Portal de Periódicos Eletrônicos da UESC (Univ. Estadual de Santa Cruz)
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Do discurso argumentado à interação argumentativa
Neste artigo debate-se o valor e os limites de certas teorizações da argumentação. Considerando a importância das abordagens que veem na argumentatividade o próprio tecido do discurso, sugerimos que, do ponto de vista da adequação descritiva, a análise argumentativa se deve centrar nas situações de interação nas quais é clara uma oposição entre discursos. Tal significa que os argumentos devem ser considerados no quadro da tensão da crítica do discurso do outro e que o estudo da argumentação é a análise da forma como a dissidência é tematizada pelos diferentes turnos de palavra sobre um assunto em questão.
Análise e crítica do discurso argumentativo
A lógica, dita como a mãe da argumentação (a menos que seja o contrário), é a ciência da transferência correta da verdade de enunciado a enunciado. Ela distingue discursos encadeados de maneira válida e discursos duvidosos como “Eu não sou compreendido.Os grandes artistas nunca são compreendidos (suspiro)”, que se pode supor visar, de maneira não válida, à conclusão “Eu sou um grande artista”. Por generalização ou por analogia, pode se perguntar o que vem a ser essa noção de validade, quando se passa para o discurso ordinário: a teoria da argumentação fornece os critérios que permitem opor discurso “válido” e discurso “não válido”? Então, o que significa esse termo? Deve-se tomá-lo no sentido puramente lógico, ou no sentido amplo de falacioso, sofista, mentiroso, manipulador, perverso...? De modo geral, como construir os instrumentos de uma crítica do discurso argumentativo, instrumentos sem os quais “o pensamento crítico” corre o forte risco de esvaziar-se? A pergunta abrange aspectos múltiplos e pode facilmente dar lugar a mal-entendidos
Sobre a combinação da Pragma-dialética com a Análise Crítica do Discurso
Recentemente, uma ‘fronte’ acadêmica foi aberta entre a Análise Crítica do Discurso (ACD) e o conhecimento argumentativo mais ‘ortodoxo’. Especificamente, em um discurso proferido em uma importante conferência, Žagar (2009) defendeu que os trabalhos de alguns Analistas Críticos do Discurso não apenas fazem o mau uso, como também interpretam erroneamente alguns conceitos centrais da teoria retórica clássica – em particular os topoi – e que permanentemente mancharam a sua convenção analítica por conta de um desencontro fundamental entre os objetivos analíticos e políticos da ACD. A partir de uma postura argumentativa diferente, porém não totalmente irrelacionada, Ie_cu- Fairclough (2010, p. 2) argumentou que a Abordagem Histórica do Discurso para a ACD utiliza a noção de topos “de maneiras que parecem não corresponder” à forma que o topos é definido na retórica clássica. Em vez disso, a própria análise crítica dos discursos público e político feita por Fairclough favorece “uma abordagem que faz uso do aparato altamente técnico e rigoroso da teoria da argumentação a fim de participar da reconstrução e da análise do argumento” (IE_CU-FAIRCLOUGH, 2010, p. 3).
Ronaldo: fenômeno, ídolo ou herói? Análise das estratégias argumentativas utilizadas pelo jogador em sua despedida do futebol
Com o objetivo de observar como as estratégias argumentativas podem ser utilizadas para definir um ethos e tentar reverter a opinião pública por meio da persuasão, analisamos neste trabalho dois discursos de Ronaldo Fenômeno por ocasião de seu afastamento definitivo dos campos. Concluímos que o ex-jogador pretende fixar no mundo do futebol a imagem de ídolo por meio de mecanismos que buscam a identificação com os apaixonados pelo esporte.Tomamos como base teórica a Retórica Aristotélica, a Neo-retórica de Perelman e Tyteca, a Análise do Discurso de linha francesa e a Semiótica Greimasiana
Da distância discursiva à sua negação: na pequena fábrica dos blogs políticos
Como lugar de diálogo e, às vezes, de espaço de conflitos, a blogosfera politica implica gestão discursiva que tem por singularidade, entre outros, oscilar entre uma missão cidadã de informar a população e a exigência de promover a linha ideológica de uma formação política e de uma pessoa em particular.Comentaremos neste artigo uma das práticas discursivas representada em blogs, a saber, a negação (seguida de um distanciamento), do que daremos dois exemplos concretos
Discurso e má fé: do elogio à perversidade. Estratégias retóricas em campanhas políticas eleitorais
Partindo das formulações da retórica clássica e procedendo ao seu reexame nas teorias mais recentes, examinar-se-á a questão do ataque pessoal, o ad hominem, em discursos de natureza política, especialmente os das campanhas eleitorais. Por outro lado, o elogio também funciona como uma das estratégias recorrentes nesse tipo de discurso, visando não só a adesão do público, mas ao equilíbrio das relações interpessoais. Embora opostos, esses argumentos conjugam-se habilmente nas palavras dos oradores. Estabelece-se, então, uma escala que pode se deslocar do elogio ao ad hominem e chegar às raias da perversidade e até da execração, sob as formas da calúnia e da difamação, razão pela qual os debates de campanhas eleitorais se estruturam de forma a impedir que tal aconteça. Conceitos como os de modéstia afetada, de sinceridade, de mentira útil mesclam-se a tudo isto, o que requer um estudo das falácias num sentido mais amplo
Hermes está entre nós! O discurso de S. Paulo em Listra
O presente artigo visa a refletir sobre a construção discursiva do orador, observando as adaptações a que essa representação é submetida diante de seu auditório. O corpus constitui-se pelo discurso do apóstolo Paulo em Listra, registrado em Atos 14.15-17. Como base teórica, servimo-nos dos conceitos da Nova Retórica, de Chaïm Perelman e seus sucessores; quanto à gramática da língua gregaii, utilizamos o arcabouço teórico de Henrique Murachco. Relativamente à Nova Retórica, não há dúvidas de que ela trouxe vida aos estudos retórico-argumentativos, de modo que a análise das operações de persuasão, presentes nas mais diversificadas modalidades discursivas, pode nela amparar-se, a fim de compreender e descrever os processos pelos quais o orador se empenha com vistas ao assentimento de sua audiência. Conceitos como êthosiii, lógos, páthos, dóxa etc. sustentam o exame das diferentes manobras de influência, pois a imagem projetada do orador, que apoia os seus argumentos no universo de crenças, paixões e valores admitidos, manifesta-se no discurso, não sem antes ter sofrido coerções provenientes das representações daqueles a quem se dirige. Como o orador se constrói em função da imagem de seu auditório, os ajustes lhe serão determinantemente necessários se ele quiser mostrar vínculo pessoal e alcançar consentimento e participação. De fato, êthos e páthos se integram, haja vista que a comunhão dos espíritos e as operações persuasivas serão estabelecidas por meio das representações que um faz do outro. Enquanto o orador se projeta e a seu auditório pelo seu modo de dizer, fazendo o sentido vir à existência por meio de seu discurso, é por este que a audiência reconhece o caráter de quem fala e, ao mesmo tempo, (re)constrói o sentido, avaliando-os, atribuindo-lhes graus de identificação, aceitando ou não a sua legitimidade