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Governança e desgovernança após 30 anos de planejamento regional no Rio Grande do Sul: tinha um desastre no meio do caminho
Declaring a state of public calamity implies formal recognition of the state's inability to govern. In the period following the extreme event, insecurity about the re-establishment of law and order spreads. Uncertainties and insecurities do not exist on their own, but are produced through narratives forged in the heat of events that will shape the memory and identity of the communities affected. In this essay we seek to record and contextualize narratives constructed during the rains and flooding of April/May 2024 in Rio Grande do Sul that emphasized the erosion of state governance. This is an instigating phenomenon in a state renowned for its historic capacity for planning, both state and private, whose expertise in the direction of economic growth has been exported to other regions. We sought to reconstruct the versions of the event based on primary public documents. From a decolonial perspective, in addition to studies of the global North, we used the comparative analysis of disasters in Asia by S. Bandopadhyayde. For this author, there is no contradiction between governance and disasters, because disasters reinforce state organizations that seek to normalize events in order to preserve, or even expand, their decision-making power and access to new resources. In this sense, recording and debating narratives during disasters becomes part of resilience.Decretar o estado de calamidade pública implica no reconhecimento formal da incapacidade de governança pelo Estado. No período que sucede ao evento extremo vai sendo disseminada a insegurança quanto ao reestabelecimento da lei e da ordem. Incertezas e inseguranças não existem por si só, são produzidas mediante narrativas forjadas no calor dos acontecimentos que irão moldar a memória e a identidade das comunidades atingidas. Nesse ensaio procuramos registrar e contextualizar narrativas construídas durante as chuvas e a inundação de abril/maio de 2024 no Rio Grande do Sul que enfatizaram a erosão da governança estatal. Fenômeno instigante em um estado reconhecido pela sua histórica capacidade de planejamento, tanto estatal, como privado, cuja expertise quanto aos rumos do crescimento econômico foi exportada a outras regiões. Em uma perspectiva decolonial recorremos, além de estudos do Norte global, à análise comparativa a partir de desastres na Ásia por S. Bandopadhyayde. Para o autor não existe contradição, pois catástrofes reforçam organizações estatais que buscam normalizar os eventos visando conservar, ou mesmo ampliar, seu poder decisório e novos recursos. Neste sentido, o registro e o debate das narrativas durante os desastres tornam-se parte da construção da capacidade de resiliência.La declaración del estado de calamidad pública implica el reconocimiento formal de la incapacidad del Estado para gobernar. En el periodo posterior al acontecimiento extremo, se extiende la inseguridad sobre el restablecimiento de la ley y el orden. La incertidumbre y la inseguridad no existen por sí solas, sino que se producen a través de narrativas forjadas al calor de los acontecimientos que conformarán la memoria y la identidad de las comunidades afectadas. En este ensayo buscamos registrar y contextualizar narrativas construidas durante las lluvias e inundaciones de abril/mayo de 2024 en Rio Grande do Sul que enfatizaron la erosión de la gobernanza estatal. Se trata de un fenómeno instigador en un estado reconocido por su histórica capacidad de planificación, tanto estatal como privada, cuya experiencia en la dirección del crecimiento económico ha sido exportada a otras regiones. Intentamos reconstruir las versiones del acontecimiento basándonos en documentos públicos primarios. Desde una perspectiva decolonial, además de los estudios sobre el Norte global, recurrimos al análisis comparativo de las catástrofes en Asia de S. Bandopadhyayde. Para este autor, no hay contradicción entre gobernanza y desastres, porque las catástrofes refuerzan las organizaciones estatales que tratan de normalizar los acontecimientos para preservar o incluso ampliar su poder de decisión y el acceso a nuevos recursos. En este sentido, registrar y debatir las narrativas durante las catástrofes forma parte de la resiliencia
Governança e desgovernança após 30 anos de planejamento regional no Rio Grande do Sul: tinha um desastre no meio do caminho
Declaring a state of public calamity implies formal recognition of the state's inability to govern. In the period following the extreme event, insecurity about the re-establishment of law and order spreads. Uncertainties and insecurities do not exist on their own, but are produced through narratives forged in the heat of events that will shape the memory and identity of the communities affected. In this essay we seek to record and contextualize narratives constructed during the rains and flooding of April/May 2024 in Rio Grande do Sul that emphasized the erosion of state governance. This is an instigating phenomenon in a state renowned for its historic capacity for planning, both state and private, whose expertise in the direction of economic growth has been exported to other regions. We sought to reconstruct the versions of the event based on primary public documents. From a decolonial perspective, in addition to studies of the global North, we used the comparative analysis of disasters in Asia by S. Bandopadhyayde. For this author, there is no contradiction between governance and disasters, because disasters reinforce state organizations that seek to normalize events in order to preserve, or even expand, their decision-making power and access to new resources. In this sense, recording and debating narratives during disasters becomes part of resilience.La declaración del estado de calamidad pública implica el reconocimiento formal de la incapacidad del Estado para gobernar. En el periodo posterior al acontecimiento extremo, se extiende la inseguridad sobre el restablecimiento de la ley y el orden. La incertidumbre y la inseguridad no existen por sí solas, sino que se producen a través de narrativas forjadas al calor de los acontecimientos que conformarán la memoria y la identidad de las comunidades afectadas. En este ensayo buscamos registrar y contextualizar narrativas construidas durante las lluvias e inundaciones de abril/mayo de 2024 en Rio Grande do Sul que enfatizaron la erosión de la gobernanza estatal. Se trata de un fenómeno instigador en un estado reconocido por su histórica capacidad de planificación, tanto estatal como privada, cuya experiencia en la dirección del crecimiento económico ha sido exportada a otras regiones. Intentamos reconstruir las versiones del acontecimiento basándonos en documentos públicos primarios. Desde una perspectiva decolonial, además de los estudios sobre el Norte global, recurrimos al análisis comparativo de las catástrofes en Asia de S. Bandopadhyayde. Para este autor, no hay contradicción entre gobernanza y desastres, porque las catástrofes refuerzan las organizaciones estatales que tratan de normalizar los acontecimientos para preservar o incluso ampliar su poder de decisión y el acceso a nuevos recursos. En este sentido, registrar y debatir las narrativas durante las catástrofes forma parte de la resiliencia.Decretar o estado de calamidade pública implica no reconhecimento formal da incapacidade de governança pelo Estado. No período que sucede ao evento extremo vai sendo disseminada a insegurança quanto ao reestabelecimento da lei e da ordem. Incertezas e inseguranças não existem por si só, são produzidas mediante narrativas forjadas no calor dos acontecimentos que irão moldar a memória e a identidade das comunidades atingidas. Nesse ensaio procuramos registrar e contextualizar narrativas construídas durante as chuvas e a inundação de abril/maio de 2024 no Rio Grande do Sul que enfatizaram a erosão da governança estatal. Fenômeno instigante em um estado reconhecido pela sua histórica capacidade de planejamento, tanto estatal, como privado, cuja expertise quanto aos rumos do crescimento econômico foi exportada a outras regiões. Em uma perspectiva decolonial recorremos, além de estudos do Norte global, à análise comparativa a partir de desastres na Ásia por S. Bandopadhyayde. Para o autor não existe contradição, pois catástrofes reforçam organizações estatais que buscam normalizar os eventos visando conservar, ou mesmo ampliar, seu poder decisório e novos recursos. Neste sentido, o registro e o debate das narrativas durante os desastres tornam-se parte da construção da capacidade de resiliência
Qual o Planejamento Regional na Sociedade de Risco? Reflexões para uma Renovação da Agenda de Pesquisa no RS
The perception of risks due to climate change encourages a re-discussion of research priorities on regional planning. Climate change is not just an 'environmental issue', it alters power relations in markets, by changing prices, and in politics, through new costs. The essay aims at an empirical reflection, contributing to integrate resilience as a transversal dimension in regional planning. He uses aspects of the Society of Risk theory, proposed by sociologist Ulrich Beck, discussing connections with the work of Anthony Giddens, especially his proposal of the New Green Deal. We argue that, contrary to Giddens' optimism as to the capacity of the state, it is possible to recognize in Rio Grande do Sul evidence of the exhaustion of the classic redistributive conflicts of capitalism, and that increasing uncertainties stimulate the renewal of research priorities in regional planning.A percepção de riscos pela mudança do clima fomenta a rediscussão das prioridades da pesquisa sobre o planejamento regional. Mudança climática não se resume a um ‘tema ambiental’, altera relações de poder nos mercados, mediante alteração de preços, e na política, através de novos custos. O ensaio tem como objetivo uma reflexão em base empírica, contribuindo para integrar a resiliência como dimensão transversal no planejamento regional. Utiliza aspectos da teoria da Sociedade de Risco, proposta pelo sociólogo Ulrich Beck, discutindo conexões com a obra de Anthony Giddens, em especial sua proposta do New Green Deal. Argumentamos que, contrariando o otimismo de Giddens quanto à capacidade do Estado, é possível reconhecer no Rio Grande do Sul evidências do esgotamento dos clássicos conflitos redistributivos do capitalismo e que incertezas crescentes estimulam a renovação nas prioridades da pesquisa em planejamento regional
O enquadramento da extensão universitária climática: reflexões para a experiência na região Vale do Rio Pardo/RS
Embora os acordos internacionais e as estratégias nacionais sejam indispensáveis no enfrentamento das mudanças climáticas, cada esfera subnacional requer respostas específicas. A adaptação climática constitui nova adversidade para os gestores nas esferas municipal e estadual, que nos últimos anos enfrentaram ausência de dados, de vontade política e de recursos do governo federal. Se torna urgente ampliar a capacidade para adequar conhecimento, extensão e divulgação científica que sejam convertidas em ações locais por gestores públicos e privados. Esse ensaio visa debater o enquadramento para a extensão universitária em adaptação climática no interior do Rio Grande do Sul, face ao obstáculo que representa o uso indiscriminado do termo “mudança climática”. Utiliza elementos da Teoria da Perspectiva por Kahneman e Tversky para enfatizar o desafio para o enquadramento de um enfoque interdisciplinar frente à departamentalização universitária. A partir da experiência de iniciativas de extensão pela Universidade de Santa Cruz do Sul, busca refletir quanto aos contratempos na assessoria a gestores públicos e privados, debate as opções para o enquadramento dessas iniciativas, concluindo pela aparente inadequação dos conceitos usuais, mas que no seu conjunto estas constituem esboço para um plano regional de adaptação climática
Abordagem multinível da diversificação da matriz elétrica no Rio Grande do Sul: desafios da escala e do poder decisório
Since the 1990s, the state administration of Rio Grande do Sul has established diversification of the energy matrix as a priority. Over two decades, this has stimulated a socio-technicaltransition towards greater sustainability that prioritizes renewable sources. Despite posing technical challenges and new supply security risks, local energy production has started, with continuous innovation. In order to interpret these changes, this essay applies the FrankGeels’ multilevel approach, focusing on the analysis of the scale of investments in energy generation within innovation niches. Scale is relevant as large projects are not neutral regarding their impact on the territory. Data collection was performed between 2015/17 in the Guaíba Hydrographic Region, where economic agents have autonomously and spontaneously established diversified distributed generation while maintaining the localdecision-making power over capital flows.Desde o final dos anos 1990, sucessivos governos do Rio Grande do Sul definiram a diversificação da matriz energética como prioridade. Ao longo de duas décadas esse objetivo vem estimulando uma transição no regime sociotécnico rumo à maior sustentabilidade, priorizando fontes renováveis. Apesar dos desafios técnicos e novos riscos à segurança do fornecimento, a geração complementar foi iniciada, inovações são contínuas. Para interpretação dessas mudanças, propõe-se a abordagem multinível de Frank Geels,priorizando a análise da escala dos investimentos em geração de energia em nichos de inovação. A escala é relevante, pois obras de engenharia não são neutras quanto ao seu impacto no território. Apresentam-se aqui, como estudo de caso, os dados coletados aolongo de 2015-2017 na Região Hidrográfica do Guaíba, Rio Grande do Sul, onde agentes econômicos estão estabelecendo, de forma autônoma e espontânea, ações diversificadas de geração de fontes renováveis, mantendo o poder decisório local sobre os fluxos de capital.Desde el final de los años 90, sucesivos gobiernos en Rio Grande do Sul han definido la diversificación de la matriz energética como prioridad. A lo largo de dos décadas ese objetivo viene estimulando una transición en el régimen sociotécnico hacia la mayor sustentabilidad, priorizando fuentes renovables. A pesar de los desafíos técnicos y nuevos riesgos a la seguridad del suministro, la generación complementaria fue iniciada, y las innovaciones son continuas.Para interpretaciones de esos cambios, se propone el abordaje multinível de Frank Geels, priorizando el análisis de la escala de las inversiones en generación de energía en nichos deinnovación. La escala es relevante, pues obras de engeniería no son neutras en cuanto a suimpacto en el territorio. Se presentan aquí, como estudio de caso, los datos recolectados alo largo de 2015/2017 en la Región Hidrográfica del Guaíba, Rio Grande do Sul, en dondeagentes económicos están estableciendo, de forma autónoma y espontánea, acciones diversificadas de generación de fuentes renovables, manteniendo el poder decisorio local sobre los flujos de capital
O desastre (não) anunciado em Porto Alegre: limitantes da cooperação internacional para políticas climáticas subnacionais
Lideranças locais acordaram, há uma década, estratégia para substituir a marca de Porto Alegre como “capital da democracia participativa” para se tornar modelo em resiliência climática. Essa política municipal de enfrentamento da emergência climática foi construída mediante intensiva cooperação internacional e, em 2023, recebeu o título de Resilience Hub for Latin America (Hub de Resiliência para a América Latina) pela ONU. Na escala subnacional, poucos municípios do país têm acesso a semelhante volume de cooperação internacional, justificando a seleção desta capital para uma análise detalhada segundo referencial do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em interpretar a Paradiplomacia a partir da mensuração do Efeito planejado, nesse caso, a ampliação da capacidade do Executivo em responder a eventos climáticos extremos. Utilizamos como estudo de caso a resposta à tempestade de 16 de janeiro de 2024, caracterizada então pelo Prefeito como “a mais robusta da história recente”. Entre os resultados de uma década de Paradiplomacia, não verificamos reorientação das políticas públicas em escala necessária para a mitigação daquele desastre, nem a operacionalização de Governança Policêntrica. Não foi alcançado o objetivo de estabelecer Porto Alegre como referência nacional ou internacional de resiliência, evidenciado pelo impacto das devastadoras inundações que se seguiram em maio de 2024. Constatamos Greenwashing na narrativa oficial. A redução da máquina pública e a privatização de órgão municipais, reduzindo a capacidade de resposta, não constitui obstáculo eventual, mas essência da política municipal. Essa tem recebido aprovação pela maioria dos eleitores ao longo de seis administrações e, mesmo assim, não tem restringido a cooperação internacional.A decade ago, local leaders agreed on a strategy to replace Porto Alegre’s status as the “capital of participatory democracy”, and become a model for climate resilience. This municipal policy was built through intensive international cooperation and, in 2023, it was awarded the title of Resilience Hub for Latin America by the UN. At the subnational level, few municipalities in the country have access to a similar volume of international cooperation, which is why this capital was selected for a detailed analysis following IPEA’s framework for interpreting paradiplomacy based on the measurement of the planned Effect, in this case, the expansion of the Executive’s capacity to respond to extreme climate events. As a case study, we used the response to the storm of January 16, 2024, characterized at the time by the Mayor as “the most robust in recent history”. Among the results of a decade of Paradiplomacy, we did not see any reorientation of public policies on a scale necessary to mitigate that disaster, nor the operationalization of any type of Polycentric Governance. The goal of establishing Porto Alegre as a national or international benchmark for resilience was not achieved, as evidenced by the impact of the devastating floods that followed in May 2024. We identify Greenwashing in the official narrative. The reduction of the public sector, privatization of municipal bodies, which reduce the capacity to respond to disasters, are not occasional obstacles, but at the essence of municipal policy. This has been approved by the majority of voters over the course of six administrations and, even so, has not restricted international cooperation
As origens da participação e da qualidade democrática no Rio Grande do Sul
O objetivo do artigo reside na análise dos elementos que possibilitaram a transição de uma sociedade regional militarista para uma das democracias de mais alta qualidade na América Latina. A história da sociedade gaúcha não explica o nascedouro de movimentos sociais e de inovações na gestão pública nos anos 1980 e 1990, necessitando, portanto, de uma análise mais profunda para entender a forte participação popular. Este artigo resume em seis secções os resultados da observação participante entre 1996 e 2002, bem como a revisão bibliográfica realizada entre 2002 e 2005. Na primeira secção é apresentada a necessidade de entender os processos de democratização de forma diferenciada para sistemas políticos de grande dimensão, e na segunda secção, a bibliografia que apóia esta perspectiva. A terceira secção resume o processo formativo da sociedade gaúcha através da análise da criação de redes de núcleos urbanos, fornecendo a base para a quarta secção sobre as origens da sociedade civil. A quinta secção analisa os atores que influíram de modo ativo na promoção da participação popular nos anos 1970 e 1980, concluindo na sexta secção sobre o papel fundamental exercido pela utopia da Igreja Católica
Entre o Carvão e a Transição Energética: Oscilações na Política de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul
Subnational governments have been playing an important role in the diffusion of energy from renewable sources, contributing to the Paris Agreement's commitment to adapt to climate change. A central theme of the debate on adaptation in the European Union and China has been the productive conversion of coal regions, promoting the energy transition with diversified responses in rural areas. This essay examines, as a case study, the fluctuations in development policy over a decade, with focus on the energy transition, in Rio Grande do Sul. In the 2000s, it was a pioneer in promoting wind farms and established the Sate Policy on Change of Climate. Since 2015, the government has been changing priorities with a coal pogram to install a gasification plant with Chinese technology and capital. Among the results, the essay argues that the state opted for the backlash to coal in view of the financing opportunities of the New Silk Road for state-owned companies, but seeks to mask this option through the marketing of 'clean' coal and an alleged privatization of the energy matrix.O governo do Estado do Rio Grande do Sul decidiu recentemente pelo fomento à gaseificação de carvão mineral. Essa decisão rompeu tanto com a tradição do diálogo com os Conselhos Regionais de Desenvolvimento sobre o investimento estatal quanto com a prioridade à energia de fontes renováveis. O objetivo deste texto consiste emanalisar o contexto, os atores e o discurso dessa decisão estratégica tomada em nome do desenvolvimento territorial. O escrito utiliza o Enfoque Multinível proposto por Frank Geels para argumentar que esse retrocesso ao carvãomineral decorre de incentivos existentes na economia global, no nível macro, pela política de combate à crise do carvão mineral na China, contrariando o pioneirismo gaúcho ao nível micro, com nichos de inovação em energia eólica e fotovoltaica enraizados no território, bem como decisão, pelo governo federal, ao nível meso, de encerrar os subsídios para termelétricas a carvão. Entre os resultados registra como falso o argumento a favor da eficiência de mercado na cadeia produtiva do carvão gaúcho, pois planejadores, financiadores, produtores e consumidores são empresas estatais. Registra, igualmente, como falso, o discurso por servidores públicos, consultores e técnicos da iniciativa privada acerca do “carvão sustentável” no RS
Esboçando o planejamento para uma governança policêntrica: A adaptação climática no vale do rio pardo/rs
Os impactos e as incertezas decorrentes do aquecimento global representam o maior desafio ao planejamento no Rio Grande do Sul. A resposta pelo governo estadual se compõe pela Política Gaúcha sobre Mudanças Climáticas e a adesão às metas da campanha Race to Zero. Enfatizamos nesse ensaio a baixa efetividade dessas políticas públicas no interior do estado, exemplificado tanto pela severa crise fiscal, como a manutenção da estatal de mineração de carvão. Nosso objetivo consiste em propor o conceito de governança policêntrica concebido por Elinor Ostrom e colegas para interpretar os múltiplos centros de decisão para investimentos no Vale do Rio Pardo/RS. Argumentamos que essas iniciativas endógenas de adaptação climática esboçam um futuro planejado coletivamente, em oposição ao tradicional top down do planejamento estatal com enfoque desenvolvimentista centrado no orçamento estadual. Enfatizamos que as iniciativas nessa região correspondem ao enfoque descentralizado e de engajamento previsto pela campanha Race to Zero, não por mérito, mas, apesar da ausência do Executivo
Quando a participação popular é inócua: o greenwashing do carvão na região metropolitana de Porto Alegre/RS
O presente ensaio propõe análise crítica dos mecanismos participativos utilizados no processo de licenciamento do Projeto Mina Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Cobrindo 4.380 hectares trata-se da maior lavra de carvão mineral a céu aberto no país, visando abastecer Polo Carboquímico composto por termelétrica, usina de gaseificação e indústrias de fertilizantes a serem construídos por estatais chinesas. Apresenta a hipótese que a decisão pela construção do polo foi incentivada pelo governo da China que, desde a crise de poluição atmosférica pelas termelétricas a carvão, em 2013, financia a exportação da capacidade ociosa de planejamento e construção de instalações industriais. De modo receptivo, o governo gaúcho criou, em 2017, o programa PROCARVÃO-RS buscando atrair expertise e capital chinês. Com base em referencial metodológico estabelecido por pesquisa pelo IPEA, e utilizando a Escada de Arnstein, conclui que as audiências públicas realizadas na região metropolitana são inócuas quanto aos objetivos da Política Gaúcha sobre Mudanças Climáticas, na medida em que não alteram escopo ou alcance da implantação da lavra, se restringindo a adicionar eventuais medidas compensatórias.
Palavras-chave: Carvão mineral. Poluição atmosférica. Mina Guaíba
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