Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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    Reflexões sobre as relações homem-animal na organização e vida social brasileira

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    Ao longo dos últimos trinta anos, ao se consumir cotidianamente os mais variados produtos dos meios de comunicação de massa, constata-se que o tema das relações homem-animal passou a ocupar uma posição de relevo na organização e vida social contemporânea. Trata-se de relações que veem de tempos imemoriais, mas que se constituiram em um fenômeno transnacional no tempo presente, assumindo configurações locais no mundo modernoindustrial e em sociedades de pequena escalanão industriais. São reportagens, artigos, notas, informes, cadernos, programas, editorias e documentários especiais sobre o tema que circulam, quase que semanalmente, através de jornais, revistas, canais de rádio e televisão, e pela Internet, concorrendo para alimentar o senso comum de parcelas expressivas da heterogênea e mestiça população brasileira. Graças às novas tecnologias de informação e comunicação, os registros sonoros, impressos e digitais dessa produção da mídia apontam para uma multiplicidade de situações, contextos, ações e experiências de natureza cultural (arte, poesia, literatura, expressões idiomáticas, hábitos alimentares), religiosa (cultos, orações e oferendas), política (formulação dos conceitos de liberdade e de direito animal, lobbying, passeatas, petições públicas) e econômica (turismo, produção de proteína animal, medicamentos e serviços para animais) que configuram as relações homem-animal. Trata-se aqui de refletir sobre essas relações na sociedade brasileira através do estudo de três casos: o do sacrifício religioso de animais inerente à prática litúrgica do Candomblé; o do turismo em áreas de preservação com a interação entre homem e boto em Unidades de Conservação na Amazônia; o do conflito presente em algumas Unidades de Conservação na Amazônia entre felinos silvestres e populações ribeirinhas com seus animais de criação doméstica

    Vida, política e escrita: experimentações com o arquivismo

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    A proposta que apresentamos deseja criar entrelaçamentos que permitam habitar de uma outra forma o mundo e os arquivos. Uma escrita-pesquisa que mapeará as linhas (seus movimentos, desenhos e configurações) que atravessam a constituição de arquivos na contemporaneidade, focalizando a aposta das biotecnologias (perfis genéticos que se pretendem o último arquivo, corpos inventariados e transformados em bancos de dados). Na medida em que, além do corpo, as próprias palavras, imagens e sons também se tornam arquivos, a partir do diagnóstico proposto, interessa-nos também pensar as potências das experimentações com o arquivismo - produzidas na interface entre filosofia, artes, ciências e comunicação - de afetar as relações entre vida, política e escrita. Para tanto, propomos adensar o pensamento sobre o arquivismo com a antropologia das linhas, de Tim Ingold; com filósofos pós-estruturalistas como Gilles Deleuze, Félix Guattari, Jacques Derrida, Michel Foucault e Jacques Rancière; e investigar experimentações com arquivos feitas por artistas contemporâneos como DJ Spook (arquivos sonoros) e Rosângela Rennó (arquivos fotográficos). Possibilidades de pensamento que não recusam, não se opõem, nem denunciam os arquivos. Também não aderem a eles. Promovem dentro deles um esvaziamento vital da política arquivista, transformando-a em problema e, ao mesmo tempo, objeto de experimentação

    Ciências e mundos aquecidos

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    As mudanças climáticas estão no centro de um dos debates científicos e sociopolíticos mais aquecidos da atualidade. Elas vêm ocupando um papel cada vez mais proeminente em discussões sobre energia, sustentabilidade, desastres ambientais, risco e há um crescente interesse por antropólogos de diversas tradições em estudar os impactos e as dinâmicas sociais em coletivos considerados vulneráveis aos efeitos de tais mudanças. Mas há pouquíssimos estudos etnográficos sobre as próprias pesquisas das ciências das mudanças climáticas. O objetivo deste estudo é o de contribuir para as descrições de ciências feitas na área da antropologia da ciência, em geral, assim como nos estudos interdisciplinares sobre mudanças climáticas, especificamente. Partindo da perspectiva da teoria do Ator-Rede (ANT), dos Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia, esta etnografia visa traçar as redes em torno dessa controvérsia científica no Estado de São Paulo, principalmente na USP, após a fundação do Núcleo de Apoio à Pesquisa INCLINE, e no INPE e em torno das recentes controvérsias envolvendo pesquisadores paulistas em meios de comunicação voltados ao público geral, em meios de comunicação voltados à comunidade universitária e também em eventos científicos especializados. O material de análise deste estudo de controvérsias que mobilizam redes de humanos e não-humanos em suas construções de natureza, sociedade e tempo são as produções científicas, seus discursos, seus conceitos, modelos, iconografias, seguindo os passos dos projetos cosmopolíticos propostos por Bruno Latour e Isabelle Stengers

    Micro e Macro Ecologias: Diferentes entendimentos sobre o processo de coleta de castanhas na floresta amazônica

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    Mundialmente apreciada, a castanha do Brasil é objeto – e sujeito – de inúmeras intervenções. Na divisa entre os estados do Pará e Amapá encontra-se um dos maiores maciços de castanhais da Amazônia, nesta região, castanheiros e extrativistas, há décadas, realizam a extração de castanhas para consumo e\ou comercialização. Com a expansão do chamado mercado verde empresas nacionais e transnacionais buscam aproximar-se destas populações com o objetivo de firmar contratos e “parcerias”. A presente proposta visa apresentar e discutir entendimentos e desentendimentos – empresariais e tradicionais, científicos e não-científicos – acerca do processo de coleta de castanhas no interior da floresta amazônica. Trata-se de uma reflexão em torno dos métodos empregados na coleta de castanhas e na certificação de castanhais a partir de uma análise que considera, de um lado, a prática extrativista nas colocações da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, realizada por castanheiros que vivem na região e, de outro, documentos produzidos pela empresa Imaflora, responsável pela certificação dos castanhais da referida reserva. Tanto a prática dos castanheiros, transformados em descrição etnográfica, quanto os documentos produzidos pela empresa certificadora, não fazem outra coisa senão estabilizar diferentes regimes de saber, os quais podem ser pensados como micro e macro ecologias. O presente texto, assim, propõe pensar tanto nestes entendimentos divergentes quanto em seus processos de estabilização

    Disputas cosmopolíticas e conflito ambiental na Amazônia brasileira, a partir da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte

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    Usina Hidrelétrica de Belo Monte, projetada para ser implantada no Rio Xingu, na Amazônia brasileira, é frequentemente apresentada como aquela que será a terceira maior hidrelétrica do mundo – e proporcional capacidade de gerar controvérsias e conflitos. Tais conflitos persistem há mais de 30 anos, e têm em seu histórico estratégias e associações entre grupos e demandas que estão na origem do socioambientalismo, demarcando uma nova fronteira de atuação e reivindicação política. O objetivo deste artigo é analisar como o conflito em torno da construção da hidrelétrica de Belo Monte, ao articular ambientalistas, comunidades indígenas, agricultores, ribeirinhos e acadêmicos, entre outros, reclama a agência de comunidades, rios, animais, matas na definição do que é prioritário na construção do mundo comum, em oposição ao discurso do desenvolvimento como ocidentalização. Para tanto, serão identificados os agentes humanos e não humanos envolvidos nas disputas, analisando-se suas articulações e seus movimentos de entre-captura (STENGERS, 2003) em torno da obra, adotando-se a noção de rede sociotécnica tal qual definida por Bruno Latour (LATOUR, 2003). Pretende-se, assim, apresentar uma cartografia dos agentes envolvidos, e discutir-se os processos pelos quais o conflito e sua dinâmica em torno de pontos de vista divergentes têm se configurado. Considera-se ainda que há no processo entre-capturas distintas, caracterizadas por restrições lógicas e sintáticas diferentes. Essas distinções ficam claras no que se refere ao controle do tempo. Portanto, será associada à discussão da rede sociotécnica a análise das disputas cosmopolíticas pela definição de “ambiente” e “desenvolvimento”, conceitos centrais nas contestações entre os grupos confrontantes. Argumenta-se que ao se disputar o que cabe na noção de ambiente – cujo lócus central de embate está no processo de licenciamento ambiental e na negociação de indenizações – se disputa, no limite o princípio mesmo da Grande Divisão que caracteriza o ideal moderno

    Exata e humana: um estudo antropológico sobre Neuroeconomia

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    A Neuroeconomia é um recente campo científico que procura adaptar métodos e conclusões das ciências do cérebro para explicar como os indivíduos escolhem. O objetivo é trazer empiria a uma ciência econômica “demais abstrata”, ou seja, aquilo que a Economia costuma tratar como externalidades e erros marginais nos seus modelos é observado pelos cientistas interessados como prova cabal de que seus métodos são inconsistentes com a força da biologia humana, formação genética e estrutura cerebral. Para tanto, se utilizam de uma máquina de “ressonância magnética funcional” (recém chegada ao Brasil) para avaliar as respostas do sistema neurológico a estímulos como risco, preferências por produtos, gosto pelas apostas, incentivos para ganhar e medo de perder. A sua peculiaridade é possibilitar análises das correntes elétricas e das imagens do cérebro, isto é, com os impulsos e suas variações no tempo. Com eletrodos grudados e um scanner rondando o seu cérebro, indivíduos são questionados em suas escolhas intertemporais entre bens, investimentos e consumos futuros, “questões morais”. Importa nesta apresentação pensar as novidades desse campo no Brasil e seus efeitos sobre formas de governos, estratégias corporativas e modos de compreender o mundo. Ou seja, mapear as origens, debates e contextos da Neuroeconomia (forte sobretudo nas universidades norte-americanas); assim como dialogar com os cientistas brasileiros interessados no tema e descrever como agem no laboratório

    Entre papéis, compostos químicos e máquinas: Saberes e práticas científico- jurídicas nos laudos periciais da Polícia Federal

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    Este paper tem como temática a relação entre Antropologia do Direito e Estudos Sociais da Ciência no que tange a produção de provas judiciais por peritos federais. Tendo o laudo pericial e o trabalho dos peritos federais como objeto analítico e lançando-se mão das provocações de John Law e Bruno Latour, parto da hipótese de que a produção da prova é um processo onde uma rede de elementos heterogêneos se constitui enquanto um ator-rede pontualizado. Assim, toma-se o laudo pericial como parte do processo de produção da prova: é somente através da tradução dos atores-redes num laudo que há a possibilidade da utilização do saber científico no tribunal. Os elementos, logo, ganham efeitos de poder à medida que adentram novas redes, agora enquanto um ator pontualizado. Entretanto, resumir a perícia ao laudo descomplexificaria a rede e a reduziria numa representação idealizada. Ao atentar para esse ponto, desloca-se o foco do laudo para o processo que envolve a sua produção, buscando-se a complexificação do trabalho realizado pelos peritos forenses

    Prolongar ou libertar? o papel da tecnologia em cuidados paliativos

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    A medicina do século XX possibilitou, entre outras coisas, uma queda nas taxas de mortalidade neonatal e infantil. O desenvolvimento de recursos voltados à manutenção da vida resultou na introdução do respirador artificial na década de 1960 e, posteriormente, na disseminação de Centros de Terapia Intensiva. A conduta médica do período caracterizou-se por um viés paternalista no sentido de ter grande autonomia sobre o paciente, podendo prolongar excessivamente a vida - e o sofrimento - de um doente em estado terminal. Desde o fim da década de 1960 consolida-se uma abordagem alternativa a este modelo médico: os Cuidados Paliativos (CP), que têm como finalidade propiciar maior qualidade de vida aos pacientes cuja doença não responde mais aos tratamentos curativos. Trata-se de uma intervenção multidisciplinar que não pretende antecipar a morte e tampouco prolongar a vida, os paliativistas procuram controlar os efeitos da dor física e aliviar o sofrimento do paciente, que é preparado para enfrentar a morte com dignidade. A literatura especializada refere-se à medicina paliativa como uma prática de „baixa tecnologia e alto contato humano‟. Tomando esta classificação como ponto de partida, o presente trabalho pretende discutir o papel da tecnologia em CP a partir de um referencial teórico centrado nos estudos sociais da ciência. Para tanto, lanço mão de dados etnográficos produzidos em minha pesquisa de campo em duas unidades do Hospital de Clínicas de Porto Alegre: o Serviço de Medicina da Dor e o Núcleo de Cuidados Paliativos. Os espaços voltados para os CP não dependem de equipamento sofisticado como aqueles encontrados nas CTIs, mas isso não implica em ausência de tecnologia. São utilizados curativos especiais, cápsulas de morfina de liberação prolongada e termômetros digitais com sensores de calor eletrônicos. O objetivo do trabalho é comparar os usos - e efeitos radicais - da tecnologia tomando como exemplo a medicina intensiva e os cuidados paliativos

    Dos homens e dos bois: genética e transmissão de substâncias na pecuária de gado de elite

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    Este trabalho anseia discutir aspectos da bovinocultura de reprodutores, comumente nomeada como pecuária de gado de elite. Tais reses, de elite, são produzidas para funcionarem como modelos genéticos e genealógicos capazes de aprimorar a qualidade dos espécimes comuns, que são encaminhados para o abate. Alguns enunciados, utilizados por veterinários, técnicos e criadores para explicar os méritos fenotípicos e reprodutivos dos animais de elite, também são acionados para justificar o sucesso de pecuaristas deste ramo. No universo da pecuária de elite, homens e bois produzem e trocam saberes. Atributos e substâncias presentes na genética e no sangue de certas famílias, bovinas ou humanas, passíveis de serem transmitidos de geração em geração, seriam capazes de explicar tanto as qualidades físicas, reprodutivas e de temperamento dos touros e vacas de elite, quanto o êxito nos negócios e o conhecimento sobre o gado de alguns pecuaristas. A partir de autores que pensaram domesticação, transmissão de substâncias e parentesco, e das explicações nativas sobre as ideias de sangue e genética, esta comunicação quer descrever intercâmbios e aproximações entre as trajetórias de homens e bois que compõem a elite da pecuária brasileira

    Entre anti-fatos, fatos e não-fatos: a semiótica material da história da Palaeolama (camelidae) Sul Americana

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    O presente artigo se inspira na semiótica material para compreender como ocorre a construção da história natural a partir do estabelecimento de fatos científicos no campo da paleontologia. Para isso são revisitados e re-significados as experiências obtidas pela primeira autora desse artigo durante os dois anos que atuou como pesquisadora em quatro Museus de Ciências Naturais da América do Sul. Em particular, são identificados e analisados a partir da teoria Ator-Rede os pontos de passagem obrigatórios (gestores das coleções, programas de pós-graduação), os atores humanos (orientadores, técnicos de laboratório) e não-humanos (fosseis, recursos financeiros). Nesse contexto são discutidas a biografia de três entidades: um contra-fato (uma construção que visou questionar a veracidade da existência de uma nova espécie de camelídeo afirmada por um grupo rival ao submeter esse fato a um teste de força); um fato (o estabelecimento do teor da dieta dos camelídeos a partir das inscrições obtidas por copólitos); e um não- fato (a incapacidade da pesquisadora de provar a existência de uma nova espécie de camelídeo – transformando uma opinião em um fato – em consequência da atuação de um ponto de passagem obrigatório). A partir dessa análise o artigo argumenta que os fatos científicos no campo da paleontologia são construções sócio-materiais, que dependem da aliança intima com atores não-humanos, como instrumentos de laboratório (inscritores) e fósseis. Porém, esses fatos não surgem de modo natural e neutro a partir da materialidade inerte de fósseis e coprólitos de animais extintos. Ao contrário, o estudo mostra que mesmo em campos pouco politizados a construção de fatos dependem também do alinhamento de interesses políticos, econômicos e pessoais. Sendo assim devemos considerar a história natural como sendo enredamentos temporários, dinâmicos e contingencias, seja do ponto de vista social que material

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