Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Em nossas próprias armadilhas: “artefatos” antropológicos em contexto
A reflexão a ser apresentada pretende deslocar a leitura para questões que envolvem o modo como os regimes de conhecimento e as técnicas de produção da Antropologia são objetificadas em cenários de disputa judicial, que envolvem muitos pontos de vista sobre o conjunto das diferenças nos modos e sentidos de habitar e existir. O que pretendo demonstrar passa por refletir sobre o que está em jogo quando a Antropologia e o antropólogo são mobilizados como “conhecedores-técnicos” sobre o direito às diferenças, garantidos pelo Estado Brasileiro aos índios. Não irei me ater às questões processuais, executivas e burocráticas do andamento das ações, mas trazer algumas considerações sobre como a produção destes documentos agenciam diferentes perspectivas sobre o fazer antropológico e quais relações emergem na condução destas tarefas e os efeitos etnográficos acerca da autoria e ética. Deste modo, as contribuições de Annelise Riles, Alfred Gell, Roy Wagner e Marilyn Strathern conduzem para algumas reflexões sobre os efeitos transformadores e extensivos dos conceitos em disputa que estes processos criam no modo de escrever tais documentos/textos, em que os conhecimentos antropológicos e etnográficos dos antropólogos são mobilizados a partir de uma noção “técnica”, para dar relevo a contextos onde a Antropologia é vista como um “saber-técnico-científico”
Socializando saúde ou medicalizando vida? O uso de categorias científicas operantes em processos terapêuticos
Dois cenários se misturam. O primeiro, composto por agenciamentos de cuidados terapêuticos que integram noções e práticas das medicinas complementares e alternativas (OMS, 2019). Já outro, composto por um movimento político e epistêmico que discute tais práticas e diagnósticos. Trata-se de situações de pesquisa em que aparecem com frequência categorias como “social” (ou tudo que envolve fenômenos de socialização) e “medicalização” (ou tudo que envolve processos que tornam a vida resumida em linguagem e prática médica). Menos como uma separação abstrata e categórica de dois mundos diferentes, e mais como um recurso heurístico para contrapor dois caros conceitos das ciências biológicas e sociais, este trabalho visa explorar essas duas categorias científicas que operam na ordem do dia e evocam agenciamentos epistemológicos e políticos em disputa. Desse modo, os apontamentos aqui propostos serão discutidos a partir de reflexões depreendidas da minha pesquisa etnográfica em clínicas de equoterapia (terapia assistida por equinos) e em diálogo com o movimento social Despatologiza (https://www.despatologiza.com.br). Com isso, busco no presente texto circunscrever deslocamentos ontológicos que, imbricados nas noções de saúde e seus respectivos cuidados terapêuticos, operam também em um campo discursivo, epistemológico e de deslocamentos ontológicos, onde as premissas sociológicas se misturam com postulados biológicos sob categorias como “medicalização” e “socialização”
Entre tentáculos e braços: o despertar da atenção para novas histórias e laços
Situado no campo dos estudos que compreendem a “virada multiespécie” e a “virada ontológica” nas ciências sociais, este trabalho tem como questão central a reflexão sobre os modos de se fazer ciência, dando atenção a perguntas que possibilitem conhecer histórias de involução/coevolução e, assim, quem sabe, contemplar outros laços entre humanos e não humanos. Desse modo, em um contexto de desafios e oportunidades, convivências e ausências despertadas pelo isolamento domiciliar em contexto pandêmico, uma bióloga e uma cientista social, instigadas pela complementaridade de olhares e pelos estudos emergentes da quebra da dicotomia entre natureza e cultura, trocam o perceber pela atentividade, resultando em uma reflexão sobre a ciência e as relações entre natureza e cultura, humanos e não humanos e outras possíveis histórias. Tomamos como ferramenta um documentário audiovisual sobre um(a) polvo – no qual o cinegrafista (inspirado nos autóctones do deserto do Kalahari, que entram “na ciência sutil da natureza”) mergulha e compõe, por instantes, a floresta tridimensional de algas – e empregamos revisão bibliográfica para o desenvolvimento da reflexão. Os resultados dessa abordagem mostram os ganhos de elaborações provenientes do enlace entre tentáculos e braços e das práticas multidisciplinares, que, no contexto dos emaranhamentos entre humanos e não humanos, despertam sutilezas que potencializam a quebra de dicotomias. Afinal, com atenção e tato é possível formular perguntas que possam revelar histórias que propiciem, além da transmissão de fluxo gênico, a contemplação de afetos capazes de garantir a valorização de narrativas que contem quem são esses sujeitos não humanos e quais são as suas muitas formas de se relacionar. Refletimos sobre os relacionamentos (entre humanos, não humanos ou interespecíficos) como sendo transformadores e, portanto, inimigos do projeto de “escalabilidade”, isto é, da noção hegemônica de progresso, expansão e colonialidade/biocolonialidade
Abelhas sem ferrão em projetos de reparação na bacia do rio Doce: racionalidade científica e a continuidade do desastre
Os rompimentos de barragens de rejeitos de mineração de ferro ocorridos nos últimos anos no sudeste brasileiro, provocaram uma série de alterações nas localidades atingidas, que reverberam em múltiplas análises dos contextos em questão. Um dos caminhos possíveis se dá a partir de considerações sobre o Antropoceno e paisagens em ruínas, na qual emergências, urgências e ressurgências estão impressas nas relações e podem ser vistas enquanto aspectos que compõem o cenário de mudanças e demandas. O texto aqui apresentado tece considerações acerca do rompimento da barragem de rejeitos de Fundão em Mariana/MG, que alterou as vidas, as relações e as expectativas de futuro desde 2015 com o carreamento dos rejeitos de mineração de ferro na bacia do rio Doce. Diante desse contexto, aponta-se como as implicações do desastre sociotécnico são ampliadas e reproduzidas nas propostas de reparação apresentadas pela Fundação Renova, entidade responsável pela reparação de danos. O caso em questão está fundamentado nas análises dos documentos sobre a adoção de abelhas sem ferrão em projeto de reparação em um município na foz do rio Doce, no estado do Espírito Santo. As abelhas, e o trabalho a elas atrelado, são apresentados na implementação do projeto de reparação no eixo dos programas socioeconômicos. Essa perspectiva encontra-se validada pelo discurso científico centrado no conceito de serviços ecossistêmicos. Assim, aquilo que poderia ser compreendido como uma aliança entre atingidos, território, abelhas, meliponicultura, acaba sendo instrumentalizado por um sistema de mercado focado na noção de pagamento por serviços ecossistêmicos. Dessa forma, partindo dos ruídos, problemas e conflitos que serão apresentados pela implementação de projeto com abelhas sem ferrão, levanta-se a discussão sobre o entendimento da Fundação Renova enquanto parte da continuidade dos desastres
“Uma pontuação que eu não sei de onde é”: reflexões da classificação algorítmica no trabalho de entregadores de um aplicativo de delivery
Com a finalidade de pensar sobre o amplo uso das plataformas digitais no cotidiano, assim como seus impactos nas relações de trabalho, intensificadas pela pandemia de COVID-19, este texto busca discutir as supostas pontuações que classificam os trabalhadores vinculados às plataformas de entrega (delivery), com enfoque na empresa brasileira iFood. Trata-se de uma reflexão, a partir dos relatos trazidos em entrevistas realizadas em 2020, do gerenciamento algorítmico como instrumento de prescrição de comportamentos e de desempenho dos trabalhadores. Assim, verifica-se a existência de uma classificação oculta feita pelas plataformas que impacta diretamente o trabalho e a sobrevivência desses trabalhadores ao determinar quem terá ou não acesso à atividade. Além de refletir sobre os procedimentos disciplinares impostos pelas plataformas, questiona-se a neutralidade das tecnologias, em especial, dos algoritmos, a fim de destacar a incorporação dos valores e preceitos da empresa ao desenvolvimento dos instrumentos e artefatos. Pode-se dizer que, nesse sentido, existe uma relação de subordinação dos trabalhadores à plataforma digital, visto que a empresa impõe, sutilmente, diretrizes de como deve ser realizado o processo de trabalho, o qual é gerenciado e controlado algoritmicamente por ela própria. A discussão apresentada neste artigo se apoia em resultados de uma pesquisa empírica realizada com trabalhadores que utilizaram o aplicativo de delivery do iFood na cidade de Curitiba, em 2020, no contexto da pandemia de COVID-19. 
“O que você usa mais/prefere: mensagens de textos ou mensagens de voz?”: um estudo sobre a percepção dos jovens em relação ao uso de plataformas de mensageria
Este artigo tem como objeto de estudo a relação juventudes e plataformização digital. E, como foco apresentar dados de um estudo cujo objetivo é identificar a percepção dos jovens brasileiros em relação ao uso de voz e textos nas plataformas de mensagens. É possível observar que a interação mediada por plataformas de mensageria se intensificou com o distanciamento social e as orientações sanitárias de prevenção ao contágio da pandemia mundial do COVID-19. Neste período (e ainda continuam) as plataformas agilizaram tarefas e orientaram as interações pessoais e profissionais (comunicação, aprendizado, mobilidade, consumo, entre outros). Assim, neste artigo utilizou-se uma pesquisa descritiva, qualitativa, com entrevistas realizadas nos meses de fevereiro a agosto de 2021, de forma online com 14 jovens na cidade de Novo Hamburgo/RS - Brasil. A pergunta realizada aos jovens e analisada foi: “O que você usa mais/ prefere: mensagens de textos ou mensagens de voz? Por quê?” O referencial teórico busca discutir questões sobre juventudes, plataformas de mensageria e inclusão digital, conta com os autores Bauman, Castells, Reguillo Cruz, Poell, Nieborg e Van Dijck, Winocur, entre outros. Os resultados apontam que os jovens utilizam diariamente plataformas de mensagens pela praticidade, agilidade e acessibilidade, combinando as duas formas de mensagens: voz e texto. Vale destacar que a escolha entre mensagens de voz e de textos depende da ocasião, do objetivo da mensagem e de quem é a pessoa que receberá a mensagem, pois existe uma preocupação com a interpretação correta da mensagem, como demonstrar os sentimentos, expressões de fala e a formalidade, caso na ocasião se faça necessário. 
Colonialidade, apropriação da terra e resistências de mulheres camponesas através da agroecologia
Neste ensaio apresento uma análise sobre as transformações provocadas pela agricultura colonial/moderna/capitalista, a partir das plantations, na vida de povos e na subordinação de mulheres. Parto da perspectiva decolonial e dos estudos feministas da ciência e da tecnologia, produzindo uma discussão sobre a separação dicotômica entre humanos e natureza, racional e irracional, homens e mulheres dentre outras. De acordo com Donna Haraway (2016), a partir do colonialismo, foram instituídos processos como o Plantationoceno, o Capitaloceno e o Antropoceno, que produziram transformações devastadoras do planeta, oriundas de formas extrativas em que a maioria das reservas da terra foram drenadas, queimadas, esgotadas, envenenadas, exterminadas e exauridas, destruindo os espaços-tempos de refúgio para as pessoas e os outros seres. A agricultura das plantations está centrada nas monoculturas e nas commodities para o comércio internacional de abastecimento dos países centrais do sistema mundo colonial moderno. Esse modelo se alicerçou na violência do trabalho escravo, marcado pela exploração de povos indígenas da América e da África. Além disso, constituiu o latifúndio, a concentração de terra e o controle do poder econômico e político nas mãos de um número reduzido de homens, brancos, europeus e cristãos. Anna Tsing (2015) define as plantations como sistemas de produção realizados por mão de obra de não proprietários e direcionados à exportação, nas quais as plantas cultivadas são exóticas e o trabalho é realizado à força por meio da escravização ou da extrema precarização. Para a autora, a empresa monocultora foi o motor da expansão europeia, da produção de riqueza e o modus operandi desse domínio. Como contraponto a esse modelo de agricultura extrativa – dos corpos, do trabalho e da biodiversidade –, discuto a agroecologia enquanto prática, movimento e ciência, que passa a conectar conhecimentos ancestrais de agri-culturas, nos quais o protagonismo de mulheres camponesas é central. A agroecologia pode apontar caminhos para compreendermos questões de gênero, ciência, tecnologia e relações entre humanos e extra-humanos
Aprender um modo de ser yogi e sannyasi: desvendando relações a partir do ashram Casa do Guru
O yoga se ergue a partir de matrizes epistemológicas e especulações-práticas sobre o cosmos e a vida que nuançam uma relação de simbiose, integração e unidade entre viventes dos distintos reinos, famílias e espécies. Seu complexo sistema metodológico abrange das técnicas corporais (asana), atravessando a interação com a energia vital (prana) através da manipulação da ação respiratória (pranayama) e possibilitando alcançar estados de suspensão da atividade sensória (pratyahara) e até mesmo do tempo (kala) (Niranjanananda 2005; Eliade 2009). O paradoxo da apreensão de tal sistema prático-especulativo, tal qual o yoga, reside na seguinte questão: uma experiência sublinhada e enfatizada a partir da individualidade e subjetividade de quem a vivencia só se assenta, todavia, a partir de um contexto relacional de aprendizagens, estando nela demarcada a presença do/a mestre e dos/as discípulos/as. Ainda, antes que tão somente a aprendizagem técnica da experiência do yoga (fundamental e basilar de sua vivência), compõe também a aprendizagem de modos de fazer e ser que nuançam uma perspectiva identitária. Proponho, portanto, estabelecer um diálogo, tendo como ponto de partida a etnografia que construí entre os anos de 2018 e 2020 envolvendo a minha constituição enquanto yogi e residente do ashram (espaço onde vivencia-se um modo de vida yogi cotidianamente) Casa do Guru (Serra da Moeda – MG), com as noções de “educação da atenção” de Tim Ingold (2000) e de “aprendizagem situada” de Jean Lave e Etienne Wenger (1991). O entrelaçamento etnográfico-reflexivo mira trazer a luz aspectos de nossa construção (individual/coletiva) enquanto yogis e sannyasis da tradição de Swami Satyananda Saraswati (Bihar School of Yoga, Munger, Índia) no Brasil. Tal construção, por sua vez, é nuançada por alguns aspectos como o silêncio, a solitude, o autoestudo e o cuidado. Concluo arriscando uma aproximação dessa tessitura etnográfica com pensamentos indígenas (Krenak 2019; Kopenawa & Albert 2015) e não-indígenas (Danowski & Viveiros de Castro 2011; Santos 2019) que também nos provocam a pensar-agir em direção à uma coletividade que permita a sustentação do sistema vida nas décadas vindouras
A importância do Estágio Curricular Supervisionado em Geografia para a formação de docentes: uma proposta pedagógica
Contemporaneamente as relações entre teoria e prática nos cursos de licenciaturas vêm demonstrando cada vez mais a importância do Estágio Curricular Supervisionado para a formação de novos profissionais docentes. Diante desta importância, o presente trabalho tem por objetivo apresentar uma proposta pedagógica e suas metodologias, resultantes de práticas de ensino no último ano do curso de Geografia da Universidade Estadual do Paraná, Campus de Paranavaí-PR. Este trabalho partiu da necessidade de tornar as aulas de Geografia mais interessantes, e se justifica na medida em que os recursos didáticos apresentados (maquetes, painéis, mapa, quebra-cabeça, etc.), diminuem as fronteiras entre a teoria e a prática. Como resultado, percebemos a importância desta proposta pedagógica que oportuniza a transmissão de conteúdos de maneira lúdica e de fácil compreensão, demonstrando uma grande eficácia na criação e no desenvolvimento de novos saberes. Deste modo, demonstramos as relações entre teoria e prática, aplicadas para estudantes do Ensino Médio do Colégio Estadual Professor Bento Munhoz da Rocha Neto, no munícipio de Paranavaí-PR. As atividades realizadas em todas as etapas objetivaram momentos de aperfeiçoamento no ministrar de aulas, conhecimento do espaço escolar e do seu cotidiano, onde se oportunizou ao graduando em Geografia, momentos positivos e de dificuldades acontecidos na prática docente. Assim, o Estágio é um singular ganho de experiência, marcante e de suma importância para o início da carreira no magistério
Voltar às raízes: um convite de retorno à ancestralidade e algumas considerações sobre as tentativas de apagamento da história negra no município de Rio Claro-SP
O presente texto tem como intenção socializar reflexões acerca da experiência de realização da 3ª Semana de Consciência e Cultura Negra realizada numa escola de Ensino Integral pelo PIBID-Geografia, no município de Rio Claro – SP. Simultaneamente, busca-se tecer algumas considerações sobre as tentativas de apagamento da história e da territorialidade negra no mesmo município. Para compreender este processo parte-se daquilo que Quijano (1992) chama de colonialidade do poder; uma forma de dominação que se impôs como padrão mundial e que se entrelaça com as formas locais de reprodução desse projeto de mundo. Reconhecer esse fato é também dar voz às diversas resistências que desenham suas próprias cartografias e se colocam como contraponto ao poder hegemônico. Desde sua criação em 2003 a Lei 10.639, alterada pela Lei 11.645/08, se coloca hoje como um dos mais importantes mecanismos de combate ao racismo pela via da educação. Mesmo assim, sua existência não garante uma revisão do papel imposto aos negros africanos e aos negros brasileiros na sociedade e, consequentemente, nas narrativas presentes nas disciplinas ensinadas nos bancos escolares. Deste modo, cabe aos educadores e aqueles que buscam a construção de uma nação, cujo projeto inclua em situação de igualdade pretos, brancos e indígenas, compreender a totalidade/complexidade das lutas negras