Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Acidentes nucleares e seus processos de publicização: notas sobre um trabalho de campo em Caetité/Ba.
O restrito debate em torno da produção de energia nuclear no Brasil, envolvendo quase que exclusivamente os especialistas do setor, parece sugerir ausência de reflexão sobre o ciclo de produção da energia no país. Dois problemas podem ser colocados a partir dessa ligeira percepção sobre uma possível ausência de discussão sobre a questão. A primeira está relacionada à presença/ausência de outros atores sociais além dos especialistas do setor; e a segunda, um desdobramento, aponta para os modos de existência do nuclear na heterogeneidade dos atores envolvidos nos diversos problemas que surgem com a sua produção. Neste sentido, este trabalho parte de notas, observações e registros dos atores de uma pesquisa para discutir os problemas que envolvem o nuclear a partir de traços localizados e seus desdobramentos em cenários deslocados do local e seus esforços para tornar a questão um problema que poderíamos considerar público. Osrelatos, apontamentos, relatórios e documentos reunidos até aqui sugerem uma árdua tarefa dos atores em produzir "publicizações" dos diversos problemas decorrentes da extração do urânio na região de Lagoa Real, município do Estado da Bahia, e o modo como tais problemas tem ramificações que extrapolam seu contexto local. Parte-se então de um suposto teórico-metodológico que informa seguir os processos de publicização nos quais produzem e se envolvem os atores sociais relacionados à questão da extração do urânio e o nuclear
Humano Ex Machina: fronteiras entre inteligência artificial e consciência
Tendo como base o filme Ex Machina, este trabalho pretende mapear a confusão de fronteiras nas representações de máquinas que pensam no cinema, robôs conscientes, relacionando com filmes clássicos e atuais que tratam do assunto. Mais do que uma explicação fechada, a intenção é pensar a proximidade das construções de narrativas ficcionais com o discurso científico e a potência da arte como catalisador para reflexões de questões políticas tecnocientíficas de onde mora a “consciência humana” e sua suposta superioridade com as diversas formas de inteligência artificial com as quais convivemos já há décadas. Inspirado diretamente na antropologia ciborgue de Donna Haraway, este trabalho pretende tomar o lado do “outro”, para falar de “nós”, e dar a mesma seriedade para as “ficções” quanto para as “realidades”. Os limites colocados (e progressivamente transgredidos) por essas outras inteligências não-humanas nos permite colocar em perspectiva outras questões, como a relação entre mente, corpo, gênero, sexualidade, a vigilância contemporânea, etc
Controvérsias entre concepções de paisagens e a dinâmica da ocupação Kaingang: antropologia, história e arqueologia nas políticas de colonização e demarcação de terras no sul do Brasil
As controvérsias entre a arqueologia, a história, a antropologia e a territorialidade kaingang articulam-se às transformações do seu território, em conseqüência da usurpação de terras tradicionalmente ocupadas e das regras que estão em jogo na política fundiária do órgão responsável (FUNAI). Entende-se que esta dinâmica de ocupação do espaço deu-se a partir de uma série de eventos (expedições militares e cientificas, construção de estradas e criação de aldeamentos) e, entretanto, num dado momento, a organização política e territorial do espaço colonizado, ao invés de verificar o simples abandono do território pelos indígenas, corroborando a visão colonialista da ausência de cultura e/ou de vazio demográfico, formuladas em diversos momentos, insere-se num contexto em que a reivindicação de terras e a memória social estão associadas a uma paisagem ameríndia, efetivamente povoada com vestígios de acampamentos e assentamentos ancestrais. Considerando que este processo histórico é constituído por argumentações e práticas que se sustentaram nos termos do Grande Divisor (Latour, 2000), este estudo visa contrastar as formas e o conteúdo destas ciências e a hermenêutica jurídica, principalmente no que se refere às atuais condições políticas em que o marco temporal tem pautado a política do órgão responsável e a dinâmica socioespacial kaingang no sul do Brasil
A era das consequências - o par clima-consumo nos ODS e no Acordo de Paris
A era do consumo sem consequências acabou, disse Ban-ki Moon, então Secretário das Nações Unidas quando foi assinado o Acordo de Paris. O Acordo foi aprovado sob a forte imagem retórica de uma civilização que, ao devorar os recursos naturais do planeta em função do consumo como estilo de vida, regurgita consequências ambientais extremas, irreversíveis e de escala inédita. A mesma ideia está presente nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS): os Objetivos são apresentados como interligados, e o Objetivo 12 aborda diretamente a agenda da produção e do consumo sustentáveis, tendo no horizonte a questão climática, enquanto os Objetivos 11 e 13 abordam a questão climática, tendo no horizonte aspectos relacionados, entre outros, ao consumo individual. No debate de muitas nuanças que constitui a noção de uma mudança global do clima causada pela ação humana no mundo, questões da ordem do consumo ganharam centralidade recentemente, reverberando polêmicas como, entre outras, a atribuição de causa antropogênica à mudança global do clima (a partir do AR4 do IPCC); e a proposição do recorte geológico do Antropoceno como uma nova era. Em tal contexto, os ODS e, posteriormente, o Acordo de Paris emergem como documentos de cunho aspiracional que, embora, por definição, estejam distantes da vida ordinária na sociedade de consumidores e sua profusão de coisas e tipos sociais, se tornaram mais prócimos e impactam diretamente a abordagem das políticas públicas que lhes dizem respeito, como a política do clima e da produção e do consumo sustentáveis no Brasil. Este texto se ocupa do advento destes dois documentos – os ODS e o Acordo de Paris - como marcos discursivos decisivos na estabilização do par consumo-clima como uma agenda prioritária da governança ambiental
A Natureza dos Serviços Ecossistêmicos. Um olhar sobre uma controvérsia sociotécnica.
Atualmente as mudanças climáticas são o eixo principal das controvérsias políticas e científicas sobre o estado atual de degradação do meio ambiente. Os estudos da ciência tem ajudado a apontar lacunas no debate e na subsequente elaboração de políticas a partir dos relatórios do IPCC, apontando o desequilíbrio entre ciências naturais e humanas, a prevalência da Ciência Econômica dentre as últimas e a ausência de outros regimes de conhecimento como os índigenas e locais. Contudo, ao centrarem-se nas controvérsias ao redor das modelagens climáticas outras facetas do colapso ambiental ficam em segundo plano, como a perda de biodiversidade, a erosão genética e a insegurança alimentar.Criado em 2012, a Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos da ONU (IPBES) é uma plataforma de Science-Policy que visa elaborar relatórios de diagnósticos regionais e globais tendo com um de seus imperativos a inclusão dos indigenous local knowledges (ILK). Como a plataforma é um projeto de trabalho ambicioso e complexo este trabalho busca escrutinar as problemáticas envolvidas em plataformas de ciência e política pública a partir dos estudos sociais da ciência e analisar somente as primeiras controvérsias surgidas no âmbito da elaboração do Marco Conceitual que estrutura os trabalhos do IPBES e o que se pode esperar da incorporação destes regimes de conhecimentos outros na plataforma
A Produção de um Conceito de Educação nas Propagandas Escolares
A pesquisa que ora se apresenta tem por objetivo verificar o conceito de educação disseminado nas propagandas das escolas particulares que trabalham com pré-vestibular na cidade de Petrópolis. Para tanto uma pequena revisão sobre a história da educação foi realizada com o intuito de compreender as transformações ocorridas nesse campo durante os séculos. O aporte teórico que orientou essa pesquisa diz respeito ao conceito de produção de subjetividade e a teoria ator-rede de Bruno Latour (2012), nesse sentido as propagandas foram acompanhadas como atores que agem nessa complexa rede de relações entre humanos e não humanos e que tem o potencial de produzir subjetividades. As escolas selecionadas foram o CEMB, MV1, Pensi e pH. Através de uma pesquisa de campo, todas as propagandas veiculadas nas páginas do Facebook dessas escolas entre os dias 29 de maio de 2015 até o dia 29 de maio de 2016, foram selecionadas para a análise. A técnica utilizada se constitui na análise de conteúdo de Bardin (1977). As categorias revelaram que o conceito de educação disseminado nas propagandas dessas escolas dizem respeito à uma educação que valoriza o acesso à universidade, com o objetivo de conseguir bons empregos e melhores salários, uma educação voltada para o mercado de trabalho. Em menor escala se manifestaram categorias que tangem a uma educação que ultrapassa a maneira tradicional de ensinar. A pesquisa se justifica pelo imenso número de propagandas de escolas particulares que circulam nas páginas do Facebook dessas instituições. Além disso, existem poucos estudos sobre essa temática. Essa pesquisa lança luz para discutir o conceito de educação formulado por essas escolas e possibilita compreender as subjetividades que elas podem produzir
A VALORIZAÇÃO DOS SABERES DOCENTES NA CONSTRUÇÃO DO ALMANAQUE DE ESPAÇOS NÃO FORMAIS DE ENSINO DA REGIÃO METROPOLITANA DE RIBEIRÃO PRETO
Cientes de que os professores, a partir de suas próprias práticas, estruturam, ressignificam e orientam seus trabalhos, o GRUPO de estudos da localidade – ELO do Laboratório interdisciplinar de formação de educadores – LAIFE da USP campus Ribeirão Preto - SP, em parceria com professores e alunos de diversos segmentos do ensino, construiu o Almanaque de espaços não formais de ensino da região metropolitana de Ribeirão Preto - SP. O objetivo de referida iniciativa, foi reunir práticas e experiências dos docentes e alunos envolvidos para a proposição de atividades norteadoras que possibilitam um olhar analítico dos espaços geográficos dos municípios da região metropolitana de Ribeirão Preto - SP. O processo de elaboração do almanaque foi organizado em etapas que envolveram reuniões de planejamento e pesquisa sobre possíveis espaços não formais de ensino, visitas aos espaços não formais de ensino, avaliação dos espaços visitados para composição do almanaque, reuniões para elaboração das propostas de atividades, descrição dos espaços e das atividades em grupos de professores e posterior reunião para revisão e validação dos materiais elaborados. Ao longo desse processo, pudemos perceber que em diversos momentos. A mobilização dos saberes docentes oriundos da formação profissional, da experiência, e dos conhecimentos disciplinares, construídos ao longo exercício da docência dos educadores envolvidos aflorou por meio de debates. Tais saberes se revelaram, também, na elaboração das atividades ou relatos de práticas já realizadas nos espaços não formais de ensino ou locais análogos aos mesmos. Como produto final, obtivemos um compilado que reúne espaços não formais de ensino com sugestões de atividades, descrições, contatos, iconografia e referências bibliográficas para aprofundamento histórico e geográfico de cada espaço. As atividades descritas no almanaque se configuram como uma reunião de diferentes saberes desenvolvidos por meio da prática de um coletivo de docentes da mais variada atuação e por isso, reflete a riqueza que professores podem nos ofertar ao compartilhar os relatos de suas jornadas nos processos de ensino e aprendizagem, quer seja nas salas de aula ou fora dos muros da escola. 
UMA ANÁLISE DO ENSINO MÉDIO TÉCNICO E O ENSINO DE GEOGRAFIA NA BAIXADA FLUMINENSE/RJ
Pensar e pesquisar o ensino de Geografia no mundo atual urge a necessidade de uma visão holística acerca das diversas abordagens educacionais no que tange às redes escolares. Não obstante, o ensino técnico/tecnológico carrega consigo diversas possibilidades de análises e questões no que tange à disciplina de Geografia, uma vez que os cursos, em sua maioria, são dedicados à preparação do sujeito para o mercado do trabalho. Sob esse ponto de vista, surgem questões como: para que serve a geografia nos cursos de ensino técnico/tecnológico? Em que essa disciplina pode acrescentar aos formandos desse sistema de ensino? Quais são a possíveis mudanças sociais que uma escola técnica pode ocasionar em determinados territórios? A pesquisa apresenta-se em sua fase inicial, no entanto, já podemos tecer algumas reflexões acerca destas questões e outras mais que vão surgindo ao longo da escrita
DA LAMA AO CAOS: A TRAGÉDIA DE MARIANA (MG) SOB O OLHAR DA HISTÓRIA IMEDIATA E DO ENSINO DE GEOGRAFIA A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA INTERDISCIPLINAR
O objetivo do pôster é fazer um relato de experiência da nossa participação como acadêmicos dos cursos de licenciatura da Unioeste e atuação no Projeto de Extensão “Observatório do Mundo Contemporâneo”. Esse projeto surge com a premissa de abordar acontecimentos através de uma óptica problematizadora sendo desenvolvido por graduandos e pósgraduandos dos cursos que integram o Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras – CCHEL, através da Pró-reitora de Extensão Universitária - PROEX da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, Campus de Marechal Cândido Rondon. O artigo enfoca dois anos de participação dos acadêmicos do curso de História e Geografia no Observatório do Mundo Contemporâneo – OMC e as contribuições para o ensino de Geografia. Mostraremos que com o projeto foi possível dar suporte no ensino de Geografia em escolas públicas e contribuir com a formação de futuros professores a partir da familiarização com o ambiente escolar. Executa-se, em parceria com os professores já atuantes no ensino, uma dinâmica interdisciplinar relativa aos temas propostos; seja através da elaboração de material apresentado e das discussões levadas às salas de aula ou no auxílio prestado aos professores, quando nos solicitam, a trabalharem os assuntos que muitas vezes não se encontram nos conteúdos programáticos dos livros didáticos. Por isso, o tema sobre barragens contempla um importante escopo da Ciência Geográfica e Histórica e possibilitou trabalhar importantes elementos que configuraram o crime socioambiental cometido pela mineradora SAMARCO, rememorado os fatos acontecidos e seus desdobramentos, a socialização dos prejuízos. Por fim, a experiência do projeto de extensão permitiu adquirir um convívio com a docência através do contato com as salas de aula e uma aquisição de conhecimentos variados ao trabalhar os temas escolhidos na realização das atividades junto a estudantes do Ensino Fundamental, Médio e Universitário
LIVRO DIDÁTICO DE GEOGRAFIA: NARRATIVAS, POVOS DO CAMPO E A PRODUÇÃO DE “NÃO-EXISTÊNCIA”
O texto se insere no âmbito dos estudos sobre livro didático, um artefato discursivo, produtor de narrativas, racionalidades e visões de mundo. O trabalho resulta de uma investigação realizada com obras didáticas de Geografia aprovadas no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD/edital 02/2015), destinadas aos anos finais do Ensino Fundamental. Do ponto de vista metodológico, cabe destacar que em função da dispersão de dados acumulados na referida pesquisa, utilizamos como corpus analítico neste trabalho apenas informações retiradas da coleção Projeto Apoema, cujo o conteúdo nos interpela quanto ao tratamento dado aos povos do campo. Nessa perspectiva, a investigação moveu-se a partir das seguintes questões: De que modo os povos do campo aparecem no livro didático de Geografia? Quais narrativas imperam na abordagem dos conteúdos? Na análise empreendida, a pesquisa revelou a presença hegemônica da narrativa urbana, face ao “apagamento” dos povos dos campos nos livros didáticos de Geografia. Tal “ausência” manifestou-se de forma excludente, destrutiva e silenciosa, produzindo, de certa maneira, a “não-existência” desses povos. Isso posto, consideramos imprescindível a proposição de outras racionalidades e epistemologias nos livros didáticos, desta vez, partindo de narrativas que ampliem as experiências, bem como os quadros de realidade e incluam o mundo da vida dos povos do campo, que de acordo com a história tiveram suas espacialidades e faces negadas