Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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    "Para fazer nossa cultura aparecer": equivocações e reflexividade entre modos de conhecer entre os Kaiowa e a educação escolar

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    Neste texto esboço algumas considerações sobre a produção de conhecimentos e reflexividade entre os Kaiowa a partir de projetos escolares que buscam produzir relações entre os modos de conhecer kaiowa e a escola indígena em Te’ýikue, Caarapó - MS. O objetivo é refletir sobre certas “equivocações” (VIVEIROS DE CASTRO, 2004) que ocorrem nas propostas de ensino diferenciado a partir da extensão das atividades escolares para lugares ditos como de “conhecimento tradicional”. Para tal movimento procuro trazer algumas “cenas etnográficas” sobre o processo de construção de uma ogajekutu – casa de reza conduzida pelos professores kaiowa, que tinha como propósito aproximar os regimes de conhecimentos - dos Kaiowa e dos brancos através da escola como modo de transformação das potências e saberes dos outros na produção das relações sociais contemporâneas. A intenção deste texto é tecer alguns apontamentos a partir dos enunciados kaiowa sobre objetificações e inovações que partem das relações kaiowa referentes ao conceito de cultura – esta tomada como nexo de redes de relações na mediação entre os diferentes modos de existência. Para este fim, levo em consideração a inviabilidade do projeto escolar mencionado devido à falta de interlocução com os xamãs e outros especialistas kaiowa na condução das atividades na ogajekutu, que se posicionaram contrários à participação naquela casa de reza devido a sua vinculação à escola. Como efeitos deste impasse ocorreram muitos debates durante o ano de 2012 entre os professores e os especialistas kaiowa acerca dos modos de transmissão e ensino de certos regimes de conhecimentos na produção de entendimentos de quais seriam as estratégias para mediar como “ensinar” o ore reko - modos de ser e conhecer kaiowa, nos ambientes caracterizados como de brancos – karai reko - especificamente a escola.

    Imagens do Inconsciente: pessoa e visualidade no projeto médico-científico de Nise da Silveira

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    No início do século XX, a psiquiatria brasileira foi caracterizada por controversos métodos de tratamento, tais como a eletroconvulsoterapia e as neurocirurgias. Em 1946, a médica alagoana Nise da Silveira ocupou a linha de frente na crítica a esse modelo de tratamento a partir da criação de um ateliê criativo no antigo Centro Psiquiátrico Nacional, localizado no bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Atividades expressivas como pintura e modelagem foram então acionadas como mecanismos terapêuticos. Este trabalho examina alguns fundamentos do projeto médico-científico de Nise da Silveira a partir de fontes documentais e de uma vivência no grupo de estudos do Museu de Imagens do Inconsciente, atualmente mantido por seus discípulos. Sustenta-se que seu pensamento, delineado em referência a autores como Jung, Spinoza e Artaud, constitui uma recusa aos pressupostos do fisicalismo e do mecanicismo, aproximando-o às ontologias vitalistas e românticas. Por fim, encerra-se com um debate sobre os recentes desdobramentos do fisicalismo na psiquiatria contemporânea, consubstanciados na psicofarmacologia e nos novos manuais estatísticos e diagnósticos de transtornos mentais, configurando uma nova biopolítica.

    Seguindo as trilhas do gado e do arroz na Raposa Serra do Sol: conexões transnacionais no embate entre a pecuária indígena e a rizicultura corporativa

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    A decisão do Supremo Tribunal Federal que garantiu a demarcação contínua da TI Raposa Serra do Sol (RSS) em 2008 imprimiu uma pesada derrota aos arrozeiros que vinham resistindo aos mandados de desintrusão das áreas que ocupavam ilegalmente. Sua posição contava com amplo apoio local e nacional, reunido em torno do já antigo argumento de que deles dependiam a proteção da soberania nacional e a promoção do desenvolvimento do país. De acordo com os defensores dos arrozeiros, as campanhas internacionais promovidas pelo Conselho Indígena de Roraima ao longo dos anos apenas comprovavam a hipótese de que forças estrangeiras representadas por ordens religiosas e ONGs internacionais valiam-se dos índios para saciar a sua cobiça pelas riquezas da nação. Tendo em vista estas acusações sobre a cooperação internacional junto a povos indígenas, ainda frequentemente retomadas por agentes do agronegócio, este trabalho propõe o duplo movimento de descrever tanto as conexões transnacionais dos índios quanto as dos arrozeiros de modo a contrastar os diferentes gerenciamentos tecnológicos que cada um fomentava na RSS: a pecuária extensiva e a rizicultura de alta performance. Adotar a estratégia etnográfica de seguir a trilha do gado e a trilha do arroz permite mostrar o embate de conceitos, saberes e lógicas distintos na ocupação da RSS. De um lado, a trilha do gado na RSS nos leva a relações de cooperação internacional com organizações indígenas sustentadas através da mobilização de conceitos como comunitarismo e injustiça social, fortalecendo um tipo de lógica expressa pelas soltas. De outro lado, a trilha do arroz revela como o investimento de capital na região proliferou organizações movidas por conexões transnacionais que fomentavam a lógica das cercas na ocupação do território com seu maquinário, sementes híbridas, produtos químicos. Trata-se de uma experimentação etnográfica contrastiva que coloca o disseminado argumento desenvolvimentista sob jugo crítico

    Adicção e recuperação em Narcóticos Anônimos: Práticas no processo de transmissão da mensagem

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    A partir do interesse na noção de uma recuperação construída e vivida cotidianamente pela ajuda mútua de grupos de Narcóticos Anônimos/NA, o presente resumo destaca entre as várias práticas no chamado Programa de Recuperação dessa Irmandade uma em particular. Trata-se da transmissão da mensagem, que significa uma divulgação do propósito de uma vida abstêmia de qualquer substância psicoativa, por meio do ingresso na Irmandade (LOECK, 2009). Consiste em levar as palavras de NA, seus princípios e perspectivas a pessoas que podem, em algum momento, se sentirem motivadas a participar desses grupos e se reconhecerem como adictas. Esse serviço na presente pesquisa tem como particularidade o fato de se direcionar para um espaço social institucional o qual o Estado tem a tutela, ou seja, na Penitenciária Feminina chamada Madre Pelletier, localizada na cidade de Porto Alegre/RS. Os termos próprios dos grupos adicção e adicto são compreendidos no presente resumo em uma perspectiva que se apresenta como algo feito na prática e no cotidiano (MOL, 2002). Ou seja, o serviço de transmissão da mensagem, possibilita a formação e a ampliação de grupos (LATOUR, 2005).

    Tecnologías Informáticas en Salud. El caso de la reforma en Chile

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    En las últimas décadas las tecnologías informáticas han sido incorporadas a la práctica médica para los procesos de registros y seguimientos de pacientes. Esto se ha traducido en sistemas informáticos compatibles con redes de salud que deben integrar a diversos actores. Estas tecnologías suele naturalizarse como una necesidad para avanzar hacia mayores niveles de eficiencia en salud, sin embargo, desde la perspectiva de los Estudios Sociales de la Ciencia y Tecnología (CTS) cabe cuestionarse acerca de las contingencias que han llevado a la creación y adopción de tales tecnologías, así como de sus efectos. Por otro lado, en las últimas décadas el sistema de salud chileno ha sufrido una serie de trasformaciones, dentro de las cuales un aspecto clave ha sido el establecimiento de un régimen de Garantías Explicitas en Salud (GES) el que ha sido acompañado de la instalación de una nueva tecnología: El Sistema de Información para la Gestión de Garantías en Salud (SIGGES). El presente trabajo da cuenta del proceso de implementación y uso del SIGGES. Como principales resultados se evidencia que esta tecnología no es neutral, sino que se alinea con la política, poniendo énfasis en la gestión por sobre los procesos de salud-enfermedad. Así mismo genera e invisibiliza nuevas formas de desigualdad en especial en contextos rurales. Se concluye que el SIGGES tiene cierta agencia política, como parte de una red heterogénea de actores, y por lo tanto, no se puede asumir a priori como un avance; se debe atender a qué nuevas realidades genera

    Da Depressão ao Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade: notas sobre a promoção publicitária da Ritalina®

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    Este trabalho consiste em um recorte de minha dissertação de mestrado na qual exploro o tema da medicalização. A pesquisa toma como objeto a promoção do fármaco Metilfenidato (MFN), conhecido pelo nome comercial: Ritalina®. Trata-se de uma droga psicoestimulante atualmente estabelecida como tratamento de primeira linha para o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). A produção médico-científica afirma que o TDAH é uma doença de alta prevalência em crianças em idade escolar, sendo o “distúrbio neurocomportamental” mais comum na infância. Dados epidemiológicos sobre a expansão da prevalência do TDAH e sobre aumento do consumo da Ritalina® somados às complexas relações entre diversos atores em cena (clínicos, pesquisadores, indústria farmacêutica, mídia, consumidores) sugerem que, além da apropriação dos modos de vida das pessoas pela medicina, está sendo estabelecido um vasto mercado corporativo. Este trabalho acompanha a trajetória da Ritalina® a partir da análise de material promocional destinado a profissionais da área médica. As propagandas examinadas foram coletadas em jornais médico-científicos por meio do buscador google e do Portal de Periódicos da Capes (periodicos.capes.gov.br) e compreendem o período de 1956 – quando a Ritalina® passou a ser comercializada nos EUA - até 1971. Os anúncios demonstram que esse psicofármaco foi inicialmente indicado para problemas distintos como depressão, fadiga, letargia e narcolepsia. Ao longo dos anos 1960 a Ritalina® passou a ser reconhecida como medicação psicoestimulante de primeira linha para tratar “crianças hiperativas” e transtornos de aprendizado. Argumento que ao considerarmos propagandas promocionais de fármacos como documentos legítimos é possível contribuir para resgatar aspectos históricos e sociais de determinada droga que de outro modo poderiam passar desapercebidos, uma vez que este tipo de material caracteriza-se como um elemento imprescindível no arsenal persuasivo dessas empresas

    Bancos de Perfis Genéticos Para Fins de Persecução Criminal: Implicações jurídicas à privacidade, intimidade e estigmatização genéticas

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    Com os avanços da genética e a possibilidade de processar o DNA criando o perfil genético, o uso forense da bioinformação aumentou drasticamente. Os bancos de perfis genéticos já não são exclusividade dos países mais desenvolvidos, tanto que ele foi implementado no Brasil pela lei nº 12.654/12, que também estabelece os casos de coleta obrigatória. Ocorre que, apesar de os avanços da área biomédica e da genética humana serem portadores de esperanças, também trazem preocupação diante dos riscos do seu uso inadequado. Assim, o objetivo deste trabalho é analisar, a partir de aspectos técnico-científicos, as repercussões jurídicas individuais, familiares e sociais da utilização de informações genéticas humanas na persecução criminal, especialmente em termos de intimidade e discriminação genéticas. Como resultados parciais, demonstrou-se que parte da doutrina excepciona a necessidade de consentimento para coleta de material para inserção nos Bancos de Perfis Genéticos, porque acredita-se que o perfil genético não traz qualquer informação pessoal, sendo somente capaz de identificação, por estar na região não-codificante do DNA. Essa afirmação, contudo, é baseada no estado atual do conhecimento científico e não considera a possibilidade de uso inadequado das amostras genéticas. Além disso, a possibilidade de identificar uma pessoa que não está no banco de DNA a partir de matches parciais com seus parentes genéticos demonstra que este tipo de informação pode ter implicações familiares e coletivas. Diante disso, o trabalho conclui que toda informação genética humana deve ser tratada cuidadosamente, pois ela é sui generis e pode ser utilizada de forma inadequada, inclusive para estigmatização ou discriminação de natureza genética. Além dos possíveis benefícios, principalmente em termos de segurança pública, o uso de informações genéticas para fins forenses também pode ser uma forma de controle biopolítico, em razão dos seus possíveis reflexos fenotípicos, familiares e sociais, afrontando direitos fundamentais e da personalidade

    Repensando questões de autoridade e autonomia a partir das experiências farmacológicas de portadores de HIV

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    O presente trabalho se propõe a analisar os chamados “clubes de compradores” bem como os grupos extralegais de testes clínicos que surgiram nos Estados Unidos ao longo da década de 1980 e através dos quais pacientes diagnosticados como portadores de HIV obtinham medicamentos não regulamentados dentro do país na tentativa de encontrar terapias mais eficazes e menos nocivas do que aquelas proporcionadas pelo uso do AZT (primeira droga a ser usada no tratamento da síndrome). A partir de perspectivas da Antropologia do Corpo e Saúde e dos Estudos Sociais da Ciência e me valendo de uma literatura especializada, busco reconstituir o fenômeno destes experimentos pensando as implicações, significados e dilemas que emergem nestes momentos em que grupos de pessoas assumem para si a responsabilidade de testar drogas e terapias em seus próprios corpos atuando a margem das instituições reguladoras do Estado. Sendo assim, o fio condutor desta reflexão será justamente a questão da tensão entre a autonomia do sujeito e os aparatos institucionais que regem e conduzem a produção médico-científica. Tentarei, portanto, levantar questões e contribuir para o debate sobre o que é produzido por esta tensão e sobre as evidentes dificuldades que emergem quando o sujeito reclama o lugar de autoridade máxima sobre o que é mais ou menos arriscado em se tratando de questões de saúde que podem resultar efetivamente em sua sobrevivência ou morte. Mais que isso, procuro refletir sobre como estas reivindicações desafiam e transformam certas hegemonias e autoridades constituídas socialmente sobre quem pode “praticar” ciência, e sobre como esta deve ou não ser produzida.

    Estudos pós-coloniais da ciência e tecnologia: desafios e possibilidades

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    A apresentação abordará as possibilidades e desafios do campo interdisciplinar emergente que tem sido chamado, entre outros, de estudos pós-coloniais da ciência e tecnologia. Após fazer um apanhado das principais problematizações e deslocamentos que alguns pesquisadores trabalhando nessa interface pretendem realizar com relação a paradigmas clássicos nos science and technology studies, discutirei as dificuldades encontradas nas tentativas de inserção da temática pós-colonial na antropologia da tecno-ciência e áreas afins. Apontarei, nesse sentido, duas assimetrias persistentes, que a meu ver precisam ser melhor trabalhadas no aprofundamento desse diálogo interdisciplinar: uma assimetria teórica entre os dois lados da interface (ou seja, um desequilíbrio que tende a pender para um dos lados, STS ou estudos pós-coloniais), e uma assimetria entre teoria e campo (ou seja, entre a intenção política-provincializante da inflexão pós-colonial e o comprometimento teórico-universalizante dos STS, o que se reflete no grau diferenciado com que os pesquisadores têm incorporado as preocupações dos seus “nativos” na sua produção de conhecimento acadêmico)

    Lei João W. Nery e Identidade de gênero: as Materialidades do Estado e seus contornos na (Inter)relação entre sexo-gênero-sexualidade

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    Conhecido como Lei João W. Nery, o Projeto de Lei (PL) 5.002/2013 dispõe sobre a identidade de gênero e afirma o direito ao seu reconhecimento, modificando os “instrumentos que creditem sua identidade pessoal a respeito dos prenomes, da imagem e do sexo com que é registrada neles” – sendo essas mudanças gratuitas. Neste trabalho, estamos preocupados em seguir os caminhos em que o “material” é constituído enquanto objeto-natural, buscando saber como são produzidos efeitos de verdade que instituem dois “corpos” distintos/complementares enquanto produtos de uma natureza fixa/verificável dentro do PL. Com isso, além de apontar para tecnologias de gênero operando na produção das diferenças sexuais, gostaríamos de colocar a “materialidade” do “sexo” na mesa de análise procurando fazer emergir o aspecto nada nítido de seus contornos. Propomos analisar a materialidade da identidade de gênero partindo do PL em dois pontos: 1) a auto-identificação da identidade de gênero, a partir de uma relação com a interioridade dos sujeitos, gerada pelo deslocamento do poder de dizer/definir o sexo, do especialista para o individuo; e 2) a não necessidade de adequação entre o binômio gênero-sexo (não necessidade de cirurgia de mudança de sexo), rompendo a obrigatoriedade da relação entre sexo-gênero-sexualidade.

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