Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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    Fazer a festa, benzer a capela, fundar o lugar: Casa, patronagem e conjuros na estória de amor de Manuelzão

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    “Ia haver a festa. Naquele lugar - nem fazenda, só um reposto, um currais-de-gado, pobre e novo...”. Através das palavras e temas que nos são oferecidos pela novela “Uma Estória de Amor”, de Guimarães Rosa, iremos aqui apresentar certos problemas etnográficos que surgiram de nossas pesquisas realizadas em Itaboraí (RJ) e Minaçu (GO). Nosso foco reside nas correlações entre festa e casa nas circunstâncias agenciadas por esses “lugares” que, ainda “pobres e novos”, são “só um reposto”; são ranchos, albergues ou pontos de passagem, locais de pausa, pouso ou repouso cujo caráter provisório coexiste com as ambições que buscam torná-los mais estáveis e duráveis e menos descontrolados. Interessa-nos em especial examinar como os movimentos e gestos que demarcam, singularizam e buscam fundar esses lugares (em banquetes ou benzeções, e.g.) recorrem invariavelmente a forças e materiais emanados de regiões e exteriores estúrdios e inóspitos, simultaneamente familiares e ameaçadores das ordens domésticas (as estórias e dádivas trazidas por hóspedes, mendigos ou homens-bicho, e.g.). Deslocando nossa atenção para os trabalhos pelos quais um homem celibatário (e não uma mãe ou uma família) busca, assim e aí, fundar um lugar, procuramos também um ângulo para tratar de certas proximidades “incômodas” (do ponto de vista dos pesquisadores): as práticas de nossos interlocutores se apropinquando de autoritarismos “milicianos”, diligências “empreendedoras” e truculências “neoextrativistas”

    Cultivar o invisível: A relação entre lótus e moradores de Mombuca em paisagens multiespécies

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    Lótus (Nelumbo nucifera) é uma planta que nasce em ambientes alagados. A flor de lótus desabrocha apenas uma vez ao ano. Nas outras estações, manejo, consumo e produção se dão em torno dos rizomas. Sua colheita envolve imergir na lama, sentir as raízes com os pés, percorrer uma rede invisível de rizomas conectados e retirá-la delicadamente da terra com as mãos: uma tarefa artesanal, que tem o tato como um sentido primordial. Lótus e humanos têm se afetado ao longo de milhares de anos, seja no corpo ou no espírito. Nos dias atuais, em meio às grandes fazendas de monocultura de cana-de-açúcar na região de Ribeirão Preto (SP), a comunidade de Mombuca – fundada pela imigração japonesa – produziu técnicas para o cultivo de lótus, representando para parte dos agricultores uma garantia de renda e uma forma de se conectar com suas raízes. Seguindo ideias de Anna Tsing, “somos contaminados por nossos encontros; eles transformam o que somos na medida em que abrimos espaço para os outros” (2022, p. 73). Nesse artigo busco entender de qual maneira a contaminação entre lótus e humanos em Mombuca possibilitou a criação de um mundo compartilhado. Questionando por que esses agricultores plantam lótus diante das dificuldades de manejo da planta, defendo que a motivação para o cultivo não é apenas econômica, mas está relacionada com a noção de identidade e pertencimento da comunidade. Nessa direção, ao alargarmos nossa visão sobre os mundos, conseguimos enxergar as raízes que os sustentam

    Fabulando corporalidades em relações de alteridade significativa entre espécies companheiras: Uma perspectiva da dança

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    Este artigo procura compartilhar parte do processo e das reflexões geradas na pesquisa de mestrado “Dialógos entre Vianna, Béziers e Graham: Proposta para a criação de uma prática técnico-criativa dentro de abordagens somáticas em dança”, desenvolvida dentro do campo das artes do corpo, que culminou na criação da dança-instalação “2415”. O processo partiu de inquietações sobre a necessidade de cultivar outros modos de ser e estar no mundo (KRENAK, 2019) e romper com a lógica especista e excepcionalista que tem baseado a interação de grande parte dos humanos com o restante da rede multiespécies, para fabular cenicamente futuros possíveis. O trabalho criativo emergiu da investigação sobre relações de alteridade significativa (HARAWAY, 2021) com seres tentaculares, especificamente as minhocas, e foi motivado pelas provocações: Como podemos nos relacionar com responsabilidade na rede multiespécies da qual fazemos parte (HARAWAY, 2019)? Como podemos conviver com ela em relações de alianças afetivas (KRENAK, 2021) e nos permitir aprender com seres tão diferentes de nós? Trata-se de trocar e aprender. O que criaturas subterrâneas e invertebradas, como as minhocas, podem nos ensinar sobre nosso corpo e nossa presença? A partir desse encontro com corporeidades tentaculares desenvolvemos, em uma investigação teórico prática entre a dança e a educação somática, a cena e uma prática de trabalho corporal. E ́ parte desse processo criativo, ainda em andamento, que compartilhamos neste texto

    Em defesa das cidades selvagens contra o Antropoceno

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    Neste ensaio discutimos a necessidade das cidades brasileiras transformarem-se em cidades selvagens para superarmos os problemas impostos pelo Antropoceno. Esses espaços urbanos precisam respeitar as florestas e seus habitantes como, animais, plantas, rios, nascentes e cachoeiras. É preciso que todos os seres tenham seus direitos de coexistências. Essa perspectiva procura superar a concepção moderna mononatural e monocultural das cidades, que são produtoras de desigualdades e de problemas ambientais. Propomos refletir junto aos Kaingang que vivem em contexto urbano na cidade de Clevelândia, localizada no sudoeste do Paraná. Esse território ancestral Kaingang, que se estende entre os rios Chopim e Chapecó, é banhado por diversas nascentes sagradas. Algumas delas são reconhecidas como os Olhos d’água do Monge São João Maria, cuja agência permite que elas sejam preservadas na cidade, garantindo a existência Kaingang em territórios oficialmente não reconhecidos pelo Estado. O Monge também auxilia os Kaingang na cura de corpos e territórios Esse território, ao ser habitado por diversidades multiespécies , permite imaginarmos a transformação das cidades em selvas com a ajuda dos indígenas. Essa transformação é necessária para que os problemas causados pelo Antropoceno sejam superados, pois, o cultivo desses espaços florestas nas cidades, promovem o bem-estar de humanos e não humanos e permitem que os problemas ambientais causadas pela soberba moderna desenvolvimentista em relação ao meio ambiente e aos indígenas sejam superados

    Caminhos de Tígueres entre fraturas coloniais e imperiais em Santo Domingo, República Dominicana

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    A avenida 27 de Febrero é um marco urbanístico que define espacial e temporalmente a cidade de Santo Domingo, capital da República Dominicana. Seu traçado e alcance foram inspirados no chamado “corredor norte-americano” produzido durante a ocupação imperial que brecou a revolução de 1965 no país. A partir de pesquisa de campo entre ex combatentes revolucionários, proponho nesse trabalho seguir os passos e caminhos que contrapõem a lógica de planejamento urbano que ordenou o espaço da cidade a partir da avenida. O período autoritário de doze anos que sucede a revolução, foi um preâmbulo da tragédia a longo prazo. Fratura imperial, colonial e autoritária, a avenida atravessa a cidade. Os ex-combatentes que conheci, fazem, por sua vez, caminhos pedestres em que narram sua atuação revolucionária, recriando seus dias de jovens ou tígueres pela cidade de Santo Domingo. Os espaços e lugares por onde anda(m)vam são acionados a cada passo como solos cronotópicos dotados de enredos contra-hegemômicos. As redes de amizade e afeto traçadas em espaços como os colmados (botecos/mercearias) desbordam em circuitos de compartilhamento que alcançam as redes sociais do digital. Em paralelo, a marcha do tempo-espaço neoliberal se expande gentrificando antigas zonas revolucionarias, e controlando o fluxo enfileirado dos engarrafamentos da avenida símbolo da modernidade dominicana. O exercício deste experimento busca evidenciar os futuros-passados que habitam alguns desses caminhos fugidios. Estariam em vias de desaparecimento? Que marcas eles deixam? De que formas eles espacializam histórias contra-hegemônicas? Que outras histórias a acidental topografia de Santo Domingo contêm

    Cartografia potencial da cidade: Novos mapas para Juiz de Fora – MG

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    O que os mapas e outros dispositivos cartográficos de Juiz de Fora dizem sobre sua história? Quais narrativas orientaram os mapeamentos da cidade e quais permanecem por serem mapeadas? O artigo pretende elaborar um breve repertório da cartografia em torno da cidade da Zona da Mata mineira, analisando os interesses por trás de seus recortes e representações e associando criticamente a produção destes dispositivos cartográficos tanto com o discurso oficial sobre a história da cidade, quanto com as novas narrativas e práticas de leituras sobre o território. Para além deste levantamento histórico, o artigo também analisa práticas contracartográficas em curso, realizadas por coletivos, artistas e movimentos sociais, com o objetivo de dar a ver outras formas de vida e outras possibilidades de espacialização da história de Juiz de Fora. Entre essas iniciativas, destacam-se o projeto de arte-educação urbana Cartografias Afetivas e a caminhada Juiz de Fora Negra como experimentações espaciais dissidentes e, em alguns casos, fabulatórias do território. A ideia de história potencial, de Ariella Azoulay (2019), é um importante orientador metodológicos para a análise e o embasamento para a noção de cartografia potencial

    O direito à educação como princípio de emancipação das populações quilombolas brasileiras: Um estudo sobre a produção acadêmica em Educação Escolar Quilombola no Brasil, entre 2012 e 2019

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    O presente trabalho comunica o atual estado do conhecimento relacionado às pesquisas de doutoramento em Educação Escolar Quilombola (EEQ), desenvolvidas em Programas de Pós-Graduação em Educação no país, no período compreendido entre 2012 e 2019, revelando e analisando os diversos contextos e processos inerentes às dinâmicas que envolvem a produção de teses em EEQ no período especificado. O corpus de análise deste estudo, que é fruto de uma tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), é constituído pela perscrutação de vinte e cinco teses que tiveram como objeto de estudo a Educação Escolar Quilombola. O suporte teórico desse estudo está fundamentado pelas categorias analíticas ligadas à esfera do direito, dos movimentos sociais e da cultura, perpassadas através de diálogos com os campos da História Social, da Antropologia, das Ciências Sociais e da Educação. Os resultados revelam o caráter afirmativo da educação como mecanismo de resistência, situando a EEQ como um ator político em constante construção. Neste viés, a EEQ engendra premissas que se assentam nas pautas das lutas do povo negro no país, possibilitando a afirmação de identidades específicas e de sentidos de pertencimento étnico-racial, reforçando a organização social nos territórios aquilombados em ações emancipatórias, voltadas para o bem-estar coletivo das populações tradicionais quilombolas brasileira

    Reactivando o perigo: Chamados e ressonâncias diante das crises ecológicas

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    Há um chamado terrano feito por cientistas e por artistas sobre o Antropoceno, mas também há um chamado feito pelos povos tradicionais (Latour, 2018), que é historicamente anterior ao dos especialistas. Abordar essa questão na IX ReACT teve como principal objetivo incluir no debate os povos tradicionais como protagonistas e fazer ressoar seus chamados e alertas, seus conhecimentos e éticas ecológicas. A proposta é aprender com os povos tradicionais do Brasil e da América Latina novas possibilidades imaginativas e práticas sobre como lidar com a catástrofe climática global. Buscamos posicionar o diálogo antropológico no âmbito da catástrofe climática, entre outras, como a mineração, o garimpo, o desmatamento e a violência do agronegócio, que ameaçam povos tradicionais ao longo da persistente catástrofe colonial e capitalista extrativista. A IX ReACT foi pensada como um convite endereçado à comunidade acadêmica e à sociedade em geral para reactivar uma percepção do perigo que nos rodeia, isto é, acionar outras sensibilidades ecológicas que nos permitam escutar, dialogar e refletir sobre as consequências da crise ecológica global.

    Não há terra sem saúvas

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    A proposta para participação no Seminário Temático (ST-1) “Artes de notar: experimentos com diversidades contaminadas em sociabilidades mais que humanas”, consiste em apresentar a pesquisa do coletivo História Natural de Goyaz em torno da exposição “Não há terra sem saúvas”. O grupo é formados pelos pesquisadores Ana Flávia Maru, Henrique Borela e Octávio Scapin, que desde 2019, empenham pesquisas em torno do arquivo fotográfico da construção de Goiânia, desdobrando exercícios de contação, fabulação e ficção das histórias de mundos e seres implicados no processo de construção e destruição perpetrados na construção da cidade moderno-colonial. Os pesquisadores partem de arquivos fotográficos e textuais, mobilizando revisões, reenquadres, questionamentos, montagens, em direção a um exercício dialético de fabulação crítica (HARTMANN). Imagens, textos, desenhos, objetos, instalações, filmes, formam o conjunto de materialidades de uma espécie de reescrita com as imagens da história de Goiânia

    Biografar ou restaurar corpos vegetais? Descrição crítica em florestas Amazônicas

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    Atualmente realizo experimentações etnográficas multiespécie de práticas silviculturais e manejo da floresta Amazônica, desenvolvidas por engenheiras(os) florestais, doutorandas(os) e mestrandas(os) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia (INPA). Embora compartilhe com meus interlocutores experiencias acadêmicas nas ciências naturais, me considero um pesquisador hibrido dentro do campo da Ecologia Política. Acompanhando as pesquisas me espanta a produção e acumulo de inscrições dos corpos arbóreos produzidas pelos cientistas: Demografia (crescimento e altura); Fisiologia (trocas gasosas, fotossíntese, respiração, condutância estomática, fluorescência) e Morfologia (área foliar), se tornam variáveis necessárias para refutar hipóteses nulas. Levar a sérios tais inscrições é reconhecer a potência da engenharia florestal em biografar ou restaurar corpos vegetais? Corpos que revelam modos de existência, materializando relações sociais (sol, fertilizantes, pragas, cientistas, clorofila, El Niño, analisador de gás a infravermelho (IRGA), ajudantes de campo, entre outras) e por isso capazes de restaurar a complexidade ecológica da floresta amazônica. Por serem especialistas em corpos arbóreos, as inscrições produzidas pelos cientistas da engenharia florestal se tornam interessantes meios para animarmos a vida multiespécie na maior floresta tropical do mundo, criando intra-ações que se friccionam em seus experimentos controlados, revelando que há mais vida por vir. Diante essas questões, misturas antropológicas e ecológicas podem nos ajudar a observar como as inscrições cientificas estão sendo animadas para participar e criar mundos florestais

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