Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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    Loucura, transformação, predação e diferença nas terras baixas da América do Sul

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    A loucura só existe em uma sociedade, diria Foucault, não existindo fora das formas de sensibilidade que a isolam, repulsam ou a capturam. Por esse caminho, este trabalho busca investigar a possibilidade de existir ou não um conceito análogo à loucura entre as sociedades indígenas do continente sul-americano. Poderia assim surgir enquanto uma pergunta de pesquisa: como os ameríndios nomeiam e significam, controlam e buscam regular eventos considerados em seus próprios termos atípicos e incomuns para corpos e ações de seus indivíduos? A análise de diversas etnografias realizadas nas TBAS tem me mostrado até então que o que pode ser entendido como loucura no continente passaria por três conjuntos de problemas conhecidos na etnologia regional. No primeiro deles, loucura seria um problema de transformação: uma troca de perspectiva não controlada com outro ente do cosmos pode gerar estados de loucura, do ponto de vista humano. Um mau encontro na floresta (Jarawara), desagradar espíritos-donos em algum lugar (Baniwa) ou quebrar um ritual de iniciação (Matses) pode resultar na troca de perspectivas descontroladas, provocando diversas formas de crises e mal estar. Para surpresa ou não, existem línguas nas quais sua terminologia análoga à loucura tem o mesmo sentido de “transformar”, “virar”. No segundo conjunto de questões levantadas, o problema da loucura passaria pelo tema da predação: durante as caçadas, há casos de inversão da relação, e quem era predador (no caso, um humano) passa a ser presa (de algum espírito-animal). Assim, num infortúnio, o então caçador pode ser caçado e passa a ser sujeito da relação perspectiva e consequentemente sofrer com as crises ocasionadas. Há casos também de se ingerir carne proibida ou de maneira inadequada, atitude que provoca alucinações (Pirahã); ou então se pode ser acometido por estados de loucura após ser vítima de feitiços (Aweti). Se um xamã não intervir a tempo, as crises ou alterações de estado podem resultar em morte. Por fim, esses dois pontos levam a um terceiro, colocando o problema da diferença: refiro-me aqui aos efeitos sociológicos das crises, uma vez que em vários contextos esses eventos evidenciam produção de diferenciações internas ao grupo. A alteridade não está apenas para fora do socius, no Outro, mas também é reproduzida internamente, e não é incomum casos de endoviolência. As etnografias analisadas mostram que o que aparece como loucura na América indígena é também máquina de guerra contra totalizações

    A pesca artesanal em Cabo Verde como obstáculo ao estratagema do progresso: uma reflexão etnográfica sobre a atualidade do “arcaico” e o atraso do “moderno” na gestão estatal das pescarias

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    Este trabalho busca refletir sobre a escassa base de conhecimento antropológico, sociológico e histórico sobre a pesca artesanal em Cabo Verde como um fenômeno que conecta o passado e o presente das ilhas por meio de seu caráter estrutural. Sua manutenção como algo permanente, mesmo depois do processo de independência, relaciona-se tanto com o comportamento ideológico de suas elites governantes, como com a força e a violência ainda exercidas pelas antigas potências coloniais europeias como meio de garantir seus interesses imediatos na região. De nossa perspectiva, defendo que a apreensão etnográfica deste universo, partindo principalmente daquilo que os pescadores narram sobre seu ofício, pode vir a contribuir de maneira singular para a problematização do conflito socioambiental vivido pelos pescadores artesanais do arquipélago em função da sobreposição da pesca industrial nacional e estrangeira nas áreas tradicionais de captura e da consequente escassez estrutural do pescado que esta intrusão tem acarretado para as comunidades pesqueiras das ilhas. Apesar de amplamente presentes em todas as ilhas do arquipélago, em termos sociais e políticos tem sido possível identificar os atores da pesca situados em uma espécie de margem social que oblitera o caminho para que suas práticas e saberes sobre o mar sejam levados em conta nas formulações da gestão estatal do espaço marítimo que, nas últimas décadas, vem apostando fortemente em um processo de comoditização deste espaço, aprofundando a disputa pelo pescado a patamares dramáticos. No âmbito desta disputa, as comunidades pesqueiras têm sido capturadas nas teias de uma guerra classificatória que, acionando imagens arcaicas do passado colonial das ilhas, as tem associado a imagens de um primitivismo técnico e social que estão longe de corresponder ao que as pesquisas junto a estes coletivos são capazes de demonstrar

    “O que a psicologia tem a dizer sobre isso?”: deslocamentos e provocações sobre pobreza menstrual entre duas psicólogas e um grupo de mulheres universitárias

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    Este trabalho tem por finalidade introduzir e desdobrar uma temática relacionada à menstruação cada vez mais presente nos debates políticos, virtuais, feministas e acadêmicos: a pobreza menstrual. Ao receber pedidos vindos de estudantes de medicina (do sul e sudeste) associadas ao IFSMA Brazil, desenvolvemos duas palestras em eventos universitários com transmissão online no segundo semestre de 2021. Ao longo do texto analisaremos os trabalhos feitos nestes eventos, apresentaremos uma breve discussão sobre o que vem se construindo como pobreza menstrual, bem como recortes de classe, raciais e etários, projetos de lei que estão sendo aprovados ao redor do Brasil, além dos discursos que vêm se difundindo nas mídias sociais, o que inclui páginas de empresas, não só de produtos menstruais, mas também aquelas direcionadas aos mais diversos fins. Desse modo procuramos compreender o contexto atual que coloca o tema em evidência, a despeito da invisibilização e dos tabus aos quais a menstruação sempre foi relegada, buscando refletir sobre possíveis contribuições do pensamento feminista na ressignificação dos corpos menstruantes e na afirmação da necessidade de torná-los visíveis

    monoculturas: um exercício de figuração especulativa feminista

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    O exercício de figuração tem sido uma forma de especular sobre o que mais pode ser dito sobre uma história que parece, à primeira vista, de modos politicamente unívocos de descrição, apenas destrutiva. Tendo percorrido o já repisado mas sempre necessário caminho da crítica às supostas determinações ontológicas do maquinário tecno-científico-mercadológico, um novo desafio se coloca: como reativar, em nossos feitiços de linguagem, as materialidades que emergem de relações atravessadas por contradições? Se a racionalidade é um dos deuses idolatrados pelas políticas de morte, como salvar o pensamento da captura de representar um mundo já dito; como reunir as palavras na tessitura da existência e refazer o vínculo fecundo das histórias? Minha proposta é experimentar com algumas cenas, imagens e narrativas que circundam a ideia de monocultura, baseada em materiais de minha própria observação, em leituras feministas, em manifestos em mídias digitais e em minha pesquisa teórica na antropologia, buscando desmanchar linhas e costurar incômodos inesperados em modos simplificados de encarar problemas tão conhecidos

    Aprender a responder à intrusão de Gaia: práticas de uma horta urbana

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    Considerando que vivemos a “intrusão de Gaia”, nome que Stengers (2015) dá ao grande acontecimento que se desdobra em ocorrências como o aquecimento global, as extinções de espécies, entre outras catástrofes, uma pergunta parece importante: que respostas locais temos conseguido construir? Este trabalho toma em análise uma experiência de horta urbana localizada na cidade de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul/Brasil, para compreender as aprendizagens de um grupo de praticantes de horta em um território periférico da cidade. Para pensar a experiência aqui narrada, articulamos o vivido na horta comunitária em questão às obras de um conjunto de autores que compõe o horizonte interpretativo denominado por Carvalho e Steil (2014) de epistemologias ecológicas. A pergunta que nos coloca a refletir é: de quais modos é possível construir respostas à intrusão de Gaia? Estamos entendendo, a partir de Stengers (2015), que as respostas baseiam-se no engajamento em relação às experimentações que buscam criar possibilidades de um futuro não bárbaro. Seguimos também uma perspectiva ecológica de aprendizagem, baseada na noção de prática em correspondência (Ingold 2020) com diferentes seres. Com as e nas práticas deste particular espaço comunitário foi possível acompanhar o desenvolvimento de habilidades relacionadas à aprender como aprender a ser, a habitar, e a desenvolver habilidades, ao mesmo tempo em que se constrói vínculos de pertencimento a um lugar, a uma comunidade que coproduz respostas contingentes às lógicas capitalistas, coproduzindo também a si mesma. Experiências como as das hortas urbanas implicam na criação de vida a partir de conexões, do estabelecimento de redes de ação. Vida que explora novas potências de agir, sentir, imaginar e pensar. Práticas dessa natureza parecem povoadas por humanos que tem sido compelidos a tentar mudar modos de viver, afetiva, mas também, politicamente, levando em consideração que para responder à intrusão de Gaia talvez seja necessário agir em correspondência com o outro, com toda a complexidade que isso representa. Adotar essa perspectiva é afirmar que a resposta à intrusão não será aquela de uma humanidade reconciliada (Stengers 2015), mas será aquela que depende do repovoamento de um mundo que foi devastado e hoje precisa reestabelecer capacidades coletivas de pensar, imaginar e criar

    Um olhar antropológico sobre o mercado de eventos na COVID-19: conflitos entre a temporalidade da razão econômica e a produção de tecnologia

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    Com a chegada da pandemia da COVID-19 no Brasil, em março de 2020, as autoridades brasileiras tomaram inúmeras medidas para regular ou mesmo proibir diversas atividades econômicas com o objetivo de evitar aglomerações e reduzir a taxa de contágio. Diante desse cenário, o setor de eventos foi um dos mais impactados, pois a paralisação de suas atividades levou o faturamento de muitas empresas a R$ 0,00.  Como reação, as empresas passaram a investir na produção de tecnologias que permitissem “gerar caixa no mundo online” e diminuíssem a dependência do “mundo offline”. A partir do trabalho de campo em uma empresa de eventos realizado em meio a Pandemia da COVID-19, busco analisar as relações - de afastamentos ou aproximações - entre a temporalidade da produção de tecnologia, pensada como necessária para a inovação e lucratividade do setor, e a temporalidade da razão econômica que pauta as decisões da diretoria da empresa. Para tal me inspiro nos trabalhos de Yanagisako (2002) e Pardo-Guerra (2019) que discorrem, respectivamente sobre o processo decisório de sócios e diretores de empresas a partir de suas trajetórias históricas pessoais, e sobre as histórias dos engenheiros que produzem a tecnologia e fazem funcionar o mercado. Na esteira da proposta de Laura Bear (2014), utilizo a teoria do tempo de Gell (2014) para analisar os mapas temporais produzidos a partir do trabalho no/do tempo, e seus efeitos na experiência subjetiva das pessoas e nas relações de dominação. O intuito é refletir sobre como, no amplo processo de digitalização da vida, há uma expectativa de agentes econômicos em criar mercados a partir de certas tecnologias, que faz surgir certos conflitos e incompatibilidades entre os mapas temporais da razão econômica e da produção de tecnologia

    Bi-blioteca: divulgação científica sobre bissexualidade e monodissidência no Instagram

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    Tendo como contexto a comunicação sobre bissexualidade e outras identidades ou temas que permeiam o universo das monodissidências, objetivamos refletir sobre a divulgação científica nas mídias digitais a partir da idealização e administração da Bi-Blioteca. A Bi-Blioteca (@bi__blioteca) é um perfil criado por nós em janeiro de 2021 na plataforma Instagram a partir da percepção de que existe uma demanda do movimento bissexual e de sujeitos bissexuais, por produções científicas e dados sobre a bissexualidade. Isso se dá ao mesmo tempo em que há um aumento de pesquisas acadêmicas sobre o tema, porém, estas são pouco conhecidas entre ativistas e entre a comunidade em geral. Portanto, criamos o perfil com a intenção de facilitar o acesso às reflexões teóricas sobre bissexualidade e como uma devolutiva de nossas pesquisas às pessoas interlocutoras. Em meio ao contexto da pandemia da Covid-19 percebemos e participamos de mobilizações em torno da bissexualidade, onde as mídias digitais têm centralidade. Com a emergência da pandemia e a mudança de muitas atividades do presencial off-line para o on-line, iniciativas locais passaram a se integrar mais facilmente em uma rede de ativismo nacional e em diálogo com a academia. Destacamos a divulgação das produções acadêmicas sobre bissexualidade e monodissidência como estratégia de criação de espaços entre as produções científicas e a agenda do ativismo bissexual, bem como enquanto incentivo à produção de mais pesquisas. A partir dessa divulgação estabelecemos diálogos com ativistas e pessoas que comunicam sobre a bissexualidade, que também se apropriam  das teorias apresentadas por nós e outras pessoas pesquisadoras para produzir seus conteúdos, gerando novos entendimentos e mobilizações políticas. Nesse sentido, desenvolve-se uma relação dialógica entre academia, produção de conteúdo e ativismo como resistência entre pares, ao mesmo tempo em que se busca a divulgação sobre as pautas para outros públicos. Salientamos as possibilidades de expansão da comunicação a partir das tecnologias, mas ao mesmo tempo, perfis nas redes sociais ficam à mercê da identidade algorítmica e do agenciamento das plataformas que dificultam a “entrega” de conteúdo na medida em que o personalizam

    Racismo e vulnerabilidade socioambiental: a Batalha do Crematório como estratégia de resistência e denúncia à ameaça policial e à segregação urbana em Belém/Pará

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    A violência policial nas periferias de Belém é um problema social intimamente ligado às dinâmicas raciais e sócio-históricas envolvidas no processo de construção do ambiente urbano. O cotidiano periférico dos jovens negros belemenses é marcado, deste modo, pelo constante sentimento de medo e incertezas causados pela profunda relação entre vulnerabilidade socioambiental e as sucessivas ameaças realizadas seja pela polícia formalmente constituída, seja pelas milícias que atuam de forma clandestina. Neste sentido, este trabalho busca dar destaque à “Batalha do Crematório” como uma estratégia de articulação cultural e política da juventude negra periférica da cidade de Belém que, através de batalhas de improviso, do rap e do hip hop, buscam alternativas de lazer e formas de denunciar o racismo, a desigualdade socioambiental e a truculência policial. Para tanto, faz-se uso do conceito de práxis de Pierre Bourdieu sendo traçados vínculos entre o repertório linguístico e as atividades realizadas pelos participantes deste evento com o contexto socioambiental em que se destacam estas experiências. A avaliação destas estratégias é importante pois evidenciam, ao mesmo tempo, a materialidade das relações que conformam a desigualdade socioambiental no contexto periférico amazônico; a atuação da polícia como responsável, em parte, pela manutenção deste modelo; e as possibilidades de utilização da linguagem como uma habilidade corpóreo-sensitiva capaz de se configurar como tecnologia culturalmente acessível e eficiente para a articulação cultural e política de grupos socialmente marginalizados

    “Nós somos a História”: criações e circulações entre ikoma e xitiki

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    Este texto propõe uma reflexão a partir da experiência de um grupo de mulheres que se reúnem para dançar, cantar e fazer xitiki (sistemas de ajuda mútua através de crédito rotativo comuns em diversos contextos africanos). A História é o nome deste grupo de tufo (expressão musical-corporal do litoral norte do país) do qual participei, junto às vizinhas do bairro Litine, na Ilha de Moçambique, entre 2019 e 2020.  A prática dos grupos de tufo da Ilha de Moçambique pode ser ouvida como uma alternativa, uma possibilidade de contar "outras histórias" - através da criação das músicas que são dançadas pelo grupo - que não se encerram nas narrativas da pobreza estrutural e da vulnerabilidade econômica feminina da região. Detendo-me nas criações dessas mulheres, pretendo contribuir para a discussão da prática de xitiki mostrando como os aspectos expressivos, artísticos, bem como o destino dessas apresentações (ritos de iniciação) estão intimamente conectados. Por outro lado, ao pensar nas circulações que ocorrem no interior e na vizinhança dos ikoma (batuques) e xitiki podemos pensar como estes se relacionam com práticas econômicas cotidianas. Finalizo o texto com uma reflexão acerca da importância do movimento, que não se limita aos aspectos de socialização, mas àquilo que anima, e que se opõe à estagnação, expressa na condição de estar sentada, sem perspectivas, emprego ou dinheiro. Esboço, então, a ideia que as dinâmicas de circulação e de criação engendradas nas práticas de xitiki e dos múltiplos batuques (tufo, ritos de iniciação) que as mulheres promovem na Ilha de Moçambique, podem ser um antídoto para este \u27estado de estagnação\u27 gerado tanto por desarranjos espirituais ou efeitos da guerra prolongada, como também pelos modos de funcionamento (exclusão, rompimento de vínculos) próprios do capitalismo

    A produção do corpo do antropólogo no trabalho de campo: alianças entre Dança e Antropologia

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    Nesta apresentação, proponho uma reflexão sobre a centralidade e a produção do corpo do antropólogo na pesquisa de campo, a partir de dois movimentos: minha experiência de aprendizagem em atividades de ensino de dança e uma aproximação com o debate promovido por Tim Ingold a respeito da relação entre Antropologia e Educação. O propósito é problematizar de que maneira estas experiências na aprendizagem em dança me permitem refinar uma educação da atenção, a partir de um processo de produção de meu corpo. Trata-se, ainda, de questionar a ideia de que se o objetivo da Antropologia não se esgota na etnografia e na descrição detalhada, mas antes sobre as potencialidades da vida, não deveríamos ser constrangidos por uma certa visão de método que neutraliza a análise dos fluxos da vida e o aprendizado com outras pessoas ou coisas

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