Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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    A (re)invenção da carne: controvérsias e potências da carne artificial

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    Tendo em vista a acelerada deterioração ecológica e social ocasionada por um modelo agroalimentar ineficiente e injusto, se torna necessário pensar novas formas de alimentar a humanidade. Nesse sentido, a invenção encontra na alta tecnologia uma aliada para produção de um dos insumos mais populares do mundo: a carne. A invenção da carne artificial fomenta inúmeras discussões a respeito de suas origens e de suas possibilidades, principalmente entre pessoas que colocam em cheque a legitimidade ontológica e a segurança desse novo ingrediente. De modo a embasar o debate a respeito da invenção da carne, considerando suas controvérsias e suas potências, este artigo discute essas questões sob a ótica da invenção de duas novas maneiras de produzir carne: à base de plantas e in vitro, ambos realizados em laboratório

    “Se faz o caminho ao andar: uma etnografia junto a mulheres indígenas Kaingang.”

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    "Aprende-se, lendo o mundo o tempo inteiro", colocou Dorvalino Refej no II Encontro Regional de Estudantes Indígenas da Região Sul (2017), que aconteceu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A partir de uma etnografia junto a mulheres kaingang estudantes da UFRGS, das abordagens da antropologia da educação, bem como da episteme de conhecimento do povo kaingang objetivo discutir o modo como diferentes formas de estar, ensinar e aprender navegam nesta instituição. Práticas que subvertem o colonialismo dentro do seu próprio sistema. O esforço etnográfico está em perceber uma educação que acontece: nas mudanças nos modos de participação; no aconselhamento entre regré (pessoas da mesma metade patrilinear); na relação com instituição de ensino (aqui, um ser Kamé); no ir e vir das terras indígenas à cidade; na atuação no plano sociológico do kujá, um educador que é menos um guardião de fins e mais um catalizador de começos. Que faz escola levando para fora, destravando a imaginação

    Mundos em fuga: nos caminhos dos Pataxó de Gerú Tucunã

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    Neste texto, parte-se de um exercício etnográfico iniciado na Terra Indígena Gerú Tucunã do povo pataxó, no município de Açucena – Minas Gerais. O que me moveu ao Leste, foi, dentre outras coisas, a possibilidade de descrever as práticas de habitar dos Pataxó e suas relações com as alteridades, humanas e não humanas, que atravessam o seu mundo e repercutem de diferentes maneiras sobre a sua condição de pessoa. O grupo de 65 indígenas que hoje vive no Parque Estadual do Rio Corrente, onde se localiza a TI Gerú Tucunã, se deslocou da TI Fazenda Guarani para Açucena, em julho de 2010. Nessas observações etnográficas, além de registrar narrativas sobre os seres da cosmologia local, também tenho me inclinado a compreender as distintas razões, ecológicas, espirituais e ontológicas que os moveram na busca de um novo lugar para viver

    Invenção como política de sobrevivência: uma reflexão a partir do documentário Khiam (2000-2007)

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    Seis prisioneiros sobreviventes do campo de detenção de Khiam, no sul do Líbano e à época ocupada por tropas israelenses, relatam para as câmeras de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige o período de reclusão e torturas sofridas em minúsculas celas sem a mínima infraestrutura. Na primeira parte do documentário Khiam (2000-2007), os recém ex-prisioneiros contam em detalhes o cotidiano do campo e suas estratégias de sobrevivência. Na segunda parte, oito anos após a retirada das tropas israelenses em maio de 2000 e consequente desmantelamento do campo, que se transformaria posteriormente em uma espécie de museu com fins turísticos, os autores do documentário reencontram os mesmos seis ex-prisioneiros que se sentem chocados ao perceber a divergência entre a imagem advindas de suas narrações e aquela construída em torno do campo a posteriori, com sua destruição total em 2006 durante o conflito Israel-Líbano. No entanto, pequenos artefatos utilitários e/ou artísticos por eles fabricados, nas condições mais precárias, testemunham uma interessante relação que desaparece nos relatos oficiais, qual seja, a relação entre invenção, imagem, vida e política. Esse ensaio pretende, a partir desse documentário apresentado junto aos objetos numa retrospectiva das obras dos autores exibida no museu Jeu de Paume (PARIS) em 2016, refletir sobre essa relação entre invenção, imagem, vida e política na contemporaneidade, em que a percepção imagético-narrativa dos fatos parece cada vez mais construída e induzida, tornando-se um campo para resistência

    Vida no chão: Uma etnografia arqueológica entre garimpeiras de São João da Chapada – MG

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    Esta apresentação se baseará em uma etnografia sobre os lugares habitados, produzidos por e produtores das mulheres de São João da Chapada, distrito de Diamantina/MG. Lugar constituído por atividades de garimpo e mineração desde o século XVIII, atividades que não eram praticadas apenas por homens adultos. Com a proibição e crescente marginalização das práticas extrativas tradicionais as famílias, principalmente as mulheres, têm se sustentado com agricultura familiar, atividades de coleta de flores, frutas e vegetais e o trabalho fora de casa. Planejo, nesta apresentação, trabalhar com alguns conceitos centrais da chamada virada ontológica e das discussões pós-coloniais. Com base em meu trabalho de monografia e a partir das informações etnográficas disponíveis sobre São João da Chapada, vejo a necessidade de outros tipos de contribuições teóricas e etnográficas sobre as populações não-urbanas que não necessariamente se consideram ou podem ser consideradas pela academia como “camponesas” (enquanto categoria social, campo de estudo classicamente influenciado pela teoria da etnicidade e o marxismo). Considero necessário colocar em foco os conhecimentos locais em contraposição a uma pesquisa baseada nas representações coloniais dopensamento ocidental, reconhecendo como algumas das teorias base do pensamento social da antropologia e da arqueologia realocam e distanciam as relações entre e com as coisas. Inspiro-me em trabalhos que propõem que as investigações devem ser conduzidas com um contínuo questionamento da linguagem científica e das epistemes que conformam os marcos teórico-científicos que vem estruturando as práticas antropológicas e arqueológicas, fazendo uma crítica ao uso dos métodos tradicionais nestas disciplinas no processo de entendimento de modos de vida que não se encaixam nas noções ocidentais que os baseiam. Discutindo assim, também, a continuidade da construção de saberes contra-hegemônicos na antropologia e arqueologia

    O território mapuce enquanto conhecimento

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    Para os Mapuce que vivem no norte da Patagônia argentina o conceito de território coloca-se em oposição ao conceito de “terra”, em meio ao cenário de luta que travam com o governo e as petroleiras. Entretanto, o território mapuce aponta muito além deste binarismo. Pretendo tratar do desdobramento do território enquanto um “conhecimento que segue retornando”. Mesmo com toda a violência resultante das campanhas militares que originaram os atuais espaços nacionais argentino e chileno – especialmente ao longo do século XIX – os Mapuce seguem “vivos e de pé”. Para os próprios Mapuce isso só é possível porque o conhecimento está no ou é o próprio território: ele não se origina nos humanos ou restringe-se a eles, por ser um dentre os diversos fluxos de forças que povoam, conformam e interconectam os diversos planos do território-cosmos. Cada pessoa possui sua própria origem familiar e uma origem territorial, conceitos que mesmo apresentados como distintos são inseparáveis. E o conhecimento do mundo é entregue a cada pessoa justamente nestecruzamento família-território ao qual pertence

    “Ser gente”, “estar gente”: a “humanidade” em relação na ontologia dos candomblés.

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    Desde, pelo menos, a publicação da obra seminal de Roy Wagner (1975), e sob um movimento que, sobretudo nos últimos vinte anos, ganha cada vez mais força, a antropologia passa pelo que Amiria Henare, Martin Holbraad e Sari Wastell (2007) chamam “uma revolução silenciosa”, sem que haja, de qualquer parte, a reivindicação de um novo paradigma teórico. Autores diversos, com seus interesses, campos etnográficos e criações conceituais particulares, parecem coincidir no apontamento das insuficiências e assimetrias das partições ontológicas “ocidentais” – natureza e cultura, humanos e não-humanos, real e imaginário etc. – para lidar com os interlocutores nativos de suas pesquisas, especialmente quando se pretende encará-los mais enquanto “parceiros” do que como “objetos” de conhecimento. Desse rastro, minha intenção neste trabalho é, primeiramente, sistematizar a hipótese já lançada por Márcio Goldman (2014, 2015), dentre outros, de que nosmundos “afroindígenas” – ou, então, “não-brancos” – tendem a prevalecer as ontologias marcadas pelas “multiplicidades”, ao invés das fundadas nos “cortes identitários”. Feita essa breve síntese, pretendo levantar – com base em outros escritos, mas também por inspirações advindas de minhas experiências em um terreiro paulistano – a possibilidade de, nos candomblés, dado esse caráter “múltiplo”, a “humanidade” se construir em posições relacionais que se alteram mediante os agentes cósmicos dispostos situacionalmente, como, por exemplo, nos sacrifícios e possessões

    Saberes da natureza: a ressignificação do alimento a partir de performances ecológicas

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    A alimentação caracterizada como agroecológica, orgânica, macrobiótica, biodinâmica  entre tantas outras modalidades sugerem uma reflexão interessante; a comida é adjetivada e atribuída  de sentidos nutricionais, tanto fisiológicas como espirituais. A partir de uma etnografia em uma feira  agroecológica na cidade de Porto Alegre, identificou-se um envolvimento denso do público com a  alimentação a partir de diferentes imaginários de natureza. O trabalho de campo proporcionou  vivências em festividades nas propriedades de feirantes que uniam produtores e consumidores e que  abrem espaço para reflexões sobre ritualizações ecológicas e sobre a sacralização da natureza a partir  da noção de um “alimento para alma”. Nesse sentido, traça-se um debate sobre concepções de pureza  e impureza a partir de uma modalidade de consumo atribuída de sentidos morais, políticos, afetivos  e nutricionais que se manifestam em oposição à artificialidade referida ao agronegócio. Em última  instância, trata de um consumo que dicotomiza dois mundos, o “mundo da natureza”, como repulsa a concepção de um “mundo tóxico”

    “Corpo de monstro, mente de cientista”: contradições nos discursos médicos e leigos acerca do uso da testosterona como anabolizante muscular

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    A biopolítica contemporânea segundo Clarke et al e Nikolas Rose é marcada por uma molecularização da vida e por um intenso recurso a biotecnologias, em especial para tratamentos farmacológicos. Essa perspectiva mantém e aprofunda a teoria hormonal do corpo descrita em Oudshoorn e Rohden, e (re)constrói os hormônios sexuais como mensageiros químicos do gênero. Torna-se então estratégico pensar como homens usuários de anabolizantes recorrem à testosterona para "esculpir" um corpo ideal que literalmente incorpora atributos característicos da masculinidade. É comum o relato de um "preconceito" das ciências médicas com a utilização de esteroides androgênicos, cujos riscos seriam supervalorizados e estereotipados, baseados num estigma que reduz o uso a uma futilidade. Em resposta, esses homens se dedicam a intensas pesquisas sobre efeitos e riscos das substâncias que vão desde o acompanhamento de fóruns da internet e publicações especializadas até a busca por pós-graduações em áreas afins. Assim, se tornam superespecialistas, produzindo conhecimentos paralelos e até mais aprofundados ao da biomedicina. A proibição do uso e do comércio de anabolizantes é considerada mais política que sanitária, gerando uma inversão hierárquica dumonsiana, no qual o espaço ilegítimo da ilegalidade apresenta um rigor científico e uma altíssima competência médica, nos termos de Boltanski, ao passo que o espaço legítimo do uso legal com acompanhamento médico aparece revestido de mitos e estereótipos

    Experiências de saúde entrelaçadas: as compreensões do povo indígena Kapinawá sobre as articulações entre os saberes e as práticas de saúde indígenas e biomédicos

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    Os sujeitos, quando enfermos, recorrem a diferentes terapêuticas e tratamentos, podendo ou não articular diferentes saberes e práticas de saúde ou acessar essa articulação pelo sistema público de saúde. No caso dos povos indígenas, a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) define como diretriz a articulação com o sistemas tradicionais indígenas de saúde, mas essa questão não vem se realizando devidamente no cotidiano destes povos. O que merece nossa atenção é mapear e entender como esses sujeitos criam, elaboram suas próprias formas de lidar com a articulação de saberes e como eles compreendem, vivenciam a articulação entre sistemas médicos proposta pela PNASPI. O trabalho aqui apresentado se trata de uma primeira tentativa de expandir a discussão teórica e os delineamentos metodológicos definidos para a realização de meu projeto de pesquisa de dissertação de mestrado a ser desenvolvido ao longo do ano de 2017 e 2018 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco. Tendo em isso em vista, não irei apresentar aqui resultados de uma pesquisa já concluída, mas sim, explorar conceitualmente o tema e objeto da pesquisa a fim de levantar algumas questões e possibilidades de caminhos para uma pesquisa na área da Antropologia da Saúde e Antropologia Indígena. No primeiro tópico deste texto apresento alguns dados históricos a respeito da atenção à saúde dos povos indígenas no Brasil; no segundo tópico apresento e discuto alguns dos conceitos teóricos que pretendo utilizar na pesquisa; e no terceiro e último tópico exponho como cheguei a este objeto de pesquisa e como pretendo, metodologicamente, realizar a pesquisa junto ao povo indígena Kapinawá

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