Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Saber de Peixe: Escolhendo peixe entre tradição, familiaridade e confiança nas instituições
Como se interligam as legislações sanitárias, os controles sobre a pesca, conhecimentos locais e redes de relação e tradição nos mercados públicos de peixe? Esse trabalho visa uma comparação entre a região do Algarve, em Portugal, e Florianópolis, no Brasil, encontrando nos conceitos de confiança e familiaridade uma chave para entender como os consumidores escolhem seus pescados. O crescimento do consumo e a problemática acarretada, assim como a preocupação com a sustentabilidade, reverberaram em uma acentuação de legislações no setor. Para salvaguardar os peixes, os períodos de pesca são controlados, o tamanho mínimo em que o peixe pode ser vendido é estabelecido, e os métodos aceitáveis de pesca são definidos. É nos mercados que os efeitos dessas legislações aparecem ao consumidor. Eles são palco histórico do processo da institucionalização do setor. O crescimento dos centros urbanos leva a necessidade de controle sanitário dos alimentos vendidos pelo Estado, que constrói os mercados. Esses viram símbolo de modernidade. Hoje, os supermercados assumem este espaço; mas nos mercados públicos o consumidor local ainda pode usar seus conhecimentos sensoriais e tradicionais para escolher o peixe. Entre essas legislações sanitárias e controle das pescas, consumidores e vendedores negociam com o Estado. O controle sanitário governamental dá aos consumidores confiança na higiene dos produtos, sistema no qual eles não se veem como peritos. Por outro lado, usam de conhecimentos tradicionais para verificar e interagir com vendedores na escolha do melhor peixe, esse sim, um sistema que conhecem amplamente. Uma familiaridade se estabelece, e canais de informação oficial por ONGS ou governo não substituem as conversas amigáveis sobre tempo, maré e praia. Essas interações corpóreo-sensoriais (toques, cheiros), assim como a exposição dos peixes, possibilitam que usem seu próprio conhecimento para reconhecer um ‘bom peixe’. Os mercados municipais de pescados, assim, conseguem manter sua competitividade com os grandes supermercados pela maneira positiva que encaixam a confiança dos consumidores, as práticas de venda e as regulações institucionais e governamentais
O Rio no fim dos tempos: “entendências” barranqueiras sobre a água e a mudança climática na paisagem Sãofranciscana
Este paper é produto de uma pesquisa em andamento e tem por objetivo expor preliminarmente o emaranhamento do modo de habitar de ribeirinhos do Vale do Alto-Médio São Francisco, também chamados barranqueiros, com as águas e outros entes não-humanos que compõem a paisagem co-construída às margens do rio. O ponto de partida para descrever criticamente esta socialidade mais-que-humana às margens do Rio São Francisco são as “entendências” dos habitantes da Comunidade de Ribanceira, no município de São Romão, em Minas Gerais, sobre as águas em seus fluxos pluviais e fluviais. Imersos na alternância cíclica entre o “tempo das águas” e o “tempo da seca”, que orientam suas atividades de pesca e de roça, os barranqueiros da Ribanceira tem vivenciado fluxos pluviais cada vez menos frequentes e intensos, bem como experimentado o convívio com um rio preocupantemente sem “corrida” que dá cores às narrativas em tons desalentadores sobre a proximidade do “fim dos tempos”. 
Uma experiência com redes de parentesco totalmente coloridas
As redes de parentesco são grafos com vértices, arestas e arcos. Na sua forma natural, as redes de parentesco podem ser utilizadas para identificar os indivíduos e relações entre esses indivíduos. É comum um arco do vértice u para o vértice v representar que u é pai (ou mãe) de v; e uma aresta entre u e v representar que tais vértices são casados. Como consequência, os arcos podem ser rotulados com valores do conjunto R, sendo seus elementos representando as relações possíveis entres os vértices (indivíduos): F, M, S, D, H e W. Agora considere um conjunto de cores C. Podemos enxergar os rótulos dos elementos do conjunto R como cores nos arcos e nas arestas, desde que exista um mapeamento um-para-um entre os elementos de R e C. Portanto, podemos usar cores nos arcos e arestas em redes de parentesco sem perder qualquer informação clássica. Além disso, podemos até sugerir novas relações em redes. Como exemplo disso, podemos citar um trabalho de Carlos Paulino, sob orientação de Márcio Ferreira da Silva, onde eles trabalharam com relações diferentes daquelas que aparecem no conjunto R. Isso é equivalente a considerar novas cores no conjunto C para atender ao mapeamento um-para-um entre os conjuntos. Sobre este olhar, podemos dizer que as redes de parentesco já estão coloridas nos arcos e nas arestas. No entanto, podemos pensar em uma extensão das redes de parentesco colorindo também os vértices. Dessa forma, teremos uma rede de parentesco totalmente colorida nos vértices, nos arcos e nas arestas. A ideia é que a cor de cada vértice dependa de um atributo dele mesmo. Como exemplo, a apresentação deste trabalho propõe um exercício sobre a rede Arara com os dados apresentados por Márnio Teixeira-Pinto. Nesta rede, todos os vértices foram coloridos a partir dos ancestrais mais antigos. Todos os indivíduos mais antigos receberam uma cor distinta. Consideramos que a cor de um vértice é sempre dada exclusivamente pela sua mãe (ou exclusivamente pelo seu pai). A ideia aqui é analisar sobre os indivíduos casados, o impacto dos indivíduos mais antigos aliado com a passagem dessa ancestralidade a partir das mães (ou dos pais). A análise sobre os indivíduos casados sempre considera os anéis da rede. Portanto, os anéis cromáticos da rede Arara foram enumerados. O exercício é finalizado com uma análise quantitativa sobre os anéis cromáticos dessa rede
Sangue, Ervas e Emoções: uma reflexão sobre as construções culturais em torno do sangue, do ciclo e das emoções a partir da experiência com a “Limpeza do Sangue Menstrual”
A Limpeza do Sangue Menstrual é um método criado pela terapeuta menstrual argentina, Zulma Moreyra, que consiste em realizar uma limpeza alimentar, junto ao consumo de cinco tipos de medicinas naturais, que vão atuar em todos os órgãos envolvidos no ciclo menstrual, promovendo uma limpeza física, energética, emocional e espiritual na pessoa, para, posteriormente, colher esse sangue e realizar as medicinas menstruais, tais como cristais, unguentos e tinturas, por exemplo. É considerada uma jornada iniciática dentro dos mistérios do sangue menstrual e das emoções, por possibilitar abrir um campo de conexão com memórias, traumas, medos, raivas e tristezas que antes estavam ocultos para a pessoa, criando uma oportunidade de cura e transformação pessoal, por meio do contato profundo com o sangue, o ciclo e as emoções. Desde 2018, eu realizo grupos online com mulheres e outros corpos menstruantes aplicando o método e as experiências coletivas desse estudo tem revelado o caráter cultural e generificado das emoções, mostrando como a relação desigual de gêneros é capaz de marcar profundamente a vida dessas pessoas, refletindo na relação delas com seu próprio corpo e seu sangue, bem como na manifestação de enfermidades que envolvem os ciclos menstruais. Por meio deste trabalho de campo, que constitui uma parte das pesquisas empreendidas na construção da tese de doutorado já finalizada e entregue à banca, o trabalho aqui apresentado busca fazer uma reflexão sobre a construção cultural em torno do sangue, do ciclo e das emoções, e de que formas essas construções tem refletido na saúde das mulheres e corpos menstruantes, a partir das experiências com o estudo da Limpeza do Sangue Menstrual, que se constitui como um campo de criação de novas narrativas e práticas em relação ao sangue menstrual
Reorganização espacial, os cuidados com as crianças e (re)existir através das brincadeira
Este trabalho é uma continuação da pesquisa sobre a dinâmica infantojuvenil, que havia partido da curiosidade desta pesquisadora a partir do trabalho de extensão realizado na comunidade da Estrada velha/Acarape-CE. Sendo apontado agora as implicações da duplicação da pista entre Pacatuba e Redenção, a qual atravessa a comunidade, e pensando, a partir desta nova estrada, como os processos de mudança no espaço físico podem interferir na circulação e cuidados com o público infanto-juvenil, as brincadeiras e atividades, e quais as implicações para a mobilidade dos moradores de uma forma geral. Além de apontar a forma que estes sujeitos foram informados sobre as mudanças e como foram tratados durante o processo da implementação da CE - 060
Cosmotécnicas ameríndias no Grande Chaco Sul-americano: uma aproximação desde a etnografia toba (qom)
Baseado em etnografia produzida entre 2012 e 2018, em comunidades toba (qom) localizadas no curso médio do rio Bermejo no Grande Chaco Sul-americano, exploro a noção de técnica que intervém na elaboração de artefatos, entidades ideais e corpos. Parto da ideia que as artes e seus efeitos, antes que responder a gradientes evolutivos ou à variabilidade cultural, se vinculam a uma negociação cosmopolítica que se insere em cosmotécnicas específicas, entendidas como articulações locais da tecnicidade dos existentes que ostentam capacidade para produzir efeitos sob outros e intervir na configuração de seus ambientes. Na mitologia toba (qom) os atributos e artes culturais provém de um contexto extra social e são adquiridos pelos humanos em situações contingentes graças à agência de espécies animais. Essa presunção de exterioridade das fontes de conhecimentos e habilidades práticas reaparece nos modos como são descritas experiências contemporâneas de aquisição de virtudes para a dança, o canto, a cura, a caça e a oratória, entre outras. Assim como em outras áreas das terras baixas sul-americanas, aqui a técnica é em primeiro termo um atributo não humano. Esta noção se desloca da historicidade contida na ideia de tecnologia como diacrítico universal do processo de hominização e afastamento da humanidade da natureza. A experiência toba leva a pensar a técnica e seus efeitos produtivos como num acontecimento que permite descrever, não uma cultura, senão interconexões entre humanos e não humanos, e por seu intermédio as virtudes dos segundos e as ânsias dos primeiros
Google Earth Pro em sala de aula
Oficina Pedagógica que visa oportunizar a aprendizagem de ferramentas do software Google Earth PRO para utilizá-las de forma didática em aulas de Geografia, como instrumento de planejamento e relatório para trabalho de campo, desenvolvimento de mapas, entre outros
A formação docente inicial e continuada em Geografia para as africanidades
O presente trabalho tem como objetivo trazer para debate a Lei 10.639/03, tal lei constitui instrumento relevante para a educação brasileira, uma vez que interfere na forma como os conteúdos são construídos já que institui o ensino de História e Cultura da África e dos Afro-descendentes. Neste sentido, o intuito desta pesquisa é compreender como os professores da rede básica estadual do município de Uraí, que fazem formação continuada, constroem conhecimentos adquiridos com os alunos e como os licenciandos da Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP (Campus Cornélio Procópio) são preparados inicialmente para abordagens acerca das africanidades. Desta maneira, a presente discussão traz análises dos dados recolhidos através das entrevistas e de documentos acerca da prática docente no que tange à temática das africanidades. Portanto, conclui-se que o pouco contato direto dos professores com as práticas acerca da lei 10.639/03 resulta em um desenvolvimento pontual da lei, ou seja, ela ainda não é abordada em seu cerne por todos os professores pesquisados
Entre a escola e a cidade: pensando as escalas de vivência na sala de aula
Quais os desafios de abordar as dimensões dos espaços vividos na cidade em sala de aula? Como construir mediações entre o espaço da cidade e o espaço da escola? Tais questionamentos derivaram de uma atividade de Geografia que visava discutir as representações sobre a cidade, e as respostas apresentadas revelavam que os significados sobre a cidade eram diversos. Diante disso, o caminho a ser percorrido conduziu a pensar sobre as percepções atribuídas à cidade e as possibilidades de ressignificação das mesmas. A partir desta indagação, as metodologias propostas visavam resgatar a dimensão do espaço vivido na direção de repensar a cidade. Porém, o que está ao alcance da ação pedagógica mais imediata? É porque a esfera que envolve uma cidade torna-se ampla para as análises mais concretas das dimensões vividas por um grupo de alunos e professores de uma escola, que essa compreensão levou o grupo a rever a escala de análise. Nesse sentido, o bairro ganhou mais centralidade nas atividades, a partir de oficinas de imagens e informações que passariam a dar mais sentido a conhecimentos que já existiam, mas que não eram compreendidos por todos. As atividades despertaram nos alunos a vontade de intervenção, porém, intervir na cidade ou no bairro da escola tornava-se um desafio maior e mais difícil. Sendo assim, talvez fosse possível começar pelo espaço mais próximo: a escola. Foi nesse contexto que, por iniciativa dos alunos, a escola foi tomada por um movimento de pintura das salas de aula dando as esses espaços mais cor e identidade e trazendo razões para serem bem cuidados, afirmando a dimensão vivida do cotidiano. Esse movimento redefiniu a relação dos alunos com o espaço da escola, e repensar esse espaço, a partir das práticas e vivências cotidianas, torna-se o objetivo deste trabalho
A pedagogia da alternância e os contributos para a educação ambiental: o caso da escola família agrícola Paulo Freire. Município de Acaiaca/MG
O presente relato de experiência ,parte de trabalho de conclusão de curso em Educação Ambiental, pautou-se em discutir acerca dos contributos da pedagogia da alternância no que toca à prática da educação ambiental e, sobretudo, no contexto de procurar compreender de que forma este viés teórico e metodológico da educação se aproxima da construção de uma consciência ambiental que posso reestruturar as formas de se relacionar com o meio ambiente. Foi utilizado como estudo de caso a Escola Família Agrícola Paulo Freire, localizada no município de Acaiaca, zona da mata mineira, onde a prática da pedagogia da alternância é a base da educação que rege a instituição. Enquanto marco teórico, foram utilizados autores que dialogam acerca do fundamento da educação do campo, do histórico e da luta deste campo da educação no Brasil, o desenvolvimento da pedagogia da alternância e seu potencial em fortalecer o conceito amplo de educação ambiental não só no dia a dia, mas, também, no cotidiano e na educação ao longo da vida dos estudantes envolvidos nas EFA’s. A pesquisa baseou-se num caráter qualitativo a partir das análises na literatura disponível sobre o tema, bem como sobre a interpretação dos documentos que regem a escola família agrícola Paulo Freire e, ainda os projetos por ela desenvolvidos. Enquanto conclusão, pôde-se avaliar a força que a instituição, por meio de suas práticas, carrega para o desenvolvimento de uma educação ambiental sólida e de potencial peculiar para o fortalecimento da consciência ambiental