecnologias) como operador analítico maior do contexto contemporâneo, ao mesmo tempo em que sugere uma agenda de pesquisas que inclui uma resposta educativa
Ordinariedade e Violência Extrema na PMMS
Esse artigo se propõe como parte de um projeto maior que se estrutura numa tese a respeito das relações entre masculinidades e violência física nos enunciados de policiais militares do Mato Grosso do Sul (PMMS). O artigo se inicia com um relato narrativo que busca adentrar no debate a respeito da pena de morte vista pela posição dos executores diretos dessas ações. Na segunda parte se pretendeu trabalhar com os conceitos de Hannah Arendt, como uma forma de compreender os policiais militares partindo de suas funções dentro do aparato de Estado brasileiro. Se trabalham também os conceitos do livro "Purificar e Destruir", de Jacques Sémelin pensando sempre a partir do lado dos agentes executores da violência extrema. Por fim trabalho com a instrumentalização da violência enquanto uma tecnologia de estado em defesa de uma necropolítica com interesses raciais e masculinistas na realidade brasileira contemporânea
O Futuro Chegou! A popularização dos computadores e o presentismo nos anúncios publicitários brasileiros na década de 1980
Neste ensaio apresento parte dos resultados da minha tese de doutorado na qual discuti, pelo viés da história e da cultura material, anúncios de computadores difundidos no Brasil entre 1977 e 2000. Na década de 1980, os computadores domésticos/pessoais começaram a se popularizar em todo o mundo e os discursos usados para promover esses equipamentos, invariavelmente, relacionavam-os a um futuro irremediável e imediato. Também, nesse período, ocorreu o que o historiador François Hartog chamou de quebra no Regime Moderno de Historicidade, que era voltado para o futuro. Com essa quebra, ocorre uma fragmentação das noções de tempo, assim, passado, presente e futuro se fundem no presentismo e o tempo passa a ser percebido como um agora infinito. Nesse contexto, os discursos relacionados aos computadores também procuravam mostrá-los como um símbolo, um agente e um instrumento dessa fragmentação. Enquanto nos países ricos os computadores pessoais invadiam os lares e quartos dos adolescentes, no Brasil, os preços proibitivos faziam com que o produto fosse mais facilmente encontrado nos escritórios das empresas. Contudo, a presença destes equipamentos no imaginário social e na cultura não passou despercebida no país. Esse foi um período em que o Brasil ocupou a 5a posição entre os maiores mercados de computador do mundo e a criação de uma indústria de informática no país foi relacionada ao imaginário de um futuro democrático e promissor que se aproximava com a redemocratização. No ensaio discuto alguns elementos desse futuro "diluído" no presente que apareceu nos anúncios publicitários de computadores veiculados no Brasil no período. Os anúncios apresentavam os computadores domésticos/pessoais como supostos promotores de um futuro de benesses, que já estariam ao alcance das mãos de todos. Nos discursos encontrados nesses anúncios é possível perceber elementos dessa diluição do futuro no presente bem como a anulação da própria noção de futuro o que permite discutir questões como a aceleração do tempo com o uso da tecnologia
Entre jogo e trabalho: metamorfoses de jogadores e trabalhadores no jogo online Runescape
Este artigo pesquisa as relações entre trabalho e jogo, a partir de experiências de trabalho no jogo Runescape, baseando-se na relação entre trabalhadores venezuelanos e jogadores brasileiros. A partir dos métodos de trabalho daqueles que embarcam em jornadas de trabalho nesse universo virtual, é feita uma análise da metamorfose de trabalhadores em jogadores, e vice-versa, além da observação do entrelaçamento entre a economia do jogo e a global. Assim, a relação desses trabalhadores ao jogo replica relações de trabalho no atual estágio do capitalismo
A memória em tela: os grupos de estimulação cognitiva online para pessoas com a Doença de Alzheimer
Se na vida online as pessoas podem experimentar diversos aspectos delas mesmas e vivenciar múltiplas versões de si em diferentes lugares do ciberespaço (TURKLE, 1999), o mesmo pode ser dito a respeito daqueles que vivenciam a Doença de Alzheimer (e/ou outras demências). Conhecidas por afetar de maneira mais intensa a memória, o comportamento e as habilidades para executar tarefas no dia-a-dia (ENGEL, 2020), as demências são condições difusas que deslocam subjetividades, ensejam aprendizados, viabilizam novas economias afetivas (MALABOU, 2012) e produzem novas práticas envolvendo uma pluralidade de sujeitos e dimensões. Neste trabalho, procuro refletir sobre o processo de digitalização de um serviço multiprofissional em saúde direcionado a pessoas diagnosticadas com a Doença de Alzheimer e/ou outras demências. Como material de análise, apresento alguns casos e relatos da minha pesquisa etnográfica nos grupos remotos/digitais de estimulação cognitiva do Centro de Referência em Atenção à Saúde do Idoso (CRASI) da Universidade Federal Fluminense (UFF). Tratarei de examinar parte das dinâmicas observadas, os desafios envolvidos nas interações com o ambiente digital e o trabalho de reconstrução e administração das memórias e funções cognitivas. Com base nessas descrições, espero analisar a recomposição dos vínculos em um contexto de isolamento e os efeitos da digitalização sobre a vida daqueles que vivenciam um processo demencial. Interessa-me investigar como as fronteiras que separam a realidade e a irrealidade estão sendo desestabilizadas pela doença e pelas interações com o ambiente digital. Além disso, procuro examinar também como os novos arranjos sociomateriais, viabilizados por computadores e celulares, têm impactado as dinâmicas de cuidado e subjetivação. A partir desse compósito de experiências, espero, por fim, analisar os meios pelos quais a memória e a cognição podem ser encarnadas e entrelaçadas ao meio digital