Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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O risco de novas epidemias nos nexos entre humano, animal e meio ambiente
Surtos e emergências sanitárias ocorridos nas últimas décadas, como a gripe suína e a COVID-19, têm suas origens atribuídas a um contato próximo entre humanos e animais. Sob a influência de fatores epidemiológicos e ecológicos, há um “spillover”, um transbordamento zoonótico que faz um patógeno saltar de um não humano para um humano, provocando doenças. Desde antes da pandemia de COVID-19, estudos indicam o potencial de surgir no Brasil novas emergências sanitárias com potencial epidêmico, principalmente nas frentes de desmatamento, de avanço extrativista e nas fronteiras agropecuárias. Nessas frentes, há encontros interespécies inesperados que bagunçam o equilíbrio ecológico e produzem riscos socioambientais, acentuando o quadro de mudanças climáticas já em curso. No entanto, ao invés de um enfoque exclusivo em seres humanos, torna-se imperativo considerar as relações de influência mútua entre meio ambiente, saúde humana e saúde animal, tal como preconizado pela abordagem de Saúde Única (One Health). A pesquisa transita na interface entre os estudos sociais da ciência e da tecnologia e a saúde com o objetivo de conhecer as estratégias de cálculo de risco de transbordamento zoonótico no Brasil e das novas epidemias. O consumo humano da carne de espécies animais que vivem na natureza, por exemplo, é a corporificação mais orgânica do risco à saúde planetária e aos futuros
Um ensaio de cartografia social multiespécie em território minerário
Neste texto de caráter ensaístico pretendemos discutir a possibilidade da problematização do uso da cartografia social numa chave multiespecífica através da ampliação do conceito sobre social para espécies, além e junto à humana. Para tal, mobilizamos autores que discutem a ideia de cartografia social e o papel desta ferramenta nas diversas formas de luta por terra e território protagonizadas por grupos sociais em diferentes regiões do Brasil, como Henri Acselrad e Alfredo Wagner Berno de Almeida, e outros que discutem o antropoceno e a paisagem em uma perspectiva etnográfica dos viventes, como Anna Tsing, Donna Haraway e Isabelle Stengers. Entrelaçamo-os com breves narrativas das experiências como cartógrafo social de um dos autores nos territórios, e com as pessoas atingidas, no contexto das ações de reparação ao desastre sociotécnico e ambiental na bacia do Rio Doce, especialmente na sub-bacia do Rio Gualaxo do Norte, provocado pelo rompimento da barragem de rejeitos de Fundão em 2015, controlada pela mineradora Samarco e suas acionistas Vale e BHP Billiton. Tal articulação entre os textos, as imagens produzidas através do trabalho do cartógrafo social e os conceitos abordados visa fazer do texto, ele mesmo, uma experiência de cartografia social multiespécie na qual advogamos em favor
Técnicas de cuidado com a terra e plantio a partir de mediações de objetos para construção de espaços florestais produtivos em uma comunidade ribeirinha em Ananindeua, Pará
O presente artigo se trata da estruturação de reflexões inicias sobre o que convencionei chamar de técnicas de cuidado com a terra e plantio desenvolvidos e praticados por comunidades ribeirinhas do nordeste amazônico. Em um cenário estatal e municipal institucional de incentivo e valorização de práticas consideradas sustentáveis, comunidades ribeirinhas intensificam cada vez mais suas já realizadas práticas de construção de espaços produtivos a partir da combinação de árvores frutíferas e tubérculos sendo centrais na atividade agroextrativista. Para erigir esses espaços distintos, os ribeirinhos recorrem às mediações possibilitadas pela motricidade de uma miríade de objetos cortantes e laminados, como: terçados, roçadeiras e foices. Busca-se então entender a gestualidade, ritmo e organização implicadas na atividade de roçar. Este artigo pretende, então, expor as reflexões inaugurais quanto ao possível teor dessas mediações. Quanto aos valores construídos, as contradições implicadas, propriedades que emergem, como eficácias distintas são evocadas e como modos de ação diversos permitem que ferramentas, humanos e árvores emerjam com novos status. Entende-se que uma atenção específica aos acoplamentos e ações entre ferramentas, humanos, árvores e o espaço florestal no momento de cuidar da terra e plantar as árvores são um campo que deve ser explorado e observado com mais afinco a fim de perceber as sutilidades e inovações técnicas promovidas por esses grupos
Dança da cutia: Minha cultura, minha identidade na escola Mura
É importante salientar que este estudo, apresenta sugestão didática e pedagógica para o professor indígena Mura no processo ensino e aprendizagem diferenciada e significativa, contextualizando a cultura, a língua e a valorização da etnia na práxis docente da educação escolar indígena. A escola indígena visa planejar e construir a identidade própria da escola Mura, o Projeto Político Pedagógico, onde o planejamento, execução e avaliação de todas as ações da escola Mura estão inseridos, é um instrumento de luta e organização de uma instituição educacional. Objetiva valorizar os saberes indígenas na ação didática e pedagógica na escola Mura. E os objetivos específicos busca articular a educação escolar indígena e cultura numa perspectiva antropológica; conhecer a Dança da cutia e sua relação com a escola Mura; produzir uma cartilha com as letras das músicas da dança nas línguas Portuguesa e Nheengatu como recurso paradidático na escola Mura. Quanto à metodologia utilizei técnicas de pesquisas: observação participante, coleta de dados, como exemplos: filmagens, fotografias e os cadernos de campo e conversas informais. Na investigação documental: primários e secundários que contribuíram para este estudo. Sendo pesquisa de cunho qualitativo, pautou-se na subjetividade da interpretação dos dados, favorecendo a atribuição de significados à realidade social, com base na cultura alinhada a educação escolar indígena. Três fases: diagnóstico, encontro pedagógico e o projeto de intervenção: minha cultura, minha identidade, logo, olhar, ouvir e escrever. Quanto aos resultados, certificou-se que a Dança da cutia serve de instrumento de comunicação em movimentos sociais, nas manifestações culturais e bem como, dialoga com a escola Mura, a Dança da cutia para o nosso Povo tem significado símbolo de poder: cultural e político, em cada apresentação da dança tem um significado simbólico, uma mensagem a ser transmitida. Assim, este estudo demonstra que práticas de conhecimento estão em movimento, dialogando a cultura e a educação escolar indígena. A antropologia cultural e a antropologia da educação contribuem no processo de retomada linguística e fortalecimento cultural de nosso Povo, valorizando a Dança da cutia como saber cultural na escola Mura.
Transbordando conexões: Reativamento de memórias e relações nos mebêngôkres a partir de sua produção audiovisual
Desde os primeiros contatos dos mebêngôkre com os equipamentos audiovisuais, eles têm sido utilizados como artefatos de luta. Evidentemente, enquanto documento político, quando registram reuniões com autoridades, funcionando como prova sobre promessas feitas para pressionar autoridades, ou quando denunciam os conflitos enfrentados pelo grupo, ou ataques a seus direitos originários, mas também quando produzem filmes sobre suas festas, seu cotidiano, as histórias de seus “personagens”, numa luta contra o etnocídio promovido de forma permanente pelo Estado: o apagamento de suas memórias, de seus saberes. A partir de experiências fílmicas realizadas por membros da aldeia A’Ukre, no Território Indígena Kayapó, este trabalho visa entender como essa produção audiovisual vem sendo utilizada como arma na defesa de sua cultura. Atentando para a própria experiência do audiovisual, durante a produção de um filme no decorrer de uma oficina, de como são mobilizados os mais diversos elementos, reforçando ou retomando as diversas relações existentes na aldeia e outras que estavam em via de desaparecer
Impactos socioambientais da monocultura do eucalipto na comunidade Córrego do Soares - município de Capelinha (MG)
O Vale do Jequitinhonha, desde os anos de 1960, é considerado pelo poder público como uma região de pobreza e miséria, com terras improdutivas e devolutas. Como solução para melhorar o índice de desenvolvimento da região, os governos militares, a partir da década de 1970, investiram no monocultivo de eucalipto aliado à tecnologia da Revolução Verde. O monocultivo de eucalipto no município de Capelinha – MG, localizado no Alto Jequitinhonha, no bioma do Cerrado, iniciou-se na década de 1970, com a implantação da empresa Floresta Acesita. Entre as comunidades rurais do município que aderiram ao monocultivo de eucalipto, temos a comunidade Córrego do Soares. Na comunidade, após a adesão à monocultura de eucalipto, observa-se conflitos e tensões em diversas dimensões: geração de trabalho, uso da água e da terra, economia, cultura e saúde. Nesse sentido, esse trabalho tem como objetivo analisar as modificações na ocupação da terra, na força de trabalho e na renda das famílias a partir da década de 1970, na comunidade Córrego do Soares. Os caminhos metodológicos da pesquisa consistem na realização de entrevistas semiestruturadas e análise documental. Os dados coletados foram submetidos às fases de análise de conteúdo estabelecidos por Bardin (2011). Os dados coletados evidenciam que a partir da introdução do monocultivo de eucalipto na comunidade de pesquisa, houve a precarização do trabalho, redução da renda familiar e impactos ambientais
Antropologia do dinheiro: Influência das tecnologias na mudança da cultura e do consumo
Neste artigo, procuramos abordar as questões antropológicas da criação do dinheiro enquanto instrumento de influência nas relações econômicas, culturais, sociais e de consumo. Como percurso metodológico, é adotado uma abordagem de revisão bibliográfica em bancos de dados de produção científica, a destaque para o base de tese e dissertações e periódico capes, sobre o desenvolvimento tecnológico de consumo a partir do dinheiro. Passando por diversos momentos da história em que foram elaborados conceitos, da docilização dos corpos, da sociedade de controle, de uma busca sobre a universalização da cultura, trabalhados por Foucault, Deleuze, Lévi-Strauss, que são referenciais teóricos para refletir sobre a cultura capitalista de consumo através do dinheiro físico e digital. Nesse contexto, questões como a criação da moeda dinamizam as relações de escambo, representando um valor comercial acerca das produções humanas e das relações de consumo. As novas transformações do dinheiro, exemplo do pix, cartão de crédito e débito produz novas relações sociais, que são objeto deste estudo. Portanto, percebe-se que essas novas transformações otimizam o cotidiano dessas relações, em que ocorre uma maior facilidade e acessibilidade para transações monetárias que é proporcional ao consumo exacerbado e estimulado na sociedade capitalista
Feiras enquanto paisagens multiespecíficas: Perigo e confiança nas relações entre humanos, animais e plantas nas feiras-livres de Goiânia
Entre outras coisas, como o agronegócio e a música sertaneja, Goiânia também é conhecida por suas centenas de feiras espalhadas por toda a cidade que movimentam a economia local. Durante a minha pesquisa de doutorado, as feiras foram o foco de análise e ao ir à campo saltaram aos olhos outras relações para além das que já eram esperadas (humanos entre si). Numa enxurrada de cores, cheiros e sabores, a participação de outros agentes passou a ser frequente nas análises. Ou seja, participam das feiras mais agentes do que verificamos em um primeiro olhar, logo, animais, plantas (alimentos ou não), insetos, bactérias, vírus, entre outros, coabitam o mesmo espaço e participam, à sua maneira, das relações ali estabelecidas. De maneira diferente, participam, também, normas, legislações e regras tácitas permeiam relações
Arquiteturas entre o território Xakriabá e a universidade
Em visita recente ao território Xakriabá, conversávamos sobre o que era arquitetura e não chegávamos a um acordo. As definições não estavam erradas, mas não eram só aquilo que um ou outro dizia. O que talvez possamos chamar de arquitetura Xakriabá não é a mesma coisa que chamamos de arquitetura na universidade ou na cidade. Eram práticas diferentes. Esse processo de tradução feito com mal-entendidos só é um problema se a nossa intenção for que o entendimento seja único. A partir da ideia de Marisol de la Cadena do não somente, aprendemos a expandir a prática da tradução acolhendo a multiplicidade e as diferenças percebidas quando estamos entre mundos. No território Xakriabá, víamos arquitetura como o processo coletivo de construção das casas tradicionais e suas reverberações nas práticas construtivas atuais, as lutas e conquistas pela diferenciação do espaço escolar indígena, as práticas de retomada que geram espaços comunitários, etc. Mas o que nomeávamos de arquitetura, para o povo Xakriabá, era parte da vida cotidiana. Talvez o conceito de arquitetura xakriabá estivesse em germinação, ali naquele encontro, no diálogo com a universidade. Como aprender sobre arquitetura com as práticas espaciais xakriabá? Como considerar as práticas tradicionais nas práticas de arquitetura que chegam ao território Xakriabá a partir da cidade
Geografia crítica e o ensino da globalização: desafios e práticas
Este trabalho é fruto de uma pesquisa realizada durante cinco meses, dentro da disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso na UFSCar, campus Sorocaba, com aproximadamente 180 alunos em uma escola pública de uma cidade do interior do estado de São Paulo. Teve como questão central demonstrar que o método proposto para o ensino de temas da Geografia, pode fazer a diferença na aprendizagem dos/as alunos/as. Para tal, optou-se pela abordagem crítica. O objetivo foi promover um ensino que trouxesse uma reflexão sobre a importância da Geografia como disciplina e que possibilitasse uma significação sobre os processos que envolvem as aprendizagens considerando, para tal, os lugares de vivências dos/as alunos/as, por meio do recorte do tema Globalização. Com o uso do método materialista histórico-dialético, conseguimos verificar que é possível promover um ensino que considere os conhecimentos trazidos pelos alunos, proporcionando a significação e a ressignificação dos seus lugares de vivências, por meio da Geografia Crítica