Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Corpo e cuidado: um estudo etnográfico das práticas em enfermagem
O presente trabalho é parte de uma pesquisa de mestrado, que teve como objetivo compreender a corporalidade presente nas práticas características da enfermagem, traçando como foco de análise o entendimento de como a formação destes profissionais estaria atravessada por uma modulação corporal particular. No texto que se segue, apresentarei especificamente a prática do exame físico, buscando apontar como a formação em enfermagem envolvia a construção de uma sensorialidade específica, expressa pela habilidade de leitura do corpo do outro a partir do uso do próprio corpo, através da mobilização dos sentidos. Desse modo, conduzimos nossa investigação através de uma etnografia realizada com estudantes e professores da faculdade de enfermagem de uma universidade pública mineira, perpassando os cotidianos de treinamento nos laboratórios e os contatos iniciais com os pacientes
“Os pontos cardeais e a relação com Nhanderu retã”: territorialidade mbya guarani, conflitos e distintas formas de traduzir e viver (n)a terra
Tendo como base as interlocuções com os xamoi e jaryi na aldeia Piraí, propomos uma apresentação conjunta a respeito de narrativas da territorialidade mbya guarani e distintas formas de traduzir e viver (n)a terra, partindo do mapa elaborado por Darci da Silva Karaí Nhe\u27ery, em um experimento de codificação das direções de Nhanderu numa cartografia que mostra as relações de espaço e tempo entre plataformas celestes e os espíritos das pessoas em yvyrupa, na terra. Na concepção mbya guarani, a direção Leste é a principal, onde está Nhamandu amba. As quatro direções de Nhanderu indicam quatro amba, lugares sagrados de onde vem os nhe\u27e, espírito. O ritual do Nhemongarai é o momento de revelação do nome da pessoa, o tery, e a descoberta do amba de origem, que vai determinar a personalidade e a vocação durante a vida na terra. A cartografia de Darci da Silva é de orientação cosmológica, elaborada com o objetivo de fortalecer os conhecimentos repassados dentro da opy, casa de reza, dos mais velhos aos mais jovens. Assim o jovem sabe de onde nasce, de onde vem, de que mundos de Nhanderu ele veio, se fortalece espiritualmente através do Nhemongarai e tem orientação para viver na terra. É um mapa que não cabe no território nos termos operados pelo Estado, mas que conceitua espaço, tempo e vida mbya guarani. A histórica ausência de diálogo com povos indígenas no Brasil, resultado do processo colonizador, faz o Estado experimentar hoje a incapacidade de compreender formas indígenas de conceber territórios, a falta de articulação política e a fragilidade de documentos oficiais sobre aldeias, como no caso da aldeia Piraí. Muitos dos documentos e registros oficiais sobre a aldeia Piraí foram escritos a partir de relatos não-indígenas e muitas vezes anti-indígenas que, quando analisados mais detidamente, mostram falhas, equívocos e até mesmos pistas a respeito da presença histórica indígena na região do litoral norte de Santa Catarina, Estado no qual hoje diversas comunidades enfrentam a tentativa de anulações das demarcações das terras com base na tese do marco temporal. Buscamos na recuperação de registros históricos da aldeia Piraí, aliada a elaborações cartográficas de autoria indígena, problematizar e discutir conflitos e distintas formas de traduzir e viver (n)a terra que possam apontar para possibilidades de articulação em defesa dos direitos territoriais
“Tá na TPM”: Estigmas da menstruação na mídia e na escola
A expressão que dá título a este escrito é muito ouvida por pessoas que desafiam a subalternidade sexo e gênero que lhes é imposta na sociedade ocidental moderna. Nestas linhas, problematizo o estigma da instabilidade e da selvageria como um recorte da dissertação Tá de Chico? Estigmas do Sangue na Mídia e na Escola (2021). A pesquisa se desenha por meio de teorias interdisciplinares, elencando a cristalização deste estigma e também de outros, localizando os mesmos por caminhos metodológicos que perpassam a bricolagem de mídias nos anos de 2019 e 2020, categorização do conteúdo com inspiração nos métodos de Neira e Lippi (2012) e Bardin (2011) e o diálogo com professores e professoras por meio de uma formação docente voltada para a temática. Esta ciranda tecida de forma plural e dinâmica permitiu estabelecer paralelos entre os termos que associam os estigmas da instabilidade e selvageria para aproximar as pessoas menstruantes dos animais e da natureza, questionando sua sanidade, evolução e sua humanidade de forma a interligar as intersecções sexo, raça, gênero, classe social, território, idade e, também, espécie, evidenciando o cercamento das pessoas menstruantes a respeito dos saberes e direitos sobre seu próprio corpo perpassa a colonialidade do saber e do poder, de território e de corpo enquanto território
Bots, algoritmos, petições e postagens revoltosas: a recepção de filmes nas redes sociais e a polêmica pública online entre fãs sobre o filme Os últimos Jedi
Criada por George Lucas na década de 1970, a franquia Star Wars tem sido, desde então, um dos universos narrativos mais celebrados e consumidos da indústria cinematográfica hollywoodiana. Filmes, desenhos animados, gibis, livros, fantasias, bonecos, jogos eletrônicos, brinquedos ajudaram, no decorrer dos anos, a mediar a relação dos fãs com seus personagens e histórias favoritas. Com a popularização da internet, no final da década de 1990, o contato dos aficcionados entre si e com o universo da franquia ganhou novos mediadores: fóruns, sites de fanfiction, redes sociais e plataformas de compartilhamento de imagens e vídeos se tornaram locais online de encontro, compartilhamento, criação, elaboração e divulgação do universo narrativo criado por Lucas. Com isso em mente, a presente comunicação oral pretende lidar com parte da recepção do filme Star Wars: Episódio VIII – Os últimos Jedi (Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi, Johnson, 2017). Considerado polêmico por parte do público, ele obteve uma recepção bastante dividida do fandom, com pessoas chegando a criar um abaixo-assinado online pedindo que a obra fosse retirada do cânone da franquia, principal objeto de apreciação dessa comunicação. O que se viu no referido caso é paradigmático do modo como tem se dado a recepção de certos filmes em redes sociais, principalmente aqueles com protagonistas pertencentes a minorias sociais. De um modo geral, o que poderia ser apenas uma discordância entre fãs acabou se tornando uma polêmica pública cujo campo de batalha foram postagens, resenhas, petições e vídeo-ensaios, se tornando, em parte, um produto dos algoritmos que forçam o engajamento por meio da mobilização de afetos extremados. Para promoção dessas opiniões, tornou-se notória a utilização do uso de bots, de contas falsas e de atividades coordenadas. Assim, tal querela acabou envolvendo um emaranhado de redes sócio-técnicas que abrangem, dentre outros: as pesquisas de marketing na criação de obras ficcionais por parte de conglomerados de mídia, bem como a utilização dos algoritmos das redes e plataformas como estratégia de publicidade e de anti-publicidade e também os afetos mobilizados pela criação de grupos de afinidades e identificação intermediadas pelo consumo dos objetos midiáticos em questão. Tais redes tem se entrelaçado de maneira que as polêmicas envolvendo fãs nas redes têm se tornado cada vez mais comuns, influenciando novas formas de consumo e de relação com universos narrativos ficcionais
".jpg(1)" e o Risco do Incomensurável Gráfico: a Circulação das Imagens Digitais na Web e a alternativa das Linhagens Técnicas
Diariamente, bilhões de arquivos de imagem são compartilhados digitalmente em todo o planeta, seja em sites integrados a navegadores, seja através de aplicações para dispositivos móveis. Ainda que para um cientista de dados isso possa significar uma variável numérica, ou a partir de termos do marketing e da publicidade online possa ser estratificado a partir de métricas de engajamento – como compartilhamentos e visualizações únicas –, para uma antropologia da técnica atenta às imagens digitais isso pode significar um problema difícil de contornar. Como abordar imagens digitais na Web, quando uma uma imagem copiada, baixada ou carregada não é a mesma? Se nas inúmeras cadeias de reprodução e circulação uma nova imagem é gerada a cada nova ação? Se o uso for, efetivamente, uma forma de invenção?
Estes escritos pretendem considerar, a partir dos pensamentos de Gilbert Simondon e Yuk Hui, possibilidades analíticas na abordagem de imagens digitais em produção, reprodução e circulação. Primeiramente, considerando o ciclo inventivo das imagens em Simondon, as imagens que repousam em objetos técnicos e suas pontes com a concepção de objeto digital, em Yuk Hui. Em seguida, explorando os tangenciamentos ao ciclo inventivo – a comunicação – modulados pelo planejamento visual de interfaces gráficas, jornadas de experiência de usuário e hardwares, que revelam a problemática da incomensurabilidade das imagens digitais – tanto em suas cadeias de pixels, quanto em seus metadados –, quando as observamos a partir das lentes de uma antropologia da técnica. Ao final, a partir da acepção de linhagem técnica, em Simondon, exploro as potencialidades das transformações em termos de pixels e metadados como saltos ontogenéticos, que também podem se apresentar como coordenadas em cadeias de reprodução e circulação de imagens digitais
Na iminência da catástrofe: a lama invisível de Barão de Cocais (MG)
Os rompimentos de barragens de rejeitos em Mariana, em 2015, e em Brumadinho, em 2019, delinearam um novo contexto para a mineração no Brasil, em especial em Minas Gerais. Se, por um lado, as atividades das mineradoras não parecem ter sido abaladas, por outro, números e relatos passaram a chamar atenção do debate público, revelando um quadro de instabilidade e insegurança. Entre as dezenas barragens que possuem risco de rompimento, está a Sul Superior, localiza na Mina Gongo Soco, pertencente à Vale S/A.
Desde fevereiro de 2019, a população do município de Barão de Cocais vive o perigo de um possível rompimento. Com o provável caminho da lama calculado, quatro vilas e centenas de pessoas foram retiradas de suas casas durante uma madrugada. Desde então, os moradores de Barão vivem com a presença do fantasma da tragédia. Apesar de o rompimento ainda não ter se efetivado, sua possibilidade, por si só, já afeta o território em diferentes dimensões.
No interior desta paisagem incerta, muitas vidas, humanas e não humanas, foram colocadas em suspensão. O presente trabalho tem como objetivo delinear alguns traços que marcam o contexto em que este quadro de instabilidade e incerteza se produz, bem como compartilhar reflexões e questionamentos acerca de como os rompimentos (ou suas possibilidades) produzem efeitos sobre as redes de relações estabelecidas nas paisagens em que as barragens estão inseridas. O que se rompe com o rompimento de uma barragem? Como é possível recontar essas histórias sem apenas reforçar suas violências
Uma análise do antropoceno a partir da perspectiva necropolítica da película audiovisual Act without words I de Samuel Beckett
Este estudo propõe fazer um ensaio do Antropoceno a partir da perspectiva Necropolítica da pandemia do Sars-CoV-2 na película audiovisual Act without words I de Samuel Beckett. A metodologia aplicada é um ensaio a partir da análise descritiva da película audiovisual Act without words I fundamentado teoricamente nas discussões teóricas propostas por Paul Crutzen e Eugene Stoermer (2000), Donna Haraway (2015), Achille Mbembe (2003) e Cecília Mello (2020). Interessa-nos, portanto, refletir as relações entre o Antropoceno, a Necropolítica e a pandemia do Sars-CoV-2 na obra beckettiana.  
Caboclos e cosmopolíticas: encruzilhadas e invocações em um terreiro no recôncavo baiano
A partir do culto aos caboclos em terreiros de candomblé no recôncavo baiano, reflito sobre as dimensões cosmopolíticas de suas práticas, pensando como determinadas disposições espirituais mobilizam ações de rexistência às capturas de projetos de transformação dos territórios e identidades. Para pensar os tipos de engajamentos criativos que quero enfatizar, experimentei chamá-los “feitiços rexistenciais”. Compreendendo-os enquanto uma possibilidade de tecnologia afro-confluente que permite viver pluriontologias e viver uma não dissolução da existência em formas de resistir específicas. Sendo o ato de existir já contendo o resisitir, inspirado nos saberes relatados por Nego Bispo, discuto as confluências e os deslocamentos conceituais operados na cosmopolítica. Assim, reflito sobre perspectivas de práticas e pensamentos abordando-as enquanto avessas, como uma fractalidade de atr[avessa]mentos, reforçando a ideia de fluxos. Essa perspectiva nos possibilita pensar a noção de territórios desvinculada apenas da questão da terra, ligando-se a retomadas de formas de vida. Permite também, seguindo o pensamento de José Carlos dos Anjos - na proposição de uma filosofia política da religiosidade afro-brasileira - pensar o culto aos caboclos enquanto um modelo rizomático de encontro das diferenças que rexiste às capturas da identidade, abordando-as desde a encruzilhada. Nesse sentido, mobilizo a capacidade de enfatizar a Anunciação das formas de vida que rexistem e que empreendem ações necessárias para a continuidade da vida no ato de posicionar-se através de ações cosmopolíticas. Operam assim, através da invocação, reativando a possibilidade de outras agencias e perspectivas que expressam um campo pulsante de práticas e que conjugam ações de humanos e não-humanos, mas que principalmente, formulam suas propostas em relação à possibilidade e presença de um futuro colocado em outras temporalidades. Postulam então alternativas possíveis, porque apontam para um futuro que já aconteceu e porque se comunicam com a concepção de que o futuro é Ancestral, como nos diz Ailton Krenak
Violência simbólica e Ensino de Geografia: considerações a partir de uma prática de Estágio Supervisionado
O artigo trata de uma experiência de estágio obrigatório de Licenciatura em Geografia realizado na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, em que foi observado um sétimo ano de uma escola estadual localizada na cidade de Campinas – SP. Buscou-se relatar algumas das práticas docentes a partir do referencial teórico contido na sociologia de Pierre Bourdieu, em especial a prática da violência simbólica tal qual apresentada pelo autor na obra “A reprodução” (1975 [1970])