Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Ativismo de dados, perícia e litígio estratégico: O rastro das mortes e a produção dos números de letalidade policial no Rio de Janeiro
O presente artigo visa discutir de que forma o ativismo de dados de letalidade policial impacta na repressão e no controle social do estado perpetrado pelas forças da ordem. Moradores de favelas, defensores de direitos humanos e líderes comunitários se organizam em torno de dispositivos, tais como as redes de comunicação comunitária, com o objetivo de questionar as formas adotadas pela denominada “política de segurança pública” do Estado do Rio de Janeiro, produzindo evidências de crimes perpetrados pela ordem e construindo dados de letalidade policial que o Estado não produz. De modo a contribuir para a discussão, este trabalho se centrará em como as redes produzem tais dados e de que forma essas informações impactam no litígio estratégico e nas perícias policiais, tomando como ponto de partida os casos da Ação Civil Pública (ACP) da Maré e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas. Tendo em vista a legitimidade do Estado na relação probatória do rastro das mortes e na produção de verdade jurídica por meio da fé-pública, a necessidade de mecanismos de perícia independente figura como um tópico relevante no debate humanitário. No caso do Rio de Janeiro, enfatiza-se o ponto resolutivo 16 da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Favela Nova Brasília, acerca da problemática da Polícia Civil realizar as investigações e perícias dos casos nos quais agentes estatais figuram como autores das violações de direitos humanos
Nas margens do doméstico: Interações entre humanos e animais nas paisagens hídricas de duas metrópoles amazônicas
Em Belém (PA) e Manaus (PA) a água é parte significativa da vida urbana. Intensas chuvas e grandes massas hídricas no entorno dessas cidades conectam fragmentos de florestas, igarapés, nascentes e alagadiços que compõem um sistema de drenagem bastante transformado por intervenções do Estado ou ocupações espontâneas em áreas empobrecidas e de grande adensamento residencial. Este trabalho consiste na aproximação de dois universos de pesquisa em que se observou a interação entre humanos e animais selvagens por meio da presença da água no cotidiano. Em Belém essas interações ocorrem majoritariamente nas situações de desastre – inundações e alagamentos – em que são borradas as fronteiras da cidade com o mundo tido como “natural”, enquanto que em Manaus especula-se sobre a adesão desses animais às franjas do ambiente doméstico, onde passam a coexistir com os humanos. A etnografia – concluída em Belém e preliminar em Manaus – discute como essas interações expressam as relações contraditórias entre água e cidade mediadas por intervenções técnicas sobre o meio hídrico nos dois contextos e aponta para os agenciamentos interespecíficos que configuram paisagens de perturbação na Amazônia urbana
Nossa palestra é andando
Em outubro de 2022, a UFMG concedeu o título de doutor a 15 dos mestres e mestras dos saberes tradicionais de Minas Gerais e da Bahia publicamente reconhecidos por sua atuação como guardiões e transmissores de conhecimentos fundantes de suas comunidades. Na ocasião, este grupo viajou até a universidade para a cerimônia de outorga e para palestras, rodas de conversa e visitas a comunidades tradicionais da cidade. Em abril de 2023, os dois titulados doutores pelo Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (NPGAU) – Babau (Rosivaldo Ferreira da Silva), cacique da Terra Tupinambá da Serra do Padeiro (BA), e Joelson Ferreira de Oliveira, liderança do Assentamento Terra Vista (BA) – voltaram à UFMG para participar do I Colóquio do NPGAU. Nesta visita planejamos, com eles, para outubro do mesmo ano, o deslocamento de professores e alunos da Formação Transversal em Saberes Tradicionais em direção aos seus territórios. Este artigo, cujo título é uma frase escutada de Cacique Babau, relata alguns episódios da viagem e reflete sobre a experiência do encontro etnográfico transformada a partir do encontro de saberes, tendo o desaprendizado como premissa. Não pretende organizar, de modo algum, uma síntese, nem propor uma análise ou categorias conclusivas, mas apenas exercitar um relato possível deste lugar de encontro com Joelson e Cacique Babau em suas comunidades
Pensando a mudança de um currículo monoepistêmico para um currículo pluriepistêmico: Um ensaio sobre a fricção
A ideia central desse ensaio é considerar quais mecanismos poderiam ser acionados quando pensamos a passagem de um campo de ensino monoepistêmico para um campo pluriepistêmico, no qual a inclusão seria o seu princípio fundamental. Para refletirmos sobre as inúmeras possibilidades de se fazer essa passagem, recupera-se nesse texto dois conceitos que guiaram o debate. O primeiro deles será o epistemomêtro, cunhado pelo antropólogo brasileiro josé jorge de carvalho, no texto “epistemômetro: uma metodologia para a descolonização e transformação do currículo das universidades brasileiras” de 2023. O segundo, será o de fricção, postulado por roberto cardoso de oliveira, no seu livro “o índio e o mundo dos brancos” publicado em 1964. Entende-se nesse ensaio que quando falamos de uma passagem monoepistêmica para uma pluriepistemica, não estamos descartando toda a produção ocidental, o que se defende é a inclusão de novas formas e fontes. A ideia de complementariedade é o que talvez melhor sintetize essa discussão, visto que a pluralidade dos saberes complementará uns aos outros na medida em que dada realidade escape àquela determinada teoria. Modificar o currículo não está necessariamente vinculado a essa noção de substituição de um em detrimento do outro, a atenção para a multiplicidade é o que elucida a finalidade do epistemomêtro e não um evidente rompimento com o currículo em si
Cidade como ruína brejeira: Quando imagens de cuidado ribeirinho se encontram
"Este córrego não encherá mais", diz a faixa afixada acima do Córrego do Leitão, em Belo Horizonte. O registro histórico que divulgava as obras de tamponamento de córregos se tornou um tipo de visualidade frequente nas narrativas oficiais que queriam consolidar a cidade enquanto a metrópole do progresso. Investigo estas narrativas em correspondência com o cuidado ribeirinho com o Rio Peruaçu, onde moradores cuidam de suas nascentes e pesquisadores colecionam imagens dos animais habitantes de suas margens para traçar estratégias de preservação. As fotografias não são apenas registros, mas carregam intenções, violências e potencialidades. As ferramentas técnicas e oficiais de registro não são mais suficientes para cuidar do mundo danificado. As imagens podem ser estratégias para cuidar do mundo que partilhamos? Neste trabalho, investigo os modos possíveis de se cuidar de um rio. O trabalho é mediado por imagens fotográficas por meio da construção de álbuns como um método de pesquisa que apresenta narrativas para além das oficiais. Construo vizinhança entre imagens de álbuns de família, registros históricos, imagens de câmeras de segurança, fotografias de arquivo pessoal, entre outros. Nos encontros com minhas companheiras de pesquisa os álbuns se transformam, e surgem novos imaginários e repertórios. Desta maneira, monto uma coleção que busca contrapor os registros oficiais e construir um repertório de cuidado ribeirinho
Ensinando o patrimônio cultural decolonial nos trabalhos de campo de Geografia
Este texto apresenta em sua parte inicial algumas considerações sobre patrimônio cultural, educação patrimonial decolonial e trabalho de campo, sendo estes os referenciais bibliográficos para a pesquisa. A segunda parte do texto apresenta possibilidades de práticas para a inclusão da educação patrimonial no ensino de Geografia. Para isto, são descritas as práticas realizadas com estudantes de uma escola de Ensino Médio localizada no município de São Carlos – SP. Destaca-se que no espaço escolar o patrimônio cultural é abordado como tema da história ou sociologia, ou temas transversais. Nesse sentido, cabe às professoras e aos professores de Geografia a devida apropriação deste campo que possui intencionalidade em sua distribuição espacial, merecendo a atenção desta ciência para a inclusão da pluralidade de ideias sobre o patrimônio cultural e suas narrativas
Irún Nagô, trançando cultura na cabeça: o ensino de Geografia afrocentrada a partir das tranças enraizadas
Partindo da potencialidade do ensino de geografia no combate a violência doméstica e somado a abordagem metodológica afrocentrada (centrada nos fenômenos africanos), Irun Nagô foi uma prática educativa desenvolvida e aplicada na Assistência Social de Média Complexidade em Campinas - SP pelo Educador Social de Abordagem Afrocêntrica e estudante de geografia na Unicamp, Jamaa Tendaji Bakari, na formação de um grupo temático intergeracional e misto formado por famílias acompanhadas pelo Serviço Especializado de Proteção Social à Família - SESF da Sociedade Educativa de Trabalho e Assistência - SETA na unidade da Região Norte de Campinas - SP
Novos olhares sobre os povos indígenas: um relato de experiência na formação do docente em Geografia
O presente trabalho parte de uma discussão sobre o contexto indígena no Brasil. O objetivo desse texto, é discutir os estereótipos e conflitos vivenciados pelos indígenas na busca pelo reconhecimento e emancipação na luta pela conquista de seus direitos e ressignificação diante preconceitos construídos socialmente. Além disso, é mencionado o papel do professor de Geografia como mediador na análise crítica sobre os povos indígenas na sala de aula com seus alunos. Por fim, é apontado algumas etapas para que o professor possa conduzir as atividades pedagógicas, bem como, possíveis reflexões para a construção de uma visão anticolonialista sobre os povos originários.
Dicotomia intradisciplinar e inserção das "atualidades": o ensino de Geografia a partir do cursinho popular TRIU
Este trabalho discute o ensino de Geografia a partir de uma situação particular, isto é, um contexto de cursinho popular pré-vestibular cuja maioria discente já concluiu o ensino básico. Com base em experiências e acesso ao conteúdo programático do Cursinho Popular TRIU (que segue as temáticas delimitadas pelos vestibulares das universidades estaduais paulistas), são apresentadas 1) a fragmentação intradisciplinar entre Geografia Física e Geografia Humana já consolidada entre os estudantes; e 2) a penetração das “Atualidades”, frequentes em provas para ingressos no curso superior, que fortalece uma Geografia Jornalística. Com isso, reflete-se sobre quais são os impactos à apreensão da totalidade e quais são os ataques ao estatuto epistemológico da Geografia diante da tese de que, por ser a ciência que estuda o presente, deve-se voltar ao noticiário. As indagações presentes no texto têm como essência os conteúdos destinados às frentes da Geografia (Frente Brasil e Frente Mundo)