Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
Not a member yet
    2307 research outputs found

    Campo em transição: desafios e possibilidades ao deslocar uma etnografia para o ambiente digital

    Get PDF
    Este trabalho propõe contribuir para a análise e a reflexão da incorporação de dispositivos de comunicação remota no trabalho de campo. Para tanto, apresentamos dois relatos de pesquisas em andamento que tiveram suas atividades de campo suspensas em decorrência da emergência da pandemia de coronavírus e que necessitaram readaptar o seu desenho metodológico durante o período de confinamento social. Com base nas experiências relatadas, o nosso objetivo é apresentar os desafios e as possibilidades de condução do trabalho de campo que denominamos em transição, ou seja, quando uma pesquisa iniciada de modo presencial foi suspensa e necessita ser readaptada para ser conduzida de forma remota através do uso de plataformas e ferramentas digitais. Para tanto, versamos sobre os problemas, os limites e as oportunidades que se apresentam quando pensamos em mover uma pesquisa para o ambiente digital diante deste contexto

    O corpo ecológico: Socioquímica do cuidado. Por uma abordagem integrada do parentesco, da alimentação e do regime de substâncias

    Get PDF
    Este trabalho tem como base uma "conexão parcial" trans-indígena, cujo interesse reside em permitir uma visão microcósmica sobre o corpo e sobre o cuidado. Nesta comunicação, quero discutir uma aproximação entre o pensamento de Paul B. Preciado sobre sexo, drogas e biopolítica no livro Testo Junkie e o paradigma ameríndio da construção do corpo e da pessoa por meio do manejo de substâncias e relações. A reflexão proposta aqui não é resultado de uma pesquisa realizada, mas tem caráter programático, na medida em que busca colocar em evidência alguns pontos de contato entre o pensamento indígena e o pensamento transfeminista que podem ser úteis para uma antropologia crítica do capitalismo farmacopornográfico na modernidade. Essa crítica terá como objetivo principal requalificar a metáfora hegemônica sobre o corpo, que no pensamento dos modernos tem se perpetuado a partir da imagem do corpo-máquina. Com base no pensamento indígena (qualificado por Lévi-Strauss como uma "ciência do concreto") e transfeminista ou queer (cuja herança remonta ao feminismo materialista), quero enfatizar a pragmática do corpo como "ambiente", isto é, lugar de vida em interação no qual a materialidade está em constante produção e transformação por meio de práticas de controle e administração de substâncias que perpassam, circulam e afetam o corpo. Nesta comunicação, procuro reunir alguns casos de modalidades de relação associadas a práticas corporais conduzidas por "substâncias" para propor um modelo de análise que possa integrar os elementos de parentesco, alimentação e regime de substâncias, incluindo os fármacos e demais drogas. O marco de questionamento sobre a relação entre o corpo e as substâncias é a introdução da terapia medicamentosa para a prevenção do HIV (Prep), no sentido de que a vulgarização do acesso às tecnologias ARV produz para a homossexualidade moderna uma consciência nova que decorre da simetrização entre o cuidado de si e o regime de substâncias em questão. O exemplo cultural e histórico da farmacontologia gay, no contexto de introdução da Prep nas políticas de gestão da sexualidade e expansão recente do chemsex (sexo com substâncias), é hoje um caso crítico para a Saúde Coletiva, por seu alcance contemporâneo nas práticas, e também pela possibilidade de renovar as teorias sobre o corpo e reorganizar os princípios epistêmicos e metodológicos de abordagem sobre a vida e sobre o cuidado

    Pandemia de Covid-19 e saúde mental: relatos do campo etnográfico

    Get PDF
    No início de março de 2020, nossa pesquisa de campo estava sendo conduzida, na forma presencial, num ambulatório de saúde mental localizado no Estado do Rio de Janeiro. Em poucos dias, de forma abrupta, toda a configuração da pesquisa foi alterada, devido à pandemia da Covid-19. A partir de então, ficou claro que, se estávamos todos, em termos planetários, em um “mar turbulento”, certamente, não estávamos no mesmo “barco”, visto que vastos grupos e setores da população enfrentaram as ondas no corpo-a-corpo, ficando à mostra os privilégios que uma parcela ínfima manteve ou até mesmo ampliou. O presente trabalho tem como objetivo apresentar e discutir alguns dados etnográficos coletados entre março de 2020 até o momento atual (a pesquisa ainda está em andamento), período no qual acompanhamos o cotidiano de trabalho de uma equipe multiprofissional de saúde mental que “não recuou da linha de frente”. Além das questões pertinentes à própria pesquisa, contemplaremos algumas das dificuldades, problemas e articulações diversas produzidas no contexto de trabalho da equipe, dentre os quais destacamos: os diferentes agenciamentos configurados entre os atores humanos (pesquisador, profissionais e pacientes) e não humanos (tecnologias de acesso à internet, aplicativos, velocidade de conexão etc.), as políticas públicas (municipais, estaduais, federais), os equipamentos de segurança, as incertezas e os medos constantemente enfrentados, o trabalho presencial dos profissionais, os desafios dos que passaram a atender à distância, as emoções e os afetos expressados durante as reuniões virtuais de equipe, a apreensão permanente quanto ao “retorno presencial”, entre outras questões. Em diversas situações, percebemos que as agudizações do sofrimento psíquico dos pacientes recebidos pela equipe tornaram patente a insustentabilidade de algumas dicotomias tradicionais, como a separação entre o que é da ordem do biológico, do psíquico, do social, do individual e do político, uma vez que o vírus abala o organismo, mas produz impactos tortuosos na psique, os quais são aprofundados, sustentados e amplificados, por sua vez, por uma política oficial da morte. Por fim, fazemos alguns apontamentos sobre a percepção destes profissionais sobre a especificidade do sofrimento mental dos usuários atendidos no contexto pandêmico

    No caminho dos documentos: mobilidade e política entre os Yuhupdeh

    Get PDF
    Este trabalho pretende discutir os usos e as apropriações de documentos escritos como forma de ação política pelos Yuhupdeh, povo indígena do Alto Rio Negro. A incorporação de conhecimentos e tecnologias tornou-se fundamental para as formas de organização e mobilização política dos movimentos indígenas, como a proteção dos territórios por meio de técnicas cartográficas que permitem traduzir os modos de viver e habitar indígenas, servindo tanto para a proteção como para a gestão ambiental e territorial. Do mesmo modo, as experiências indígenas de apropriação da escrita e da burocracia como tecnologias ou conjunto de técnicas capazes de agir sobre pessoas e coisas possibilitam estabelecer certos paralelos entre modos de ação encontrados em contextos rituais, formas de mobilidade territorial e discursos e práticas políticas. Na região do Alto Rio Negro, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), uma das maiores associações indígenas no Brasil, evidencia a importância do agenciamento da lógica burocrática e da manipulação de documentos escritos como forma de fazer política. Por outro lado, os usos e as apropriações da escrita não se dão apenas no âmbito dos movimentos indígenas institucionalizados, mas a partir das próprias comunidades que agenciam os documentos e a lógica burocrática como forma de criar canais de comunicação com agências e agentes estatais em torno de direitos, denúncias e solicitações. Os Yuhupdeh, caracterizados pela intensa mobilidade territorial, passaram a realizar viagens cada vez mais frequentes a São Gabriel da Cachoeira (AM) na última década, após a ampliação do acesso a empregos e benefícios sociais, assim como aumentaram a participação política e as demandas por projetos específicos para suas comunidades, o que ocasionou algumas transformações na relação com o território e com outros grupos indígenas na região. Nesse sentido, o trabalho pretende discutir como a produção e a circulação de documentos escritos relacionam-se com as formas de mobilidade territorial e os discursos e práticas políticas dos Yuhupdeh, considerando tanto as relações com o Estado como as relações com outros grupos regionais

    Urbanismo climático e contra-experimentações regenerativas em Milão (Itália)

    Get PDF
    A cidade de Milão tem se destacado como uma das cidades mais ativas internacionalmente na adoção de políticas de adaptação a eventos climáticos extremos. Sua área metropolitana é atualmente uma das regiões com maior índice de poluição atmosférica da Europa. Diante deste primado, o município tem promovido políticas de mobilidade de ‘baixo impacto’ e um amplo programa de reflorestamento urbano. Mas esta faceta se conecta, e não contradiz, a uma prática de exploração intensiva do solo urbano e especulação imobiliária incontrolável (definida por ativistas como o ‘Modelo Milano’) - com a consequente expulsão de populações de baixa renda às áreas metropolitanas periféricas. O objetivo deste trabalho é aquele de apresentar de que modo os clima-ativistas respondem ao desafio simultâneo de bloquear a ‘máquina do antropoceno’ (Amin e Thrift, 2017) e desertar daquilo que definiremos como ‘socialidades fósseis’ - engajando-se portanto na criação de novos territórios existenciais (Guattari) não mediados pelas redes de dependência (Stengers, 2020) extrativistas. Este trabalho se baseia em um trabalho de campo (presencial e virtual) de 18 meses com os clima-ativistas (a rede ‘Milano per il Clima’) e administradores públicos envolvidos na elaboração de planos de mitigação e adaptação climática (DP Città Resiliente). Aqui,  iremos nos concentrar em dois aspectos: em primeiro lugar nas estratégias de resistência dos clima-ativistas para evitar a destruição de áreas verdes urbanas (Bovisa, Baiamonte e Bassini) através bloqueio, ocupação, audiências públicas e manifestações; em segundo lugar, nas práticas de regeneração de áreas abandonadas na periferia da cidade (‘Regeneration Heroes’/Parco della Vettabbia). Se no primeiro caso se trata de seguir o modo como os clima-ativistas buscam enfrentar e desacelerar a \u27máquina do antropoceno\u27, no segundo caso trata-se de explorar - a partir de um território geograficamente marginal - as experimentações de coexistência multiespécie e de ações coletivas definida por eles como ‘regenerativas’ (como a ‘guerrilha agroflorestal’). O fio que conecta ambas situações é aquele de ‘tornar-se ativo’ (become active) enquanto dimensão subjetiva e material, pessoal e coletiva que ‘arrasta’ estes ativistas em uma trajetória de experimentação de respostas não-bárbaras (Stengers, 2009) que, segundo o relato de uma das ativistas, se definia pela urgência de “aprender a viver no tempo do colapso climático e ecológico”

    Aprendendo a aprender no candomblé: notas sobre caminhos, conhecimento e a educação da distração

    Get PDF
    Neste trabalho pretendo refletir sobre alguns modos de aprendizagem presentes no candomblé, atentando-me para a relação entre ser, fazer e saber que permeiam essa religião. Nesse sentido, argumento que a relação entre "ter caminho" e "saber fazer" é fundamental para compor o sistema de aprendizagem no candomblé, um sistema onde se aprende muito mais fazendo do que recebendo algum tipo de corpus estabelecido de conhecimento, e que envolve um jogo de visibilidades e invisibilidades que, inspirado da obra de Tim Ingold, poderíamos chamar de uma “educação da distração”. Por fim, pretendo reverberar esse modo de aprendizagem para a própria prática etnográfica, pensando-a – a partir das ideias de distração e de caminho – enquanto um procedimento transformativo, um saber-fazer vacilante que é constituído na própria experiência do encontro

    Podcasts em sala de aula: tecnologias educativas e pedagogias orais

    Get PDF
    Essa pesquisa apresenta dados construídos pela equipe do Mundaréu, um podcast de antropologia produzido pelo Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (DAN/UnB) e o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor/Unicamp). Os dados a serem discutidos no presente artigo derivam do projeto “O que faz a Antropologia? Desenvolvimento e estruturação de um podcast como um recurso digital de apoio ao ensino e à aprendizagem”, desenvolvido pelo Mundaréu e apoiado pelo CEAD/UnB entre 2020 e 2021. O objetivo do projeto foi conhecer como os podcasts podem ser usados em disciplinas e cursos voltados para o ensino da antropologia. Para tanto, foram aproveitados oito episódios da primeira temporada do Mundaréu (2019-2020) e nove episódios de sua série Mundo na Sala de Aula (2020). Os episódios foram utilizados em 15 turmas, 10 disciplinas e cerca de 850 discentes de 32 cursos de graduação e pós-graduação da UnB. Cada episódio foi acompanhado de materiais didáticos complementares, como: questionários, roteiros de audição e debates em sala de aula promovidos pelo Mundaréu. Aqui, pretendemos discutir dois conjuntos de dados gerados ao longo do projeto: (i) a avaliação que professores e estudantes envolvidos nas disciplinas fizeram do podcast como ferramenta didática; e (ii) o uso da oralidade e de conteúdos auditivos para construção de planos pedagógicos das aulas de antropologia ofertadas pela UnB durante 2020. Para refletirmos sobre estes pontos, debateremos, em primeiro lugar, sobre o contexto em que o uso de tecnologias digitais vem crescendo nos espaços de ensino. Em segundo lugar, serão apresentadas as diferentes formas como o podcast foi utilizado pelos docentes e discentes a fim de incluir o áudio e a oralidade no ensino de antropologia. Em respostas avaliativas, estes grupos destacaram os materiais pedagógicos não escritos sendo conteúdos de grande valor pedagógico. Permitir que estudantes interajam com múltiplos meios educativos facilita o engajamento e articulação do conteúdo em sala de aula. Analisamos tais observações com precaução, uma vez que existem desafios para os estudantes consumirem o podcast enquanto material didático. Por fim, refletiremos sobre o conteúdo auditivo e a oralidade em práticas pedagógicas, considerando a possível continuidade do experimento e o convite para a comunidade acadêmica colocar em prática projetos que incluam podcasts como ferramentas no processo de aprendizagem

    O povo das matas na rede do terreiro: firmando o ponto para os Caboclos da umbanda e da quimbanda

    Get PDF
    Este trabalho tem por objetivo analisar as relações dos coletivos afrorreligiosos com os actantes Caboclos. A etnografia que compõe esse escrito é oriunda dos estudos que ocorrem no terreiro Abaça de Oxalá, que é composto pelo cruzamento das linhas de quimbanda, umbanda e candomblé, dirigido pelo Pai Aldacir de Oxaguiã, localizado em Pato Branco-PR. O local é campo de estudos etnográficos desde o ano de 2016 até a data presente. Os Caboclos são mestres espirituais indígenas que se manifestam nos lados da umbanda (linha da direita) e quimbanda (linha da esquerda), e trazem o devir-indígena na pessoa afrorreligiosa, por meio dos seus nomes (Guaraci, Tupinambá, Jurema, entre outros), das incorporações nos médiuns, dos seus pontos cantados e riscados, dos saberes transmitidos, do agenciamento dos vegetais, e de múltiplas formas. No Abaça de Oxalá a linha dos Caboclos também é nominada de povo das matas, e na umbanda esses entes cruzam suas presenças nas giras com outras linhas, como a dos Pretos-velhos, falangeiros de Ogum e Orixás nagôs. Na quimbanda esse povo emerge pela identificação de Caboclos quimbandeiros, ou Exus e Pombas-giras das matas. Também existem Caboclos que podem transitar entre os lados (direito e esquerdo), tal como, por exemplo, o Caboclo Arranca-Toco, Cobra-Coral e Treme-Terra. Entendemos o terreiro como um ponto de encontro das diferenças, uma encruzilhada que exprime resistência e multiplicidade, destacada pelo modo multidimensional de entrar em conexão com formas cosmo-ontológicas diferentes. Essa encruzilhada é aberta para o povo das matas firmar seu ponto em aliança/cruzamento com outros povos (das almas, das águas, da encruzilhada, entre outros) da rede do terreiro, promovendo bem-estar e curas com memórias, saberes e práticas ancestrais que são atualizadas pelos trabalhos. Nessa conjuntura, a presença indígena dos Caboclos fomenta a fuga do “rosto” branco impresso na lógica colonial presente no município, imerso em narrativas intolerantes e higienistas, que invizibiliza e/ou apaga a memória e os saberes inscritos nos fazeres das populações não ocidentais que nele habitavam e habitam

    Aprender a articular modos possíveis para seguir a experiência: reflexões a partir de uma etnografia diante de práticas cotidianas digitais

    Get PDF
    Este texto toma como ponto de partida uma etnografia diante da prática de selfie, realizada durante dois anos na cidade de Salvador, para discutir modos possíveis de seguir a experiência vinculada a práticas cotidianas digitais. O objeto de estudo não foi um ambiente digital específico, ou alguma comunidade em certa plataforma, mas uma prática que se articula diferentemente em distintos espaços, envolvendo uma diversidade de afetos e entidades humanas e não humanas que compõem a experiência seguida. A partir da vivência com este trabalho etnográfico, busco produzir reflexões que auxiliem na formulação de questionamentos voltados para investigações de práticas permeadas por amplas digitalizações da vida cotidiana. Nesse sentido, testo um modo de seguir a experiência que se volta para o acompanhamento de trajetos construídos na interação entre diversos ambientes, plataformas digitais e relações. Discuto não apenas o posicionamento, enquanto etnógrafo, de me manter aberto às possibilidades do que pode surgir em campo, mas também a relação com o que Isabelle Stengers chamou de uma “ética do pensamento” na filosofia de William James: uma abertura para o possível que acolhe o acaso e refuta uma determinação e fechamento do universo, e, ao mesmo tempo, aponta para o nível dos efeitos, obrigando a agir e simultaneamente hesitar diante das possibilidades de experiência. Tendo como inspiração o empirismo radical de James e o pragmatismo especulativo de Stengers, coloco em questão a investigação de práticas digitais cotidianas a partir de uma contínua reconstrução das experiências, obrigando o pesquisador a hesitar diante dessas possibilidades de experiência, desacelerar, adentrar-se no cotidiano, e criar maneiras para responder às questões que emergem na prática

    Sobre o açaí no lago Capanã Grande/AM: relações sociais e circulação de valores e significados em uma cadeia de tradução

    Get PDF
    O modo de vida coletor, ligado ao extrativismo vegetal, sustenta relações em torno da vida comum entre espécies há milênios. Humanos e plantas criam espaços de coabitação em torno de paisagens repletas de marcas de um passado mútuo e interacionista, manifesto na longa duração pelo vestígio vivo de arqueologias, histórias, mitos e filosofias de coexistência. Parte desta interação com o mundo consiste na coordenação de grupos e sociedades aos diferentes ciclos das plantas. A relação humanos e plantas, distribuída em variações culturais diversas pelo globo, suscita interpretações diversas sobre a física e metafisica (ontologias), as regras (epistemes) e o ritmo (repetição) do mundo. A sazonalidade rítmica das plantas, para o nosso caso do açaí solteiro (Euterpe precatória), marca os tempos da vida em sociedade e os arranjos entre pessoas no lago do Capanã Grande, sul do estado do Amazonas. A venda pelas famílias e grupos extrativistas aos comerciantes da região faz com que o açaí deixe de ser apenas parentesco e aliança. Quando vendido, o fruto passa para sua ontologia mercadoria, atrelada a um valor-preço, à sua tradução econômica. O açaí é algo que carrega e circula significado, em descontinuidades e continuidades de interações que o requalificam a cada salto ao longo da cadeia de tradução. O açaí circula por múltiplos circuitos e sistemas de valoração, mobilizando ontologias, significados, modos de vida e trabalho. A ontologia e semântica culturalmente localizada (as práticas, rotinas, domínios técnicos, representações simbólicas, reciprocidade e valores) interage com os fluxos multi escalares de demanda por alimentos (mercados, estoques, contratos, indústria de transformação e consumo). Compreender como as sociabilidades florestais culturalmente localizadas interagem com fenômenos de mercado, emulando modalidades de combinações e prestações entre pessoas, é interpretar as várias possibilidades de tradução que conferem valor ao açaí ao longo de uma cadeia de dupla afetação entre humanos e plantas. Trata-se de reconhecer um percurso de significados a partir de interações que, para o nosso caso da pesquisa inclui, de um universo de possibilidades de tradução sobre o açaí, o seu valor-reciprocidade e o seu valor-preço. A hipótese formulada diz que a coleta sazonal do açaí desvela um repertório local de reciprocidade = {combinações e prestações (parentesco, aliança e trocas comerciais)} que mobiliza rotinas e práticas sazonais para a coleta e venda do açaí. A pesquisa apoiou-se em registros de campo pré-pandemia, aplicação de um formulário, na modalidade survey sobre produção trabalho e renda entre famílias de um projeto de desenvolvimento sustentável da cadeia do açaí e em pesquisa documental e bibliográfica

    2,150

    full texts

    2,307

    metadata records
    Updated in last 30 days.
    Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
    Access Repository Dashboard
    Do you manage Open Research Online? Become a CORE Member to access insider analytics, issue reports and manage access to outputs from your repository in the CORE Repository Dashboard! 👇