Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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    As possibilidades do YouTube enquanto plataforma para uma investigação etnográfica

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    A crise sanitária que vivenciamos fez emergir fragilidades referentes àquilo que se considera classicamente como pesquisa de campo na antropologia, a saber, o “estar lá” e a “observação direta e participante”, inviabilizando, dessa forma, “certa” pesquisa. No entanto, essas fragilidades serviram também como ponto de partida para destacar metodologias de pesquisa alternativas àquelas que são praticadas mais amplamente. Foi a partir da plataforma do YouTube que encontrei a possibilidade de investigar as estratégias de marketing relacionadas ao empreendimento de um loteamento urbano chamado Smart City Laguna. Este tem sido considerado, pelos seus idealizadores, a primeira cidade inteligente e social do mundo. Tenho especificamente levado em conta os vídeos publicados no canal institucional da incorporadora responsável pelo loteamento, a Planet Smart City, nos quais são utilizadas narrativas de clientes (futuros moradores e investidores) para atribuir sentido particular e valor ao empreendimento. Estou interessada também em explorar que tipos de contatos são possibilitados pela plataforma do YouTube; o que é possível analisar e inferir a partir não só da análise de vídeos, mas tendo em conta o conjunto de atores que compõe o ambiente da plataforma a parir de comentários, likes e dislikes. Nesse sentido, apostar em uma etnografia em um meio, como o YouTube, onde não se tem contato direto e imediato com aqueles que, no campo clássico, são os atores da pesquisa, tem sido um trabalho investigativo e de busca por rastros de agências

    A arte do enxadrismo: considerações sobre habilidade, aprendizagem, epistemologia e antropogênese a partir do xadrez

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    Este artigo deriva de uma pesquisa de doutoramento ainda em estágio larval, figurando, portanto, mais como uma exposição dos planos, inspirações, hipóteses, perguntas e discussões teóricas que como um registro definitivo dos seus resultados. Trata-se de uma pesquisa antropológica sobre prática e habilidade no campo do enxadrismo. Nesta linha, visa-se alçar reflexões sobre as condições e potenciais da vida humana (antropogênese) implicadas no transcorrer das aprendizagens de seus jogadores e suas performances. A ancoragem empírica da pesquisa se dá em dois campos: Clube de Xadrez São Paulo (“xadrez de salão”) e Centro Cultural Vergueiro (“xadrez de rua”). Como a pesquisa se encontra em estágio inicial, os campos serão apenas abordados em suas características e contrastes gerais. Nos múltiplos desdobramentos desta investigação são inevitavelmente esperadas discussões e revisões críticas de pressupostos, explicações e conceitos oriundos de paradigmas ainda bem expressivos em ramificações da antropologia, os quais lidam com assuntos relacionados à percepção, habilidade e aprendizagem. Como o organismo, em sua contínua e polirrítmica atividade, é engajado na prática? Quais os papéis exercidos pelos materiais e as estéticas do tabuleiro e suas peças na prática dos jogadores? O que caracteriza a prática habilidosa neste âmbito e diferencia “experts” de “novatos”? Que confluências e dissonâncias existem entre o jogo performado por humanos e máquinas (via Inteligência Artificial)? Como o estudo da prática no xadrez (e esportes afins) podem contribuir para o aprimoramento teórico e melhor compreensão de temas como percepção, corpo, movimento, conhecimento, habilidade e aprendizagem nas ciências sociais? Para realizar aproximações profícuas em direção a tais perguntas, a pesquisa se valerá de injunções emergidas de revisões bibliográficas transdisciplinares, elencando importantes contribuições da antropologia, psicologia, filosofia, biologia e neurociências que correspondem, em diversas medidas, a temas como habilidade, percepção, aprendizagem, organismo e enxadrismo

    Energopolíticas em crise: pandemia, mudanças climáticas e futuros energéticos no Brasil

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    Onipresente nas sociedades modernas, é difícil imaginarmos um mundo sem energia elétrica.  A garantia do fornecimento elétrico é fundamental para o funcionamento dos objetos e sistemas que compõem nosso ambiente e, por isso, crises no setor energético são o pior pesadelo de qualquer grupo no poder. Durante a pandemia de COVID-19 a importância da energia elétrica  esteve em evidência por garantir não apenas o trabalho remoto, mas principalmente a sobrevivência de pessoas hospitalizadas dependentes de aparelhos para respirar. No Antropoceno, a energia se torna uma questão de preocupação tanto pelos efeitos dos modos de produção atuais, que impactam de maneira dramática os ecossistemas no mundo todo, quanto pela  busca de alternativas às infraestruturas produtoras de carbono para garantir a habitabilidade na Terra.  Considerando os enredamentos sociotécnicos e ambientais que constituem o setor elétrico brasileiro, tenho como objetivo apresentar alguns dos impactos da crise pandêmica e climática em seus processos infraestruturais, levando em conta tanto seus aspectos materiais quanto as organizações políticas e os discursos que as imaginam e as constroem. Por um lado, temos uma pandemia que impactou drasticamente a carga de energia do país e os modelos de previsão do setor; por outro, atravessamos a pior seca em mais de noventa anos nos reservatórios das hidrelétricas, as principais usinas que compõem o Sistema Interligado Nacional. Momentos de crise evidenciam os aspectos contingentes e não-técnicos das infraestruturas através de eventos não planejados por seus desenvolvedores e gestores, mas que são parte de sua constituição, as considerando como processos de experimentações ontológicas que criam e recriam relações materiais entre diferentes entes humanos e não-humanos. Assim, que tipo de energopolíticas – relações sociomateriais da energia que pautam o fazer político – estão em jogo quando pensamos as crises sob o Antropoceno e, em particular, a crise hídrica e a pandemia no contexto brasileiro? Que relações podemos estabelecer entre essas duas crises? Que tipos de futuros energéticos começam a ser imaginados e colocados em prática a partir delas? Que desafios elas colocam para a Antropologia das Infraestruturas? Essas são algumas questões que surgiram no percurso de minha pesquisa de mestrado e que nortearão minha apresentação

    Devir-fungo

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    Uma insurreição fúngica está em curso e ameaça o embrutecimento e a mecanização dos modos de produzir conhecimento. Outras maneiras de fazer são permitidas. Aposto, apoiada em Anna Tsing, no mutualismo e na “imersão apaixonada na vida dos não humanos que estão sendo estudados”.  Nos subterrâneos, nas ruínas, enrolados em raízes, dentro das células vegetais e humanas, em paisagens devastadas, nos cantos úmidos das malhas viventes, junto e dentro dos corpos, nas telas e nos livros, os micélios correm. Eles estão virtualmente em todos os lugares, produzem efeitos plurais; seguem encontrando alteridades, criando solo, consumindo manchas de óleo, transformando insetos em zumbis, embalando viagens psicodélicas, conectando a floresta, fermentando bebidas, reciclando as sobras da inconsequência humana, escrevendo e reescrevendo as histórias das bordas. Ensinam algo sobre o poder da contaminação, das simbioses e da permanência da vida até mesmo onde a morte já foi decretada.  O texto coloca em relação temporalidades, fluxos e fragmentos de mundo a fim de tentar entender como experiências operam dentro dos estudos científicos da cultura. Busca horizontar um pensamento “micelial” textualizado nas descobertas, práticas e procedimentos que se dão a partir de mundos que se perdem ou se transformam, apetites/oportunismos fúngicos e recipientes. O conceito de recipiente é tomado de Elisabeth Fisher, em “Carrier Bag Theory of human evolution”, retomado por Ursula K. Le Guin em “The Carrier Bag Theory of Fiction”

    Tecnologias de autocuidado e tecnologias digitais: agenciamento sociotécnico, ética do cuidado e colonialidade

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    Os estudos feministas do cuidado e os estudos feministas da ciência pensam o cuidado com uma tripla dimensão, a saber; estado efetivo vital; obrigação ética e trabalho prático.  O cuidado tem sido capturado dentro das relações do capital- virando indústria de serviço, produto, elemento de empreendedorismo liberal- como também habitado e co-produzido por plataformas digitais. Cuidar é uma tecnologia de vida e com implicações materiais vitais para o mundo. O cuidado é sempre situacional e “situar tecnologias é uma tentativa de desconstruir a universalidade que se impõe, violentamente, em diversas esferas da vida” (Hui, 2020). Assim, este trabalho se debruçará sobre o elemento autocuidado na tríade que compõem o direito ao cuidado, a saber, direito de cuidar, de ser cuidado e de autocuidado; para assim, discutir as tecnologias do autocuidado em sua composição com plataformas digitais e seus agenciamentos, a partir do diálogo entre a ética do cuidado, proposta por Donna Haraway e Maria Pluig de Bellacasa, e as discussões de colonialidade de gênero, de poder, do ser e saber. O conjunto de reflexões que apresentaremos será costurado por uma proposta ético-teórica do cuidado feminista, o que implica maneiras de habitar o mundo no qual se cultive as artes da atenção stengersiana. Atenção ao reconhecimento de outras existências e às multiplicidades de perspectivas sociotécnicas que coengendram o mundo comum. A perspectiva adotada aqui entende que as maneiras de estudar, analisar, representar diferentes coisas, sejam de humanos ou não-humanos, situações, ambientes, etc tem efeitos criadores de mundo, em seu aspecto ontológico, metafísico e especulativo do cuidado. Uma noção feminista de cuidado complexifica as questões e assume o compromisso especulativo de pensar fazeres e práticas cotidianas éticas e afetivas; fazeres que encarem os incômodos das existências interdependentes. Esse compromisso articula-se com as discussões do chamado feminismo decolonial. Assim, a análise de diversas práticas e experiências de autocuidado co-produzidas por plataformas digitais, a exemplo do Instagram, será também costurada pelos estudos a cerca da colonialidade do poder/ser/saber/ genro e dados a fim de indagar a produção de colonialidade na plataformização do autocuidado e evidenciar possíveis práticas de resistências decolonial com engendramentos inclusivos e afetivos

    Aliança matrimonial e ocupação territorial: um estudo sobre o sul do Amazonas

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    Os artigos de Claude Lévi-Strauss sobre os povos Kagwahiva que habitavam a região do rio Machado, em Rondônia, indicavam que os grupos locais tinham dois modos distintos e interligados de realizar o matrimônio: com afins distantes e com primos cruzados. Segundo o autor, o primeiro levava a uma regularidade de vínculos entre primos cruzados nas gerações subsequentes, o que, por sua vez, tornava necessário um novo ciclo de alianças entre grupos distantes. Em estudo recente, realizado entre os Tenharin do rio Marmelos, foi possível perceber a constituição de novas aldeias a partir de dissensões ocorridas entre líderes de grupos domésticos. Percebeu-se que os novos locais de moradia sempre remetiam a antigas ocupações ou a grandes chefes que ali viveram. Se em tempos antigos o eixo de referência das aldeias era o rio, hoje é a rodovia BR-230, Transamazônica. Aparentemente, ocorre uma nova configuração relacional com primos cruzados que habitam aldeias diferentes (como afins) e os que habitam a mesma aldeia (como primos cruzados, propriamente), fato que remete às notas de Lévi-Strauss. Uma reflexão interdisciplinar entre antropologia e computação com registros genealógicos de médio prazo poderia ser interessante para compreender se, de fato, há ciclos matrimoniais e se eles ocorrem como aqui indicado. Além disso, tais registros poderão ser instrumentos importantes para a comunidade Tenharin pensar sobre a ocupação de seu território ao longo das últimas décadas

    O inhengue e o tornar-se mulher: rituais de iniciação feminina entre mulheres Guarani no litoral de Santa Catarina

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    O presente artigo trata do ritual de iniciação realizado no momento da primeira menstruação (menarca) das mulheres Guarani, que é designado por inhengue. Através de um enfoque antropológico esta pesquisa etnográfica busca compreender como elas exercem o cuidado corporal nos momentos de rituais de transição da infância para a vida adulta, através de relatos de mulheres das mais diversas idades, e tem por objetivo compreendê-lo não apenas como ocorre na atualidade, mas através do tempo e das diversas gerações

    Transformando uma doença em dados: a produção epidemiológica da sífilis no sistema de vigilância no Brasil

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    Essa tese de doutorado estuda a reemergência da sífilis como epidemia no Brasil, com trabalho de campo focado na produção de dados epidemiológicos sobre a doença. O objetivo é compreender de que maneira a sífilis foi contemporaneamente definida como epidemia no país, quais processos que envolveram essa conceptualização e seus efeitos para as políticas de saúde sobre a sífilis. Esse trabalho aborda os desdobramentos do Plano de Eliminação da Transmissão Vertical da Sífilis no Brasil, proposto pela Organização Pan Americana de Saúde em 2004, no sistema de vigilância em saúde brasileiro. Está em questão descrever as implicações desse projeto para a conformação do sistema de vigilância da sífilis no Brasil. Em específico, o texto aborda a constituição e a estabilização da categoria de notificação “sífilis em gestantes” e seus efeitos na visibilidade epidemiológica da epidemia de sífilis. Utilizo como material etnográfico para a produção desse texto, boletins epidemiológicos da sífilis, notícias veiculadas pela imprensa nacional, instrumentos normativos e regulações do Ministério da Saúde. Argumento que a incorporação dessa categoria de notificação ao sistema de vigilância brasileiro foi realizada em meio ao projeto que objetivava a eliminação da transmissão vertical da sífilis, contudo, os dados por ela produzidos foram importantes agentes na definição da sífilis como epidemia. Concluo que esse é um dos mecanismos por meio dos quais uma epidemia se estabelece: quando se põe fim às metas que objetivaram sua eliminação

    Pandemia e quilombos: os impactos da Covid-19 em dois quilombos amazonenses

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    Discuto neste artigo os impactos da pandemia da Covid-19 em dois quilombos do Amazonas: Barranco de São Benedito, localizado em Manaus, e Santa Teresa do Matupiri, em Barreirinha, trazendo informações também sobre as outras comunidades de Barreirinha além de Santa Teresa. Discuto sobre os percalços da vacinação nesses dois quilombos, bem como a questão dos apoios que essas comunidades tiveram no quesito de alimentação e higiene, entre outras questões. Ambas as comunidades já tinham, antes da pandemia, dificuldades que são estimuladas pelo racismo e por preconceitos, sendo esta mais um adendo às adversidades com as quais os quilombolas precisam lidar cotidianamente. A discussão aqui proposta se dá a partir de bibliografia sobre comunidades quilombolas amazonenses e de conversas que tive com duas lideranças

    O guia alimentar para população brasileira: uma análise de riscos à luz da teoria social

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    O Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB) é um documento oficial que aborda princípios e recomendações de uma alimentação adequada e saudável para os brasileiros, configurando-se como instrumento de apoio às ações de educação alimentar e nutricional no sistema de saúde e outros setores, públicos e privados. É uma cartilha considerada importante mediadora de escolhas e facilitadora na tomada de decisão, para reconhecimento identitário do povo, especialmente num país com tanta diversidade. Este ensaio teórico versa sobre conceitos da sociologia escolhidos para análise e problematização, envolvendo políticas públicas e normativas institucionais no Brasil. Objetivo: Analisar e discutir a formulação do guia à luz de conceitos da teoria social, em especial a reflexividade, construção da identidade, teorias da modernidade e dos riscos. Resultados: Após análise foram verificadas vantagens do guia: Foi considerada a diversidade alimentar cultural e biológica das regionais brasileiras, tradicionais e consolidadas. Teve base de referência nos alimentos e não nos nutrientes, facilitando a compreensão das recomendações pelo público. Preocupou-se em evitar inadequações alimentares no cotidiano contemporâneo, considerando a aquisição de alimentos adequados e acessíveis. No entanto, foram visualizados dois graves riscos, sem abordagem: há uma discussão sobre consumo de alimentos processados e ultraprocessados que não é abarcada; e uma total omissão de alerta referente aos organismos geneticamente modificados (OGMs) conhecidos como transgênicos. Conclusões: Embora essa ferramenta oficial tenha sido construída de forma inovadora ao valorizar a comensalidade e o modo como se come, estimulando tempo, atenção e companhia à mesa. Contudo, a comunicação do guia deixou a desejar, ampliando assim a distância entre a percepção de leigos e peritos. É necessário que seja feita uma revisão para incrementar alguns aspectos, especialmente em relação aos riscos aqui apontados

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