Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Aula temática de Geografia e espaço virtual com um revisionismo de conteúdos ensinados, na primeira metade do ano letivo de 2023, no 6º ano do ensino fundamental II
O ensino de geografia nos tempos atuais, com o avanço das tecnologias, necessita cada vez mais de ferramentas que auxiliem a prender a atenção dos alunos e seu interesse nos conteúdos. Trazer os conteúdos para o cotidiano das experiências vivenciadas pelos alunos tende a ser assim uma opção interessante para chegar a esse objetivo em que o uso das tecnologias, como o celular e computador com acesso a internet, podem servir como ferramenta para ensino e aprendizagem. A partir disso, a prática apresentada nesse trabalho tem como proposta mostrar a construção, os relatos e resultados de uma aula que foi dada com a temática do espaço virtual e suas representações geográficas. Por fim, através do uso de sites, jogos e filmes, em que os alunos já tenham tido contato anteriormente, a ideia da prática é fazer com que os alunos se interessem pelo conteúdo e dialoguem sobre as experiências com os conceitos observados no cotidiano
O uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICS) no contexto do ensino remoto emergencial: reflexões da experiência de estágio durante a pandemia de COVID-19
O contexto atual, marcado pelo aumento da velocidade dos fluxos informacionais trouxe consigo discussões acerca das tecnologias de informação e comunicação presentes no ensino. Nesse sentido, as práticas educativas passaram a ser mediadas também por um ambiente tecnológico digital. No âmbito do ensino remoto emergencial, a apropriação dessas tecnologias pôde ser observada, visto que o processo de ensino e aprendizagem passou a ocorrer de maneira remota e por plataformas digitais com o uso de dispositivos móveis como notebooks e smartphones. Essas experiências trouxeram desafios os quais perpassaram desde a readequação das escolas ao contexto digital, a necessidade de se compreender que no contexto vivido emergiram novas formas de leitura do mundo e as reflexões que tangenciam novas possibilidade de apropriação das TICs. As observações serviram como base para a fundamentação da vivência de estágio ocorrida no primeiro semestre de 2021, a qual buscou por meio de reflexões e diálogos que envolveram as formas de apropriação das TICs, discorrer sobre as experiências do estágio 1 de licenciatura em geografia.
A benzeção um ato de arrumação nas socialidades de Laranjal e Cambambi-MT
A pesquisa é um estudo sobre a benzeção pensada como ato de “arrumação”, categoria êmica que se refere a ação de arrumar o corpo contra os infortúnios e doenças nas socialidades negras de Laranjal e Morro do Cambambi que se identificam como “comunidades quilombolas”. Os respectivos coletivos estão situados no estado de Mato Grosso, o primeiro no munícipio de Poconé e o segundo em Chapada dos Guimarães. Até o momento foi possível especular o ato de “arrumação” em plena relação com a casa, entendida não apenas como uma construção física porque se estende para o quintal e para tudo que pode ser uma referência de espacialidade. Cada espaço da casa está associado a uma série de práticas de benzeção e é onde circulam as fofocas, as risadas, as comidas e os atos de “arrumação”. As socialidades não podem ser concebidas apenas pela perspectiva identitária, mas, sobretudo, como modos de fabricação de mundos. É no encontro com as visitas, os “chegados” e as irmandades que o corpo é fabricado para além do biológico, mas como resultado de agenciamentos sociais e espirituais, permitindo pensar sobre noções de corporalidade, tais como a “mãe do corpo”, o “companheiro da criança”, o umbigo e a relação entre “corpo aberto e corpo fechado”. A etnografia visa a descrição da eficácia da benzeção na perspectiva destas socialidades e como esta prática delineia territórios existenciais
Diálogos com a terra: Um estudo de caso no sertão de Pernambuco
Este texto é baseado em um estudo de caso realizado com uma família que vive em um sítio no sertão de Pernambuco e tem implementado práticas agroecológicas no local há uma década. A pesquisa de campo foi conduzida entre 2019 e 2021, utilizando observação participante e entrevistas não estruturadas com os membros da família: Vicente, Cícera e seus quatro filhos. O casal relata que, durante a aquisição da propriedade, vizinhos e familiares se opunham, argumentando que aquela terra seria improdutiva por ser excessivamente seca. Assim, eles se viram compelidos a buscar estratégias que pudessem transformar aquele ambiente. Com esse cenário, o presente trabalho objetiva discutir mudanças na relação entre seres humanos e terra durante a transição do cultivo convencional para o manejo de base agroecológica no sertão. A partir dos relatos, percebe-se que o manejo agroecológico exige mais do que alterações nas práticas de cultivo; também envolve uma mudança na visão sobre a terra, que passa a ser compreendida como um ser vivo, dinâmico e dialogante com o espaço. Aqueles humanos veem sua missão de vida no cuidar da terra, e, por sua vez, a terra também cuidaria deles. Alguns obstáculos podem surgir nessa relação, como a diferença na percepção que humanos e terra têm sobre o tempo. No entanto, o sucesso estaria na virada de perspectiva de uma visão utilitarista sobre a terra, para uma concepção de construção de vida compartilhada entre múltiplos seres, entre eles, humanos e terra
Ecos, tons e megapixels do modo Maíra: Os Tentehar-Guajajara na guerra da comunicação no contexto da T.I Cana Brava
O povo Tentehar que vive na Terra Indígena Cana Brava, no centro-sul maranhense, enfrenta desafios diante das pressões da colonização sobre suas terras ancestrais por séculos, estabelecendo na região conflitos de grandes proporções. Diante das presenças de missões religiosas e povoados intrusivos, segue a luta na defesa da terra e dos seus modos de vida. São conflitos interétnicos intensificados com o asfaltamento da rodovia BR-226 que corta a Cana Brava, desde o final dos anos 90, trazendo impactos socioambientais irreversíveis e não mitigados pela inconclusão do licenciamento ambiental. Através do modo Maíra e do regime de aproximações controladas, um modo de resistência política de fundo cosmológico e ontológico enunciado por seus heróis criadores, traçam estratégias de manipulação das alteridades relacionadas aos impactos dessa obra, entre os quais, está a deterioração da sua identidade com a produção exógena da imagem de “índios da BR: donos e promotores do caos na rodovia”. Na guerra da comunicação, constituem um complexo com recursos analógicos e digitais, produzindo contraimagens e discursos instrumentalizando a resistência diante das ameaças nas relações interétnicas. Assim, no modo Maíra, apresentam-se dinâmicas das agências tentehar diante das imagens de “índio” na região, tendo como pano de fundo, duas reportagens televisivas
Contracartografia às margens das águas urbanas: Desmistificar o discurso técnico para pensar junto com o fazer
A bacia do córrego do Capão está situada na periferia de Belo Horizonte, na divisa com o município de Ribeirão das Neves e a montante da bacia do ribeirão Isidora. A bacia do Isidora tem sido alvo de estudos ambientais da prefeitura do município. Os resultados dos estudos demonstraram que a área tem previsões de altos índices de inundação, ondas de calor e deslizamentos para o ano de 2030. Por sua vez, o córrego do Capão está, em grande parte, em leito natural e apresenta oportunidade de uma reconciliação entre a água e o urbano2. Os ribeirinhos, há dez anos vêm se organizando em um grupo que através do trabalho cotidiano de cuidado buscam reconstruir a mata ciliar e outras espacialidades. Por outro lado, o município tem planos de grandes obras para a bacia. No entanto, para realizar sua proposta de grandes intervenções com concreto, a prefeitura precisa legitimar a participação dos moradores. Sendo assim, apresentou o estudo com previsões catastróficas e uma solução: reservatórios concretados no fundo do vale. Descontentes, os ribeirinhos propuseram um grupo de trabalho (GT) para estudar alternativas à grande obra. Como estratégia de diálogo entre saberes, estamos3 desenvolvendo um site que, entre outras coisas, abriga uma ferramenta de cartografia que sobrepõem intenções espaciais e ecológicas. A cartografia visa explicitar contradições mascaradas pelo discurso técnico e assim criar frestas para outros modos de produzir e gerir o espaço da bacia hidrográfica do Capão
O barroco dentro da universidade: Espaço e criação da memória comunitária no Arruado do Engenho Velho a partir das relações institucionais com o Campus Recife da UFPE
A presente reflexão visa apresentar os processos de constituição espacial da memória dos moradores da comunidade do Arruado do Engenho Velho, a partir das relações institucionais com o Campus Recife da Universidade Federal de Pernambuco, local onde está inserida e cercada pelas construções dos centros de ensino e pesquisa e demais equipamentos, nas imediações do Sítio Arqueológico do Engenho do Meio, reconhecido pelo IPHAN em 1996. O objeto a ser analisado consiste nas formas criativas e contrastivas, ou mnemotropismos nos termos de Joël Candau (2002), em que a comunidade promove a memória de sua ocupação espacial, principalmente em interação com sujeitos acadêmicos, arquivos, documentos oficiais e como forma de afirmar seus hábitos rurais de uma população suburbana descendente de trabalhadores da plantation canavieira, que testemunhou o crescimento da metrópole (o Recife) englobando seus quintais com um campus universitário. Portanto, está previsto um exame i) das dinâmicas com que a comunidade do Arruado, seus relatos e as memórias de vida, incorporam a história oficial, os arquivos, principalmente a partir da interlocução de Seu Lula Eurico, e acompanham as ações de movimentos sociais (Movimento de Cultura Popular, Movimento Cultural da Várzea) e acadêmicos (projetos de extensão); ii) das diferentes lógicas e possibilidades históricas de ocupação espacial do campus Recife, a partir da investigação de um circuito de produção agrícola instalado na área e a consequente diáspora dos posseiros; iii) das leituras concorrentes ou complementares dos modernismos arquitetônico, regionalista e o articulado pelo ISEB e Movimento de Cultura Popular que produziram a atual configuração do campus Recife da UFPE, a partir do final da década de 40
Ocupando os dois Primeiros ODS com as estradas, ensinamentos e vivências da Tabanka Blom da atual Guiné-Bissau
Este artigo propõe ocupar os dois primeiros ODS com a voz da tabanka Blom, interpelando suas soluções e propostas a partir da sua realidade. A oportunidade de quem foi lida como pobre e/ou miserável, quem foi atribuída a fome do mundo, de descrever sua condição através das próprias lentes e de seus fatores determinantes. A etnografia e djumbai (convocação do coração para entrar na roda de conversa de forma aleatória à medida que se sente tocada) entram como ferramentas metodológicas. Ao abordar ODS1, a pobreza aparece como koitadesa, “para nós: saber fazer algo e não ter instrumento de uso, isso é koitadesa". Ressaltando que o djumbai com interlocutoras e interlocutores foi na língua kriol e pepel, a pobreza não existe nessas línguas. Quanto a ODS2, a fome foi estranhada, "aqui dividimos tudo que tivermos com a vizinhança". Acrescentando “aqui quando uma pessoa não tem o que comer, outra casa tira a comida ou arroz e manda para a casa que não tem, ninguém nunca fica sem ter o que comer, não partilhar alimento é visto com maus olhos aqui, se o meu filho mesmo come em todas as casas aqui, por quê que eu não posso dar comida para o meu vizinho?” Sobre as frutas, "apenas comemos e o resto fica para os animais e a terra”. A tabanka é uma das possibilidades de vetor de cura e da restauração desse nosso mundo caótico. Também é contribuição valiosa para a construção de possíveis caminhos aptos a pensar o desenvolvimento rural sustentável de acordo com perspectivas diversas de saúde, abundância, prosperidades não capitalistas, bem viver, adaptáveis a cada realidade e tendo direito de serem respeitadas independentemente do lugar onde estariam sendo produzidas
Xiapa Museu xerexewe: Construindo um museu, trocando saberes e protegendo o território do Povo Apyãwa
O Povo Apyãwa, que vive na Terra Indígena Urubu Branco, MT, orgulha-se de sua história, nas últimas cinco décadas, de múltiplas retomadas. Da recuperação demográfica à reativação do ciclo anual de festas, passando pelo fortalecimento da língua e a elaboração de um projeto próprio e potente de Educação Escolar, muitas têm sido suas conquistas após o retorno à região de habitação dos antepassados e a refundação da aldeia de Tapi’itawa. Animado pela presença das famílias apyãwa, ativado por meio dos cantos e da visitação durante as festas, portando materiais e objetos dos ancestrais que ali viveram, o território, contudo, não se vê livre de intrusões por grupos maira (não indígenas) de madeireiros ou do agronegócio, nem da ameaça constante de queimadas que não só atingem as florestas, mas atacam a saúde das pessoas nas aldeias. Se o território compreende uma “conexão de saberes”, como tais saberes podem ser ativados para se contrapor ao perigo iminente da destruição? Neste trabalho, focalizamos a elaboração em curso do Museu Apyãwa, um novo sujeito na composição do território, que vem sendo gestado a partir de práticas colaborativas de conhecimento. Interessa-nos refletir sobre essas práticas no âmbito da colaboração em antropologia, sobre as potencialidades do conhecimento que o próprio museu instrumentaliza / instrumentalizará em conexão com a proteção do território e da vida do Povo Apyãwa
Flecha de ferro não mata anta. Materialidades vegetais, animais e metálicas nas armas Karitiana
Um arraigado senso comum sobre o que usualmente se denomina cultura material entre povos indígenas alcançados pela conquista costuma sugerir uma rápida substituição de vários objetos nativos produzidos a partir de matérias-primas de origem animal, vegetal ou mineral por instrumentos feitos de metal. Essa substituição geralmente se explica pela eficácia – o metal seria tecnicamente superior, mais durável, resistente e eficiente do que outros materiais na execução das mesmas tarefas ou de tarefas análogas – e pela abundância – o metal, em suas variadas formas, barato e produzido em massa pela civilização ocidental, levaria os artefatos indígenas à obsolescência, dada sua ubiquidade, preço baixo e acesso relativamente fácil. Não obstante, pesquisas dedicadas aos detalhes desses processos de “substituição” de objetos indígenas demonstram que podem ser mais complexos e menos unidirecionais do que o cenário em que o metal se impõe ou é imposto. A partir das flechas Karitiana no norte de Rondônia, pretendo discutir os determinantes que parecem estar envolvidos nas escolhas entre o metal, de um lado, e matérias-primas locais, como ossos ou bambu, de outro, para a fabricação de armas. Meus dados sugerem que diferentes materiais usados na confecção das pontas de flechas funcionam de modos distintos no abate das presas de caça. Nesse sentido, mais do que substituir prontamente as matérias-primas tradicionalmente empregadas, o metal torna-se mais um elemento no interior do conjunto disponível para seleção e uso basedos em critérios variados, nos quais a avaliação da eficácia e da abundância seguem outras diretrizes