Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Cortando incertezas com certezas em redes científicas de mudanças climáticas em São Paulo
As ciências das mudanças climáticas são constantemente caracterizadas como possuindo um alto grau de incerteza inerente e instransponível – devido ao conhecimento insuficiente a respeito de seus fatores, à não-linearidade do sistema, às constantes simplificações e reduções dos dados e ao fato de que operam com as chamadas dimensões humanas – impossíveis de serem previstas de uma maneira determinística. Entretanto, a hipótese central a ser experimentada neste trabalho é a de que, em conjunto às incertezas, há a produção de algumas certezas, quando consideramos tanto os discursos e práticas presentes nos espaços de produção científica, com consequência na formação e consolidação de redes sociotécnicas. Algumas questões aparentam ter deixado o domínio das controvérsias (matters of concern) e atingido o dos fatos (matters of fact). Partindo da análise do material colhido entre 2012 e 2014 e na leitura de trabalhos de antropologia e história das ciências, argumento que alguns enunciados controversos das ciências das mudanças climáticas foram estabilizados e encerrados em caixas-pretas, não sendo problematizados, e dotaram essas redes do poder de cortar seus limites, mantendo de fora todos aqueles que discordam deles
Linguagem: um olhar antropológico sobre teorias universalistas
A ausência ou presença da linguagem é parâmetro constante nos em debates que buscam conceituar ou delimitar a humanidade como o indicador de uma suposta separação entre humanos e não-humanos. Apresentaremos aqui uma síntese da análise histórico-epstemológica da construção do pensamento moderno dual criticado e discutido tanto por Ingold quanto por Latour. Tal crítica constitui-se no pilar central adotado para a elaboração de parâmetros de análise, sob uma perspectiva antropológica, dos resultados publicados pelos pesquisadores dedicados aos estudos sobre comunicação e linguagem entre humanos e chimpanzés em laboratório no período entre 1990 e 2012 que corresponde ao projeto de pesquisa Linguagem: um olhar antropológico sobre teorias universalistas. A crítica à dualidade é fundamento de uma certa epistemologia que informa uma concepção de conhecimento e, portanto, articula teoria e método. A proposta desse trabalho é traçar uma reflexão que contemple as ideias de Ingold e Latour, a partir da história da antropologia, em relação aos debates com as biociências e os vários desdobramentos das relações entre natureza e cultura. Nosso interesse não é buscar uma verdade absoluta sobre o que separa os seres humanos dos seres não humanos. Propomos um exercício de reflexão sobre os resultados obtidos através das pesquisas sobre linguagem e comunicação em relação a chimpanzés que vivem em laboratório com a finalidade de produzir um conhecimento que contribua com as ciências sociais, e com a antropologia em particular, em relação à revolução, em curso, relativa à definição do que é humano
Controvérsias em torno das noções de dependência e vício em jogos eletrônicos
A proposta consiste em um mapeamento parcial da controvérsia sobre a dependência de videogames, em especial, de uma discussão sobre os seus distintos modos de classificação, métodos de diagnóstico e tratamento. Apoiando-se na teoria do ator-rede de Bruno Latour, busca-se constituir um parlamento das coisas a fim de descrever a variada semântica de noções de dependência e de vício enunciadas e praticadas pelos variados sujeitos envolvidos na controvérsia: os próprios jogadores; pais, cônjuges e demais pessoas próximas a estes jogadores; desenvolvedores de games; cientistas de diversas áreas (psiquiatria, psicoterapia) e teorias acadêmicas. Junto a estes diversos sujeitos, buscar-se-á mapear as práticas investigando a maneira pela qual os diversos saberes científicos sobre a dependência de drogas associam-se a outros elementos, como as dependências comportamentais, que incluem, principalmente, a dependência de jogos de azar e as dependências tecnológicas, as quais se imbricam na construção da ideia do jogador “viciado” em videogames. Passaremos por uma discussão das principais correntes teóricas que abordam o assunto, tal como o modelo cognitivo-comportamental, o modelo neuropsicológico, a teoria da compensação e os fatores situacionais, numa tentativa de desestabilizar os seus pressupostos e ressaltar os elementos colocados em controvérsia entre os diferentes atores. Ao costurar este cruzamento de perspectivas a partir das práticas, discursos e classificações dos sujeitos, buscaremos multiplicar as possibilidades de traçar o rastro destas intensas conexões dos homens com os videogames
De “atividade meio” a “atividade fim”: trabalho de fronteira na busca da “autonomia” da perícia técnico-científica brasileira
Desde o final da década de 1980 a ciência forense vem sofrendo transformações significativas. A introdução da identificação genética (DNA fingerprint) nos tribunais norte-americanos e britânicos desencadeou controvérsias acerca da aceitação de evidências científicas nos processos criminais (DNA wars). No Brasil, a identificação genética adentrou os processos judicias através dos testes de paternidade em meados dos anos 1990. No que se refere aos processos criminais, seu uso é muito mais incipiente. A lei 12.654, que institui os bancos de perfis genéticos para fins criminais, entrou em vigor em 2012. É neste contexto de introdução das tecnologias de identificação genética para fins criminais e de valorização da perícia técnico-científica no Brasil que esta pesquisa busca compreender como são produzidas as provas científicas nos processos criminais e como a tecnologia de governo da justiça criminal se apropria e coproduz conhecimentos e práticas científicas. Na aproximação à rede de elementos heterogêneos agenciada na estabilização das tecnologias de identificação genética no país, percebemos a importância das práticas e esforços de divulgação da atividade pericial. Esta comunicação explora as possibilidades analíticas da noção de trabalho de fronteira (boundary-work) na compreensão dos usos da ciência no contexto de valorização da perícia técnico-científica brasileira e seu papel na consolidação do chamado “novo paradigma da segurança pública”. A partir da etnografia do Seminário Nacional de Criminalística realizado em Porto Alegre, em 2012, descrevo estratégias da “economia da credibilidade” dos peritos para estabelecer fronteiras entre a atividade pericial e a policial. A prática de produção de fronteiras parece emergir para os peritos como importante condição para a perícia técnico-científica deixar de ser uma “atividade meio” do inquérito policial e passar a ser reconhecida em seu próprio fim, isto é, enquanto produção de laudos “autônomos” e “imparciais”
O atleta monitorado: um estudo sobre o passaporte biológico e o avanço dos mecanismos de monitoramento de atletas na luta contra o doping
Este trabalho tem como objetivo apresentar uma análise sobre um mecanismo de monitoramento de atletas profissionais e as controvérsias implicadas a partir da disposição desta ferramenta na luta contra o doping. O Athlete Biological Passport foi desenvolvido pela Agência Mundial Anti-Doping em 2009, o seu princípio fundamental é estabelecer um parâmetro biológico a partir do qual seria possível identificar, longitudinalmente, mudanças no padrão ocasionadas pelo uso de esteróides e outras substâncias proibidas. O passaporte biológico revela indiretamente os efeitos da utilização de doping no corpo do atleta, implicando um deslocamento nas formas de comprovação do uso de doping. A prova passa a ser produzida através da constatação de mudanças no perfil biológico do atleta e não mais através da detecção em exames de urina realizados durante as competições. Passamos do acontecimento do teste em competição para um tempo estriado, no qual o atleta é transformado em perfil biológico monitorado pelo dispositivo que o tem sob constante vigilância. Neste sentido, podemos compreender o passaporte biológico como um mecanismo de controle, que busca controlar e codificar práticas de dopagem heterogêneas ao instaurar um novo meio de visualizar e produzir enunciações sobre o doping. Ao partirmos de um estudo sobre este dispositivo técnico, que em sua viabilização articula concepções sobre o doping com a produção de um sistema contínuo de monitoramento de atletas, a luta antidoping aparece como um discurso abrangente, que em sua positividade produz o doping. Desta forma, ao analisar a instituição e os desdobramentos ocasionados por este dispositivo viso problematizar a produção de representações sobre o corpo e sobre o esporte que emergem das relações de poder instauradas pela auto intitulada luta antidoping e pelo seu novo mecanismo de monitoramento.
Sobre os sentidos sócio-técnicos da interação entre o metilfenidato e o conhecimento neurológico do TDA/H
O objetivo deste trabalho é oferecer uma análise sobre a crescente ênfase dos estudos sobre o Transtorno de Déficit de Atenção/Hipercinético (TDA/H) acerca das causas neurológicas do transtorno, relacionada com o crescimento de tratamentos que envolvem a administração de fármacos. A pesquisa pretende interpretar a lógica pela qual o conhecimento científico das neurociências relaciona-se com a terapia farmacológica, a fim de configurar, um ponto de encontro de diferentes relações sóciotecnicas. O fármaco ou a sua composição química que opera mudanças físicas no cérebro e inscreve maneiras específicas de atuar no corpo pode ser interpretado também como um nexo entre a ciência produzida sobre o cérebro e as empresas farmacêuticas, que investem em pesquisa e na produção de fármacos para o tratamento do TDA/H. A neurociência é um dos ramos científicos que vem causando profundos impactos na psiquiatria brasileira nos anos recentes. Em um levantamento de artigos científicos publicados no SCIELO sobre o TDA/H, entre os anos de 2007 e 2012, constatamos que a maioria dos estudos foi produzida por psiquiatras e neurocientistas que investigam as causas neurológicas do transtorno. Hegemonicamente, tais estudos são financiados por indústrias farmacêuticas e no horizonte de suas discussões é preponderante o debate sobre os efeitos fisiológicos da terapia farmacológica com o metilfenidato para o caso de crianças diagnosticadas pelo transtorno. Sugere-se que a legitimidade neurocientífica da patologia é dotada de sentido pelos atores sociais e instituições que estão ladeados na (con)formação das fronteiras “biológicas” do déficit de atenção. Legitimidade que é interpretada como um fenômeno social e cultural fundamental para a produção, divulgação e prescrição do metilfenidato
Aconselhamento genético: liberdade de escolha e o risco da eugenia individualizada
Pretendemos debater – sobretudo a partir da noção foucaultiana de biopoder e de seus desdobramentos, como a discussão em torno da sociedade de controle – uma especialidade cada vez mais comum na clínica médica: o aconselhamento genético (AG). Trata-se de uma forma, surgida e aprimorada com os avanços tecnocientíficos na área de biologia molecular, de avaliar a ocorrência ou o risco de ocorrência de doenças de causas genéticas em indivíduos específicos, seus familiares e futuros descendentes. A “não-diretividade” é um dos princípios mais ressaltados no exercício contemporâneo do AG: é a partir de dados objetivos e imparciais que cada paciente fará, livremente, “decisões informadas” (como ajustar sua dieta ou ter ou não filhos). Nesse sentido, interessa-nos discutir, mais especificamente, as congruências entre essas práticas de autovigilância e de cuidado com a própria saúde e a racionalidade política da governamentalidade neoliberal, tal como pensada por Foucault. Para isso, parece-nos relevante empreender uma comparação entre esses fenômenos dos dias que correm e as medidas eugênicas de cem anos atrás. Estas eram levadas a cabo por estados que coercitivamente disciplinavam as condutas individuais e regulavam os movimentos populacionais a fim de promover o “melhoramento da raça humana”. O AG, em contrapartida, parece desenrolar-se num contexto em que cabem aos indivíduos a atenção à saúde e a administração dos riscos. Haveria, então, uma desconcentração do poder estatal, enquanto cidadãos conscientes voluntariamente se engajam na prevenção de doenças e na otimização da saúde a partir de serviços disponíveis no mercado, como o AG. Nossa principal estratégia investigativa consiste, até então, em análises textuais e de discurso de material jornalístico sobre o AG publicado no Brasil. Buscamos identificar nos dados coletados, dentre outros elementos, os pontos de continuidade e de ruptura entre os discursos do estado, de empresas e de indivíduos envolvidos com o AG
Tecnologias de Governo, Práticas de Constituição de Sujeitos e Subjetividades no atendimento de adolescentes infratores internados na FASE/RS
O trabalho analisa as tramas burocráticas e as práticas de intervenção jurídico-estatal na gestão da juventude envolvendo adolescentes internados por prática de atos infracionais na Fundação de Atendimento Socioeducativo do estado do Rio Grande do Sul – FASE/RS. O estudo parte da construção da problemática de uma causa pública — na qual o Estado do RS foi condenado judicialmente a construir um espaço de atendimento aos jovens cumprindo medida de internação, identificados com transtornos mentais e/ou usuários de psicofármacos — para problematizar os modos de governo de jovens internados, bem como a construção de uma categoria de jovens considerados “doentes” ou “perigosos” em razão de supostos transtornos psiquiátricos que exigem tratamento diferenciado de saúde. O diálogo com diferentes sujeitos envolvidos nessa questão serve como base a partir da qual são compostos os cenários de parte dessa problemática. Com a inserção em campo, o trabalho visa construir as redes de atores estatais envolvidos em tais processos, sobretudo aqueles envolvidos na discussão jurídica e na elaboração de uma política pública de atendimento de saúde, através de observação participante em reuniões, entrevistas e contatos com os interlocutores de pesquisa. Com base no material coletado, o estudo propõe uma discussão sobre as tecnologias de governo que constituem sujeitos e suas práticas, os quais estão implicadas em equipamentos públicos e políticas públicas, articulando o debate com os estudos sociais da ciência e da antropologia da ciência, a fim de por em evidência os sentidos e práticas imbricadas nas noções de doença, diagnósticos e medicalização que são mobilizadas pelos agentes na constituição de subjetividades e práticas de intervenção estatal sobre a juventude internada, através de narrativas de direitos humanos que estão sendo discursivamente articuladas em políticas da e para a vida. Esses processos, no entanto, não são predeterminados, mas bastante contingentes. Estão implicados em processos de negociação, reconfiguração de práticas e diferentes moralidades, que são promovidas, reconstituídas, mediadas e ignoradas em diferentes níveis, podendo gerar deslocamentos das fronteiras e diferentes formas de legibilidade e ilegibilidade das relações entre os sujeitos envolvidos
Malhas cartográficas técnicas, conhecimentos e cosmopolítica do ato de mapear territórios indígenas
É crescente o uso de mapas como instrumento de reivindicação territorial, de gestão de conflitos e de manejo ambiental no contexto dos territórios indígenas latino-americanos. No Brasil, este processo ganhou força a partir da Constituição Federal de 1988 e da ratificação da Convenção OIT 169, com o reconhecimento das formas plurais de conceber e ocupar o espaço, o que muitos autores chamam de “virada territorial”. Mais recentemente, a ambientalização da ação indigenista proporcionou a incorporação dos territórios indígenas no rol das chamadas áreas protegidas com a proliferação de projetos de desenvolvimento sustentável. O uso de mapas desde então tem se voltado para a gestão ambiental, incorporando os conhecimentos indígenas, os chamados Etnomapas, Etnocartografias ou EtnoSIGs. No entanto, a atual “febre” da técnica dos etnomapeamentos levanta algumas questões relevantes do ponto de vista antropológico: a primeira refere-se à ontologia da cartografia científica e a intercomunicabilidade com outras ontologias, no qual o mapear não necessariamente se constitui como uma forma representacional do espaço, de fragmentação entre a mente e o mundo, entre a natureza e a cultura. Esta questão nos leva ao debate entre universalismo e particularismo do ato de produzir mapas e da concepção paisagística que subjaz esta prática. Coloco em questão os mapas mentais (ou à crítica), tidos como uma prática classificatória que tem como corolário a separação entre o aparato cognitivo-sensorial do mapeador e uma paisagem exterior e independente. Aponto para o ato de mapear como um processo vivo, rizomático, no qual um organismo se engaja perceptivamente e dinamicamente no mundo, habitando-o, de onde partem narrativas e histórias de lugares e relações, constituintes de uma cartografia vivencial ou uma cartografia rizomática. Pretendo tratar das questões acicom uma perspectiva etnográfica em uma experiência cartográfica junto ao povo indígena Pataxó
A produção de modos plurais de profissionalização e de subjetivação em uma divisão de psicologia aplicada
Este trabalho visa trazer à cena os diferentes modos de produção de subjetividades engendrados pelas práticas psicológicas clínicas. Tal investigação tem como base conceitual a Epistemologia Política de Stengers e Despret e a Teoria Ator-Rede de Latour e Law. Para estes autores, o conhecimento científico se produz não como representação da realidade através de sentenças bem formadas, mas como modos de articulação entre pesquisadores e entes pesquisados. De modo geral, estes modos de articulação podem engendrar um efeito de recalcitrância ou docilidade por parte dos entes investigados. De modo mais específico acompanharemos técnicas terapêuticas vindas de orientações distintas na maneira como são performadas na Divisão de Psicologia Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para tal, além da descrição dos artefatos presentes, foram entrevistadas pessoas em início e em término de terapia, estagiários, a equipe de triagem e orientadores