Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
Not a member yet
2307 research outputs found
Sort by
Mariposas, ontologias alienígenas e seus quefazeres terrestres
Até pouco tempo, a literatura antropológica relativa ao tema da ufologia, assim como dos coletivos ufológicos, esteve quase que integralmente dominada por trabalhos que se valem do binômio crença e representação. O comprometimento com estes dispositivos conduziu estas pesquisas ou à tentativas de interpretar a disciplina segundo o registro de uma “ciência” agonizante, ou segundo uma “mecânica” que repousaria subjacente às práticas dos ufólogos – atenta, portanto, ao que elas dissimulam. Mais recentemente, Pierre Lagrange, inspirado nos trabalhos de Bruno Latour, abriu uma possibilidade mais arejada para a “antropologia da ufologia” ao endereçar a seguinte questão: “o que se passa em um affair ufológico?”. Neste artigo, produto de minha etnografia junto aos ufólogos brasileiros, retomo a pista inaugurada pelo pesquisador francês e me debruço sobre os meandros de uma contenda no bojo deste coletivo. A disputa concerne à questão de saber se um registro de imagem em uma câmera de segurança no interior do Rio de Janeiro consistia na gravação do pouso de uma nave extraterrestre ou se tratava da imagem de uma mariposa. O debate em torno deste evento articula discussões sobre os processos levados à cabo para a identificação de imagens pelos ufólogos, suas definições pragmáticas daquilo que conta como uma evidência e, sobretudo, seus modos de operação em campo. Além de figurar como uma contribuição à antropologia das “ditas” paraciências, o presente texto também consiste em um esforço no sentido de pensar como os UFOs, em sua parcial visibilidade, engendram as socialidades ufológicas.
Efeitos Ontológicos ao Feitio Antropológico
Este artigo advém de uma pesquisa etnográfica realizada em uma Oficina de Criatividade no Hospital Psiquiátrico São Pedro, localizado na cidade de Porto Alegre. A capacidade de realizar uma etnografia com as pessoas em situação de pacientes psiquiátricos parece um desafio ao enfrentar problemas que estão na base da própria consolidação da disciplina antropológica e dos pressupostos filosóficos que a constituíram, pois se refere a problemas que envolvem a definição de identidade, de natureza, de cultura e de representação, explorando limites que desassossegam a própria posição de juízo ontológico. Aqueles que estão no hospital psiquiátrico na situação de pacientes seriam diferentes demais para que a disciplina que se propõe relacionar-se com a diferença possa levá-los a sério como objeto e, simultaneamente, sujeitos de pesquisa? Inicio o artigo explicitando algumas questões teóricas que me fizeram optar por recusar tomar as categorias psiquiátricas a priori como categorias analíticas satisfatórias para a demarcação de alteridade e priorizo a descrição etnográfica a partir de uma participante da Oficina de Criatividade para contribuir na qualificação do debate acerca da multiplicidade ontológica. Com este fim, destaco processos de produção de subjetivação a partir do hospital psiquiátrico, os quais são desconsiderados quando maiorias morais assumem, através de um conhecimento especializado, a capacidade de definição da realidade
Magia ao longo da Ciência Renascentista e Moderna
Magia e ciência possuem relações históricas e conceituais que foram obnubiladas pelo Iluminismo. A partir do que Deleuze e Guattari entendem como “rizoma” e Tim Ingold como “obviação”, mostraremos como os cientistas renascentistas - Paracelso em sua medicina, Giordano Bruno enquanto frade e místico conceituador herege do universo infinito, Kepler como astrônomo e astrólogo lutando contra acusação de bruxaria feita à sua mãe e finalmente, Isaac Newton como filósofo natural, teólogo e alquimista que unificou a física no século XVII - desenvolveram suas obras fundamentais que moldaram nossa visão moderna de ciência a partir do Hermetismo. Em seguida, mostraremos como a ciência contemporânea permanece sob influências herméticas indiretas através da física moderna, sobretudo a Mecânica Quântica e seus colapso de onda e vazio quântico e a Teoria dos Caos, especificamente os fractais e o atrator estranho, mas também na Cosmologia, especificamente com a hipótese do Universo Eterno e a Teoria das Supercordas como teoria de unificação. Estabelecida as relações entre Hermetismo e física moderna, explicaremos como tais relações produzem um campo híbrido simultaneamente ontológico e epistemológico, dinâmico e permeável que nós chamaremos de Vortexologia, um transaber, ou seja, a transdisciplinaridade aplicada à vida, em que a obviação se tornará mais evidente
Os limites da política da vida e da morte: As narrativas sobre desastres ambientais
Os riscos são “variáveis projetadas” através de um sistema de confiança em peritos especializados em verificar, prever, medir, estimar e informar possibilidades de desastres. A partir de narrativas e práticas de peritos cientistas e mediadores burocráticos, pretendo refletir sobre as articulações entre distintas dimensões éticas produzidas nos discursos e nas ações das entidades políticas e científicas envolvidas na prevenção dos desastres ambientais. Revelando, assim os encontros e as controvérsias no que diz respeito a noções, moralidades e valores quanto a ideologia e a prática da prevenção e da proteção de eventos críticos
Tartarugas marinhas e mudanças climáticas: uma não-questão para tartarugueiros brasileiros
O objetivo da proposta é pensar como a questão das mudanças climáticas tem sido pouco pensada pelos estudiosos e conservacionistas que trabalham com as tartarugas marinhas no Espírito Santo, o que se caracteriza como uma especificidade bem demarcada, pois em outros países não se verifica tal obscurecimento do papel de mudanças climáticas sobre as várias espécies de tartaruga marinha encontradas no mundo. As justificativas comumente alegadas para isso seriam: (1) os argumentos da capacidade de indivíduos da espécie, mais especificamente, as fêmeas, terem a possibilidade de enterrar seus ovos, nas praias, com maior ou menor profundidade, através do ato de escavar a areia (podendo então influenciar o nascimento de filhotes machos ou fêmeas, pois a profundidade altera a temperatura dos ninhos e essa, por sua vez, influencia a razão de sexo); (2) o fato de se tratar de animais cujos registros históricos apontam o surgimento de seus predecessores em mais de cem milhões de anos atrás, o que denotaria sua capacidade de resistir a diversas mudanças ambientais.A ideia de obscurecimento foi tomada de empréstimo de Roy Wagner (2010), no livro A invenção da Cultura. Quanto à denominação "tartarugueiro" foi ouvida em entrevistas realizadas com pesquisadores "mais acadêmicos", ou seja, ligados a universidades, e também junto a funcionários do Projeto Tartarugas Marinhas (TAMAR), para denominar quem trabalhasse com a espécie em diferentes instâncias. O material utilizado na análise será composto por entrevistas realizadas junto a vários desses tartarugueiros, observação direta de atividades do TAMAR realizadas em Regência Augusta e Vitória (ES), bem como análise de fontes secundárias e material bibliográfico.
A criação do FNDCT: autonomia e articulação da ciência na política de financiamento à pesquisa
Esse trabalho consiste numa breve descrição da história da criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, considerado ainda hoje a principal verba de financiamento à pesquisa científica no Brasil. Criado em 1969, o FNDCT integrou uma série de ações do governo para a área da C&T, como a criação do Funtec – Fundo Tecnológico (1963), e da Finep (1967), a Reforma Universitária (1968) etc. Essas medidas, por sua vez, fizeram parte de uma profunda reformulação da política econômica, cujo objetivo era promover o que os economistas chamam de desenvolvimento tecnológico nos setores produtivos. Não por acaso, algumas dessas medidas foram adotadas em planos ou agências de política econômica, como o Plano Estratégico de Desenvolvimento, de 1967, no qual foi concebida a criação do FNDCT; o então BNDE, onde foi alocado o Funtec; e a própria Finep, que nasceu como agência de consultoria às empresas privadas. Não obstante, os anos 1960 e 1970 são considerados entre os mais importantes da história da ciência no Brasil, pois testemunharam o nascimento de um arcabouço institucional e financeiro que consolidou o setor no país, garantindo-lhe certa perenidade nos anos seguintes, além de considerável autonomia política e financeira, o que inclusive se tornou alvo de severas críticas entre aqueles que entendem que essa autonomia impediu que a ciência desempenhasse devidamente o seu indispensável papel econômico. Isso nos permite dizer que os debates, tão caros à antropologia da ciência, acerca dos modos de articulação do conhecimento científico e das complexas redes através das quais essas articulações se desenham estão na pauta da política de C&T no Brasil há décadas. Diante disso, o propósito desse trabalho é incorporar a perspectiva antropológica sobre a ciência na discussão sobre financiamento à pesquisa no Brasil, tomando como referência o período de criação do FNDCT
O estatuto do medicamento e o medicamento como estatuto: notas a partir de uma etnografia da regulamentação sanitária
Os medicamentos são objetos que somente a partir da década de 1980 passaram a ser sistematicamente estudados na antropologia. Desde então, abordagens diversas a respeito de seus significados, contextos, controvérsias, ambientes, usos e efeitos vêm impulsionando um amplo e diversificado conjunto de etnografias. Tendo como norte as abordagens sob o ponto de vista sócio-técnico, este trabalho discute o estatuto dos medicamentos a partir de etnografia realizada em 2011, que teve como enfoque o debate sanitário a respeito da regulamentação de substâncias para tratamento da obesidade. Analisando como os efeitos da anfepramona, femproprex, mazindol e sibutramina foram avaliados controversamente ao longo de múltiplas discussões, até que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa decidisse por manter somente esta última no mercado brasileiro, argumento que as substâncias, na verdade, podem assumir diferentes estatutos, sendo o medicamentoso apenas um deles. Tal categorização sócio-técnica possibilita refletir, por um lado, em que medida os medicamentos são um estatuto que os fármacos podem assumir a depender das redes de associações com as quais se engaja e, por outro, em que medida o diacrítico terapêutico que necessariamente marcou os efeitos da substância que se manteve no Brasil é mediado por um controle técnico das condutas dos diversos atores que compõem a rede que garante esse efeito específico. Terapêutico, nesse sentido, é uma categoria moral que aponta, necessária e simultaneamente, para a gestão sanitária de atores humanos e não-humanos e dos efeitos das substâncias, cuja finalidade se busca especificar e constranger para fins de tratamento de doenças
A ciência pode ser útil à política? Reflexões sobre percepções de ciência entre gestores públicos
O presente artigo parte dos dados gerados por pesquisa junto a gestores públicos com o objetivo de entender como se processa o recurso ao conhecimento científico na formulação de políticas. Partiu-se, inicialmente, da abordagem da Evidence-Based Policy (EBP) que pressupõe que o acesso ao conhecimento científico, por parte de gestores públicos, amplia o leque de suas opções contribuindo, assim, para aumentar a eficácia das políticas. A dinâmica da pesquisa levou à crítica a essa abordagem e à opção pelo idioma da coprodução, segundo o qual as formas de fazer política (no sentido de policy) em um determinado contexto sócio-histórico estão ligadas às formas de ordenamento preponderantemente legítimas nesse contexto (Jasanoff, 2004). No caso da sociedade contemporânea, a ciência se sobressai como uma das formas de discurso mais valorizadas como fonte de legitimidade. Procuramos demonstrar que a forma de pensar do conhecimento científico perpassa as formas de atuação dos gestores entrevistados conformando campos que se interpenetram mutuamente, se coproduzem. Por outro lado, foi possível reconhecer nas entrevistas a reiterada menção a diferenças que operam uma distinção entre os modos de ordenamento da ciência e da política, atuando por meio de lógicas amplamente diferenciadas. A partir do jogo entre coprodução e reforço das diferenças entre os modos de ordenamento, procuramos entender as percepções dos gestores sobre ciência e verificar até que ponto elas interferem no modo como se dá a utilização do conhecimento científico na formulação de políticas públicas
Vigilância e visibilidade nas manifestações de 2013
O Rio de Janeiro, como inúmeras cidades no mundo, vem se tornando uma cidade intensamente monitorada, principalmente após ser eleita para sediar grandes eventos, como a Copa de Mundo. O uso de dispositivos de vigilância como política de segurança pública não é uma novidade, mas tem ganhado novos contornos. Redes sociais, como o Facebook, têm se tornado objeto de monitoramento dos indivíduos e nas manifestações de 2013 cumpriram o papel de mobilização para as ruas, colocando o governo em alerta. Compartilhamos da proposta da Teoria Ator-Rede (TAR) que considera a realidade social como uma rede composta de atores humanos e não humanos em constante construção. Os objetos participam conosco da construção do mundo, afetando nossa forma de agir e transformando nossos modos de ser. Pretendemos fazer uma reflexão sobre as controvérsias geradas pelo uso de máscaras nas manifestações, apostando que têm algo a nos dizer sobre as diversas dinâmicas de vigilância e visibilidade que atravessam nosso cotidiano atualmente. Partiremos de algumas entrevistas realizadas como parte de uma pesquisa de doutorado e da análise de páginas na Internet e Facebook de dois coletivos que se destacaram pelo uso das máscaras: o Anonymous e os Black Blocs. A princípio três sentidos podem ser enumerados: esconder o próprio rosto, dificultando o trabalho de identificação pelas autoridades e protegendo os manifestantes da repressão policial; criar uma identidade coletiva, diluindo o protagonismo individual numa massa; e, sentir-se mais à vontade para agir. Resumidamente, podemos dizer que as máscaras escondem, protegem, revelam e potencializam rostos, indivíduos, ideias e ações. Num mundo que se constrói cada vez mais vigiado, esconder-se não se apresenta como a única resistência a uma visibilidade que se impõe. A possibilidade de construir uma imagem e poder operar, escolhendo o que deve ser visto, também encontra seus caminhos de resistência
O tempo é outro: notas sobre a experiência do uso de aparelhos de oxigênio
Este trabalho é fruto de uma pesquisa produzida entre pessoas biomedicamente diagnosticadas com Doenças Pulmonares Obstrutivas Crônicas (DPOC), que se encontravam submetidas ao tratamento de oxigenoterapia, isto é, utilizavam cilindros de oxigênio para auxiliar seu movimento de respiração. O intuito deste trabalho é evidenciar como a concepção de tempo, informada pela noção de espaço, parecia ganhar novas nuances no cotidiano destas pessoas. A vida passava a ser permeada por diversos cálculos envolvendo, principalmente, dois elementos: o oxigênio disponibilizado pelos equipamentos de oxigênio e o oxigênio presente no meio ambiente. Esta dimensão do cálculo favorecia o desenvolvimento de um conjunto de conhecimentos aprofundados a partir da relação com a doença. Esta expertise construída perpassava a experiência de adoecimento, a vinculação à máquina e a necessidade de inventar novas formas de sobreviver, dimensão especialmente destacada em suas narrativas