Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
Not a member yet
2307 research outputs found
Sort by
Seguindo carbonos dentro e fora do mercado: reflexões éticas em estudo para conservação de florestas
Em um cenário de mudanças climáticas globais, estratégias de mitigação tomam por base a contraposição entre a emissão de carbono de origem antropogênica e a assimilação de carbono em sistemas florestais (terrestres ou costeiros). Assim, partindo da afirmativa óbvia de que a conservação das florestas e do carbono estocado nas mesmas contribui para mitigação do aquecimento global, e dos recursos disponíveis para tanto, muitos pesquisadores das áreas das ciências naturais investem esforços nos estudos dos processos de absorção de CO2 pelas plantas, de acúmulo C na biomassa aérea, nas raízes e no solo, de ciclagem da matéria orgânica, entre outros. Tais estudos visam quantificar os fluxos de C de modo a "operacionalizar" ações para mitigação do aquecimento global, que vem ocorrendo via mecanismos de mercado. Nessa configuração, a ética do pesquisador é garantida pela qualidade (precisão) da informação fornecida à sociedade e, em geral, sua crítica restringe-se ao mau uso destas. Mas, o que acontece quando este pesquisador percebe que as ações de mitigação, sob o discurso ambientalista e regulada pelo mercado, vem causando graves conflitos socioambientais envolvendo as pessoas que vivem diretamente das florestas? E quando reconhece que os dados de sua pesquisa contêm a solução previamente pensada e decidida na sociedade e que, por esse motivo, qualquer crítica aos mecanismos de mitigação, deveria ser antes uma autocrítica? Este artigo trata de explicar porque motivo (ético e político) uma pesquisa que se iniciou com a elaboração de modelos alométricos para determinação da biomassa e cálculo do sequestro de carbono de florestas de mangue terminou, por fim, com a descrição da rede sociotécnica do carbono
Controvérsias sobre direitos autorais: considerações sobre plágio, falsificações e fabricação de dados acadêmicos
O plágio e suas demais configurações acontecem com relativa frequência no âmbito acadêmico, porém suas discussões são pouco receptivas – sejam por questões morais, sejam por questões legais. Para a maior parte dos pesquisadores, o plágio ou a fraude deslegitimam os princípios de confiabilidade da pesquisa científica, além de corroborarem com uma certa noção premeditada de roubo da autoria de outrem. Apesar de não existir uma legislação brasileira específica que trate o conceito direto e expresso do plágio, até onde acompanhamos, ele costuma ser compreendido como sinônimo de fraude ou de apropriação indevida de autoria – e, em alguns casos específicos – como violação das leis de direitos autorais. Sendo assim, nos propomos a discutir nesse trabalho alguns casos de plágio, além de problematizar a noção de autoria que circunscreve tal agenciamento – a saber: o ato de plagiar – e as demais configurações que são constantemente discutidas pela nossa compreensão de propriedade intelectual
Reabilitação psicossocial e produção de sujeitos: etnografia em um Serviço Residencial Terapêutico
Um convênio produzido em 1990, pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Campinas, destinou recursos para o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira (SSCF) iniciar a sua reforma institucional e a reabilitação dos internos que viviam em seu hospital psiquiátrico. Em 2011, após 20 anos da inauguração da primeira moradia assistida do SSCF, a equipe do Serviço Residencial Terapêutico (SRT), em um evento, apresentou os saberes construídos e as perspectivas das práticas de cuidado executadas no acompanhamento dos moradores. De acordo com a problematização dos profissionais (psicólogos, psicanalistas, médicos, enfermeiros e terapeutas ocupacionais), as moradias não são apenas espaços de habitação, mas um dispositivo de saúde ao oferecer a assistência da clínica do detalhe que aciona tanto os cuidados referentes aos problemas crônicos da velhice (diabetes, hipertensão, dificuldades de locomoção) como as intervenções que promovem a reabilitação psicossocial (manutenção de relações familiares; acompanhamento das relações de consumo; monitoramento das relações entre os moradores; estímulo à participação em atividades de lazer, esporte, arte e educação). A partir dos dados da pesquisa etnográfica com os profissionais do SRT, apresento o funcionamento de uma tecnologia de cuidado que combina saberes (clínicos, psicológicos e assistenciais), operacionaliza práticas de intervenção no território e produz sujeitos que participam da fabricação de seus projetos terapêuticos
Aprendiz de psicanalista: construção de subjetividade e produção de conhecimento em instituições lacanianas de formação em psicanálise
O presente trabalho apresenta parte de minha tese de doutorado sobre a relação entre produção de conhecimento e construção modelos de subjetivação na teoria e prática psicanalítica, através de etnografia realizada em instituições lacanianas de psicanálise. Nela descrevo os processos de formação de psicanalistas e os modos de produção e transmissão da técnica e do saber psicanalíticos. O trabalho de campo foi realizado em instituições psicanalíticas que seguem o modelo de Escola (criado por Jacques Lacan), em São Paulo e Buenos Aires, nas quais foi possível observar a organização institucional e seus dispositivos de formação, através do convívio e da interlocução com seus membros e “alunos”, e os modos de produção de subjetividades que resultam de técnicas específicas de produção de conhecimento e “transmissão” da psicanálise. Através de um dispositivo ritualístico, o processo de formação é “testemunhado” à “comunidade analítica”, que confere sentido à experiência associativa e comprova a eficácia terapêutica na construção de novos modelos de subjetivação. A partir das concepções dos interlocutores da pesquisa, observa-se a articulação entre teoria psicanalítica e prática terapêutica na construção de processos de individuação e de realidades psicológicas no interior da clínica
Corpo como referência: pensando o corpo no mundo e o mundo a partir do corpo
Reza uma antiga narrativa do povo Matses que houve uma época em que eles não sabiam plantar e, por consequência, alimentavam-se mal, comendo uma mistura de argila e casca de árvore. Nesse cenário surge o Uesnid – ave conhecida na região como mutum - que vem parcialmente metamorfoseado em humano e ensina os Matses a plantar e comer os alimentos que hoje conhecem. O mito termina com a partida do Uesnid indignado ao saber que as mulheres caçoavam de sua aparência meio-humana, meio-ave, e é a partir deste episódio que se começa a pensar a relevância do corpo humano como a referência primeira de ordenamento das coisas, neste caso, um fator de aceitação social, pois o mutum falava e agia como humano, mas lhe faltava um corpo totalmente humano. Daí em diante, consoante à noção de humanidade em Tim Ingold, o perspectivismo de Viveiros de Castro e a conversão em Aparecida Vilaça, e explorando a tese de Beatriz A. Matos acerca da construção sociocultural do corpo Matses, analisa-se a importância conferida ao corpo humano como diferencial entre os demais seres da sua cosmologia. Em seguida, destaca-se a noção de corpo humano como um modelo estrutural para se pensar o mundo ao seu redor, sendo esta proposição sustentada pelo uso de termos e prefixos corporais para posicionar e descrever o rio, os animais, as árvores e novos objetos como carro e avião, e pela disposição da maloca tradicional -pensada e construída à semelhança de um corpo. Isso implica a visão de que corpos habitam em outros corpos à semelhança de círculos concêntricos, apontando as relações imbricadas nesta realidade múltipla segundo a leitura de Annemarie Mol
Da pilha elétrica como metáfora à metáfora como informação: da eletrodinâmica e da emancipação do espírito nos escritos de Allan Kardec.
O presente trabalho propõe a realização de uma leitura com ares de exegese dos escritos de Allan Kardec, no caso o Livre des Esprits, a partir de uma analogia que o mesmo Kardec propõe: a de que o corpo dos seres vivos tem seu melhor análogo nos aparelhos elétricos. Com o objetivo de revisitar os trabalhos recentes de Jeremy Stolow (2008, 2009, 2013), tenho como horizonte investigar não tanto a ocorrência episódica, mas natureza e a operacionalidade desta analogia. Com o objetivo de apontar a correlação entre os aparelhos da eletrostática e os projetos de emancipação do espírito encarnado - tema central do espiritismo kardecista -, intento discutir algumas propriedades da analogia enquanto tal na medida em que ela permite descrever as forças envolvidas como promotoras e como empecilhos desta mesma emancipação, o que nos leva a uma segunda questão. Compreendida como metaforização, a analogia com os aparelhos elétricos não se restringe às relações de contiguidade do fatalismo histórico próprio das narrativas sobre secularização. Se a metáfora também pode ser considerada como une vérité à faire, como sugeriu Hans Blumenberg, é porque ao concretizar relações entre termos distintos ela opera uma forma de metacinética das analogias, no caso, eletrodinâmicas. É assim que, em plena Terceira República francesa, ser possuído por um espírito pode ser uma forma de concretizar uma metáfora cujo meio/médium técnico conjuga a emancipação humana ao progresso da Era Psicológica mediante a tradução desta nos termos da experiência sensível
No fluxo do rio: confluência de papéis na prática de pesquisa em um centro de recuperação para dependência
O objetivo deste trabalho é apresentar reflexões a partir da experiência de campo de uma pesquisa etnográfica realizada na Casa de Recuperação Caminho de Luz, em Rio Branco/AC. A instituição para tratamento de usuários de drogas tem como um de seus pilares o tratamento espiritual através do uso ritual de ayahuasca em sessões que seguem a doutrina da União do Vegetal (UDV). Ao estar em campo, além da preocupação com a busca pelos dados da pesquisa, o pesquisador viu-se comprometido em questões relacionados à profissão de origem – psicólogo e psicoterapeuta. Demandas de gênero, grupo e conflitos conjugais foram emergências que exigiram do profissional espaços para descolamentos do papel de pesquisador ao passo que assinalava tais fenômenos como manifestações do campo. Tais constatações fazem refletir a prática de pesquisa, especialmente em saúde coletiva, como espaços reflexivos onde tencionam práticas profissionais e papéis do pesquisador considerando a importância da delimitação de tais lugares e da neutralidade em campo
A QUESTÃO AGRÁRIA NO ENSINO DE GEOGRAFIA: REFLEXÕES E METODOLOGIAS
Diante dos ataques midiáticos e ignorância de parte da população sobre as minorias que pertencem ao espaço rural, considera-se importante repensar o ensino de espaço rural na educação básica. Com base nisso, esse trabalho objetiva refletir e propor uma sequência didática que contribua para esse ensino. Para isso, usufruímos de diferentes linguagens e metodologias para entender o espaço rural de maneira crítica e significativa
A ESCRITA NARRATIVA: CONSTRUINDO NOVOS SENTIDOS PARA O ESTÁGIO SUPERVISIONADO
Neste trabalho são apresentadas algumas reflexões sobre a produção de narrativas durante as disciplinas de Estágios Supervisionados com alunos da Licenciatura de Geografia em duas universidades federais. Nossa opção teórico-metodológica insere-se numa perspectiva que possibilita uma relação não só entre os saberes didáticos e os saberes científicos, mas também as relações humanas dos sujeitos envolvidos. Para evidenciar tais questões, apresentamos alguns trechos das narrativas, em que é possível identificar indícios do desenvolvimento pessoal e profissional dos alunos/narradores. Nesse sentido, o exercício da escrita narrativa se tornou um momento de sistematização e reflexão dos registros do estágio, que favoreceu não só a descrição/explicação de um acontecimento, mas a sua teorização do vivido, instigando um movimento de interrogar a formação/trabalho docente a partir das experiências vividas nas escolas