Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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O território usado no brasil e a Federação: um estudo das relações entre os entes federados e a distribuição de recursos tributários
Este trabalho busca apresentar uma discussão acerca da constituição do território brasileiro a partir de sua estrutura estatal e organização política e, para isso, a idéia deterritório usado (SANTOS, 1994) se apresenta como instrumento analítico de suma relevância
América Latina e geopolítica crítica: contribuições para o ensino de geografia no Ensino Médio
Saberes indígenas na universidade: reflexões sobre as implicações da presença de um grupo de professores Tikmũ\u27ũn-Maxakali na UFMG
Com o fim de desenhar horizontes de trabalho conjunto e políticas de interesse comuns em parceria com os povos indígenas, vêm se constituindo, ao longo desses anos, práticas de convivência entre diferentes regimes cosmológicos no contexto acadêmico da Universidade Federal de Minas Gerais. Em particular, com a implementação de duas diversas ações formativas – o programa Saberes Indígenas na Escola (SIE) e o Curso de Formação Intercultural de Educadores Indígenas (FIEI) – houve, nos últimos anos, um incremento significativo da presença de um grupo de professores Tikmũ\u27ũn-Maxakali na universidade. Esta experiência, que levou os participantes indígenas e não indígenas a ocuparem outros lugares e experimentar outras formas de conhecimento, evidenciou uma série de implicações relativas a um “encontro entre saberes” que confronta regimes cosmológicos divergentes, agências humanas e não humanos, formatos da ciência moderna e práticas de conhecimentos “tradicionais”. As atividades realizadas ao longo desses projetos, revelam, nesse sentido, uma certa ineficácia das propostas político-pedagógicas de “transversalidade” que orientam a prática. A centralidade do registro escrito, eleito como critério de validação dos saberes “diferenciados”, se torna um eixo crucial que esse trabalho pretende problematizar a partir de uma breve apresentação da especificidade cosmológica e sociolinguística do povo Tikmũ\u27ũn-Maxakali, e das reflexões ligadas ao conceito de “cosmopolítica”, proposto por Isabelle Stengers
Trajetórias de uma Reserva Extrativista Marinha: um olhar sociotécnico
A Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé de Florianópolis constitui uma unidade de conservação de experiência singular, tanto por seu tempo de vida, como por situar-se no ambiente urbano de uma capital da região sul do país. Uma comunidade de pescadores e pescadoras artesanais constitui a "população tradicional" que se articula e vive da/na reserva, sendo que o extrativismo comercial do molusco berbigão (Anomalocardia brasiliana) constituiu a motivação central para sua criação. Neste texto, reconstruiremos trajetórias da pesca na comunidade da Costeira do Pirajubaé descrevendo o processo de emergência de uma rede sociotécnica que articulou-se em torno do "extrativismo sustentado do berbigão". A rede será caracterizada a partir dos quatro momentos doprocesso de tradução propostos por Callon (1995): problematização, interessamento, enrolamento e mobilização. Ao longo do processo de tradução, produziram-se diferentes deslocamentos que modificaram os objetivos e identidades dos atores em interação, conferindo dinamicidade à rede. Para os/as extrativistas de berbigão a garantia de sua autonomia de vida, que se faz na relação com o mar, é prioritária. Atualmente, a crise do extrativismo do molusco berbigão amplificou as controvérsias em torno da viabilidade do extrativismo no ambiente urbano. Se antes discutiam-se parâmetros para o "extrativismo sustentável", agora discute-se possibilidade para a recuperação dos estoque de berbigão assolados por uma mortandade repentina
Aprontamento como cosmopolítica: os corpos e seus outros na religião de Linha Cruzada
Esta comunicação apresenta as implicações possíveis entre a composição de corpos (humanos e extra-humanos) na religião de Linha Cruzada, a partir do processo de iniciação na religião (aprontamento) e a cosmopolítica afro-brasileira. Um dos objetivos é fazer um exercício político-epistemológico crítico aos essencialismos que ligam a religião afro-brasileira ao escopo do simbólico e das “crenças”. Discute-se como a iniciação afroreligiosa (que opera diferentes procedimentos e dosagens nos e dos corpos, das substâncias, das forças e do axé) se constitui como possibilidade de relações alargadas com outras agências e devires dos e nos pluriversos e percursos cosmo-ontológicos. Podemos ver corpos não mais individuais, fechados, e sim “dividuais”, “fractais” e abertos às diferenças. O corpo é criado, aprontado, preparado para receber a incorporação e é nos corpos que os acontecimentos irrompem. A conectividade e o jogo das diferenças que compõem a lógica rizomática da Linha Cruzada indicam elementos-chave para compreender outros modos de existência nos quais a política e suas relações envolvem diferentes perspectivas. O texto explicita que o processo iniciático diz respeito à possibilidade de apreensão, composição e afetação entre corpos e perspectivas diversas (entidades, deuses/as, animais, plantas, substâncias, espíritos), aportando-se a vivência etnográfica do autor junto a dois terreiros do Rio Grande do Sul
Corpos cotidianos: matéria, movimento e ornamento
Em diálogo constante com a obra-experimentação de Fernand Deligny, faço o exercício de reexaminar alguns processos de criação e experimentação em dança contemporânea realizados em torno do NUCCA- Núcleo de Cultura Corpo e Arte (São Paulo). Nosso reexame tem um horizonte conceitual: um cotidiano ornado
“Mantenha distância dos macacos”: notas sobre as interações entre humanos e um grupo de macacos-prego no Parque Nacional de Brasília
O Parque Nacional de Brasília é uma unidade de conservação e um local aberto à visitação que acolhe as mais diversas espécies do cerrado brasileiro, entre elas, o macaco-prego (Sapajus libidinosus). O encontro cotidiano entre humanos (visitantes, cientistas e servidores) e não-humanos no parque permite e promove os mais diversos tipos de interações mútuas. A partir do estudo etnográfico realizado no parque junto aos primatólogos, é possível elaborarmos uma profusão de indagações a respeito das relações intersubjetivas entre pesquisadores, macacos-prego e visitantes, revisando o conceito de domesticação, no sentido de que, o contato entre os agentes desta relação faz com que comportamentos, técnicas e procedimentos específicos sejam acionados e constantemente transformados com o contato, por exemplo, as técnicas cientificas, entre os cientistas; a extrema proteção de objetos pessoais, entre os visitantes, e as variações de conduta dos macacos, desafiando a dicotomia doméstico/selvagem
Experimentações preliminares a caminho de uma etnomusicologia de multiespécies
Quando a compulsão humana consegue modificar a biota/paisagem de uma região do planeta — compulsão traduzida pela monomania “agro pop”, pecuária, garimpos/mineração, extração de madeira, etc. — e que, em função desta o clima, por exemplo, é alterado, o anthropos pode ou precisa ser tomado como agente geológico? Pelo Menos, parece ser essa a questão, que determinada proposta recente outorga. Tema, que à luz de alguns estudos, tem tomado algum espaço no debate antropológico. Para os Ka’apor (Povo de língua Tupi, habitantes da Terra Indígena do Alto Turiaçu no Maranhão) desde suas narrativas ou mitos de criação, pessoas surgiram do tronco de algumas árvores, sendo estas o pau-brasil, jatobá e do pau-d’arco. Nomeadamente, o herói mítico e avós ancestrais, Mair, Trotó (ancestral Ka’apor segundo discurso mítico) e Kapiõ (ancestral dos Urubu-rei) (Geraldo Ka’apor, 2011, p. 17-20). Implícita a importância concedida por este povo aos seres de caule lenhoso do reino vegetal, uma vez que sua origem lhes está diretamente associada. Afronta colossal quando a “alienação que transforma […] seres em recursos” (tsing, 2015, p. 2–34) lhes tem tomado entre outras o jatobá, o pau-d’arco da TI do Alto Turiaçu. Aqui implícita a devastação das “paisagens e ecologias” que nos fala a autora (Ibid.). Posto isto, minha intenção nesta exposição será mesclar uns poucos enunciados relativos ao “Antropoceno” e em sequência refletir sobre algumas categorias vigentes na antropologia (Xamanismo = antropomorfismo versus antropocentrismo: Prelúdio ontológico) com o objetivo de experimentar alguns cruzamentos entre tais predicados e alguns pontos de minha pesquisa sobre música e xamanismo Ka’apor. Ideias que vejo como contributo (ainda que longínquo) a uma possível etnomusicologia de multiespécies (aqui influencia clara (Hill, 2014, p 39) quanto a uma etnografia de multiespécies)
Corpo, gênero e ciência nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde: reflexões sobre corpos grávidos e uma “maternidade positiva”
Nas últimas décadas, o movimento pela humanização do parto no Brasil vem propondo e implementando mudanças na assistência que visam desestimular o “parto medicalizado” e incentivar o uso de práticas “humanizadas”. Estas práticas, respaldadas pelas “evidências científicas”, privilegiam a utilização de tecnologias consideradas mais adequadas em detrimento daquelas tidas como danosas. Essas transformações no modo de parir, e também no de gestar e maternar, que estão no cerne de políticas públicas no Brasil, seguem as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Este trabalho busca expor reflexões iniciais acerca de uma publicação norteadora das práticas dos defensores da humanização, disponibilizada no site da OMS. Mais especificamente, irei descrever e analisar algumas intervenções médicas e não médicas realizadas de forma rotineira durante o pré-natal, para buscar compreender como tais intervenções podem influenciar a construção de representações sobre corpos de “mulheres grávidas” e uma “maternidade positiva”
Sobre ser uma fêmea chimpanzé: a primatologia e as naturezas da diversidade sexual
A emergência da primatologia moderna, que previa construir a história evolutiva do Homem a partir do estudo de primatas, é devedora de seres descreditados de uma humanidade: as mulheres e os chimpanzés. Jane Goodall foi uma das pioneiras no estudo de primatas em seus ambientes nativos e traz a narrativa de uma chimpanzé, a Gigi, que se comportava de forma semelhante a um macho de sua espécie. Margaret Mead situou os padrões sexuais na cultura, e talvez chamaria Gigi de “inadequada”. Mas a antropologia tem dedicado esforços em denunciar o etnocentrismo e o antropocentrismo contidos na concepção de Homem, oposto à natureza – nesses parâmetros, a chimpanzé incompleta como fêmea não teria nada a contribuir a uma natureza entendida em termos de sua utilidade estrita ao enriquecimento daquele sujeito universal. Entretanto, narrativas primatológicas podem oferecer histórias alternativas. Seria possível, assim, pensar uma diversidade sexual natural-social, que enriqueça animais com humanos