Revista de Arqueologia (SAB - Sociedade de Arqueologia Brasileira)
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Editorial
A Arqueologia surge como parte de um projeto capitalista de construção do passado para sustentar um determinado modelo de poder.Passaram-se quase cem anos para que a arqueologia se indisciplinasse (HABER, 2011) e começasse assim a questionar criticamente as narrativas universalizantes sobre as quais se sustenta o sistema, mostrando que duas das características mais perversas do capitalismo se fazem presentes na prática disciplinária: primeiramente, o capitalismo tem a capacidade de absorver a critica, de transformá-la, de esvaziá-la de seu sentido original e trazê-la de volta, desta vez com enunciados sem conteúdos ou até como mercadoria; e em segundo lugar, a perversão do capitalismo se dá na medida em que sua legitimidade se baseia na renuncia voluntária das pessoas em favor de um falso bem associado ao materialismo
Arqueologia de Contrato e Povos Indígenas: Reflexões sobre o contexto brasileiro
O projeto governamental brasileiro de desenvolvimento econômico tem gerado o recrudescimento do desrespeito pelos povos indígenas no Brasil. Em reação, eles se mobilizam para garantir a sua autodeterminação na gestão de suas terras e bens culturais. Nesta conjuntura, aumentaram as pesquisas colaborativas com estes povos no âmbito da arqueologia de contrato. A partir de casos específicos analisarei o modo como algumas destas pesquisas vêm sendo conduzidas e as conjunturas nas quais elas estão inseridas. Refletirei sobre tais práticas, especialmente, em relação à noção de colaboração, em um contexto onde os conflitos de interesses são a razão da presença do arqueólogo
Na beira da cava: Arqueologia, educação patrimonial e direitos humanos em Serra Pelada, Pará, Amazônia
Neste texto discuto a arqueologia de contrato na Amazônia brasileira e sua relação com o patrimônio e as comunidades locais, considerando as assimetrias produzidas pelos projetos de desenvolvimento de larga escala legitimados pelo Estado e reificados pela arqueologia. Ao examinar um projeto de educação patrimonial, concluo que tais iniciativas, ao invés de promoverem a inclusão social a partir do patrimônio, podem, de fato, aprofundar as desigualdades. Este estudo de caso reflete sobre os impactos dessas ações em Serra Pelada, uma vila de garimpeiros/as de ouro, na qual a dramática violação dos direitos humanos demonstra que o papel da arqueologia está além de seus contornos epistêmicos
O pseudo-sítio arqueológico da UFMG
A construção de um pseudo-sítio arqueológico, ou sítio arqueológico controlado, foi realizada na Estação Ecológica da Universidade Federal de Minas Gerais com o objetivo de simular um sítio arqueológico natural. Tal criação será importante para o aprimoramento de estudos arqueológicos em Minas Gerais. Além dos métodos clássicos de pesquisas arqueológicas, métodos geofísicos serão testados no pseudo-sítio como norteadores em pesquisas do gênero no Brasil e em especial na Zona da Mata Mineira. O pseudo-sítio consiste em uma cava de 9m2, circundada por uma faixa de 1m de largura, o que determina uma área de estudo de 25 m2. Foi criado um mapa contendo o entorno da cava e as posições das peças dispostas no seu interior. Dentre os artefatos estão fragmentos de vasos cerâmicos de diversas dimensões, ossadas de animais, vasos cerâmicos de diversos tamanhos e em posição espaçadas de forma irregular
A cerâmica arqueológica na T. I. Kaiabi (MT/PA)
Este trabalho apresenta os resultados do estudo inicial das características tecnológicas do material cerâmico arqueológico coletado na Terra Indígena (T. I.) Kaiabi, localizada na região do baixo rio Teles Pires (Mato Grosso/Pará). A análise deste material é continuação das atividades desenvolvidas nesta área durante o projeto “Arqueologia, Etnoarqueologia e História Indígena: um estudo sobre a trajetória de ocupação indígena em territórios do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul: a terra indígena Kayabi e a aldeia Lalima”, realizado entre 2006 e 2010, coordenado pela Profa. Dra. Fabíola Andréa Silva e com a colaboração dos indígenas que habitam ambos os territórios
Relacionalidad, prácticas, ontologías y arte rupestre en el centro norte de Chile (2000 A.C. A 1.540 D.C.)
Las ontologías son sistemas relacionales inconscientes que se producen y reproducen a partir de un conjunto de prácticas y materialidades. A través de ellas, nociones claves a la vida social como el concepto de persona, y de comunidad se construyen históricamente, así como la misma idea de animación de los objetos. En este trabajo esbozamos una aproximación a las ontologías prehispánicas en el Centro Norte de Chile usando las propuestas de Descola como recursos heurísticos para interrogar el registro y explorar las particularidades locales e históricas de los distintos sistemas ontológicos desplegados entre el 2000 a.C. y 1540 d.C. Usando el arte rupestre como ejemplo, exploramos un enfoque ontológico que no reifique al animismo como recurso interpretativo básico
Musealização da Arqueologia: Diagnóstico do patrimônio arqueológico em museus potiguares
As coleções arqueológicas quando em contextos museológicos são muitas vezes pouco articuladas com outros conjuntos patrimoniais, revelando relações que foram estabelecidas para com esses bens e evidenciando um processo de isolamento e esquecimento dos objetos arqueológicos enquanto constituintes das memórias locais, regionais ou nacionais. Esta "estratigrafia do abandono" é observada no Rio Grande do Norte a partir dos bens arqueológicos existentes nos museus Câmara Cascudo, Lauro da Escóssia, Seridó e Soledade. Assim, estudando realidades institucionais distintas, busca-se contribuir para a percepção não só do potencial informativo e comunicativo das coleções arqueológicas potiguares encontradas nesses museus, mas também tem-se por objetivo evidenciar a maneira como esse campo do patrimônio cultural brasileiro tem sido abordado no Rio Grande do Norte
A musealização da arqueologia: Um estudo dos museus de arqueologia de Xingó e do Sambaqui de Joinville
Este artigo tem como inspiração a tese de doutorado homônima, defendida em 2012 no Programa de Pós-Graduação em Arqueologia, da Universidade de São Paulo. Como premissa basilar, defendemos que existem barreiras, muitas vezes intransponíveis, entre a produção de conhecimento em arqueologia e a sociedade. Nesse cenário, os museus figuram como as principais janelas que se abrem entre o conhecimento construído em arqueologia e o público não especialista. Buscamos, com este artigo, identificar e apontar para aqueles ruídos que interferem nos fluxos de informações gerados pela cadeia operatória de musealização daarqueologia, por intermédio de um diagnóstico museológico, aplicado em dois estudos de caso: Museu de Arqueologia de Xingó (MAX) e o Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville (MASJ)
Gestão do patrimônio arqueológico no centro-oeste: contribuições para a Rede de Museus e Acervos de Arqueologia e Etnologia (REMAEE)
A reflexão sobre patrimônio arqueológico parte, neste texto, das perspectivas da Musealização da Arqueologia, como aplicação de procedimentos de salvaguarda e de comunicação patrimoniais à realidade arqueológica. Analisamos as estratégias que têm sido elaboradas e aplicadas pela Rede de Museus e Acervos de Arqueologia e Etnologia (REMAAE), especialmente em sua atuação no centro-oeste do Brasil, apresentando avaliações e perspectivas para a mesma
"A persistência da memória”… histórias não-lineares de arqueólogos e foqueiros na Antártica
Construir/inventar/interpretar o passado é a função básica do arqueólogo. Refletir sobre este processo se torna, portanto, ponto central da prática arqueológica. Por isso, neste trabalho me proponho discutir algumas ideias, relativas a um tema que considero central e que venho trabalhando ultimamente associadas a como se escrever em arqueologia (ZARANKIN & SEANTORE, 2012). Para isso, vou utilizar como exemplo algumas alternativas que começamos a implementar na pesquisa arqueológica que estamos desenvolvendo na Antártida desde 1995