Revista Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (E-Journal)
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A Experiência dos Familiares de Doentes com Perturbação Borderline da Personalidade num Grupo de Famílias
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Utilização de Eletroconvulsivoterapia em Hospitalizações por Perturbação Depressiva Major em Portugal
Introduction: Depression, recognized as a major contributor to global disability, requires diverse therapeutic strategies. While psychological therapy and antidepressant medications are primary interventions, electroconvulsive therapy (ECT) emerges as a valuable option for severe and treatment ‑resistant cases. This retrospective observational study explores the scenery of depressive disorder‑related hospitalizations in Portuguese public hospitals from 2008 to 2015.
Methods: Utilizing administrative data provided by Administração Central do Sistema de Saúde I.P. (ACSS), hospitalizations with primary depression diagnoses were examined. Therefore, all hospitalizations from patients aged 18 or older with a primary diagnosis of depression, selected by International Classification of Diseases, Ninth Revision, Clinical Modification (ICD ‑9 ‑CM) codes 296.2x to 296.3x (Major depressive disorder), 300.4 (Dysthymic disorder) and 311 (Depressive disorder, not elsewhere classified) were included.
Results: Over the study period, 32 648 hospitalizations with primary depression diagnoses were identified. Major depressive disorder recurrent episodes dominated ECT procedures (72.6%), with only 2.8% of depression hospitalizations having received ECT in the last year. A linear increase in ECT cases from 2010 to 2015 was observed, coinciding with a decline in total depressive disorder ‑related hospitalizations. A higher proportion of men received ECT compared to women. The mean age of ECT recipients was significantly lower.
Discussion: The study’s findings demonstrate an underuse of ECT procedures in depression hospitalizations in Portugal. The observed increase in ECT utilization in the study period may indicate evolving perceptions and improved accessibility.
Conclusion: Depressive disorders constitute a significant portion of psychiatric hospitalizations in Portugal. This study contributes to understanding ECT use in Portugal.Introdução: A depressão é uma das principais causas de incapacidade global, exigindo diversas estratégias terapêuticas. Enquanto intervenções psicoterapêuticas e psicofarmacológicas são intervenções de primeira linha, a eletroconvulsivoterapia (ECT) emerge como opção em casos graves e resistentes ao tratamento. Este estudo observacional retrospetivo explora as hospitalizações relacionadas com perturbações depressivas em hospitais públicos portugueses de 2008 a 2015.
Métodos: Utilizando dados administrativos fornecidos pela Administração Central do Sistema de Saúde I.P. (ACSS) foram examinadas hospitalizações com diagnóstico primário de depressão. Assim, todas as hospitalizações de pacientes com 18 anos ou mais, com diagnóstico primário de depressão, selecionados através dos códigos 296.2x a 296.3x (Perturbação depressiva major), 300.4 (Distimia) e 311 (Perturbação depressiva, não classificada) do ICD ‑9 ‑CM foram incluídas.
Results: Durante o período do estudo, foram identificadas 32 648 hospitalizações com diagnósticos primários de depressão. Os episódios recorrentes de perturbação depressiva major dominaram os procedimentos de ECT (72,6%). Observou ‑se um aumento linear nos casos de ECT de 2010 a 2015, coincidindo com uma diminuição nas hospitalizações relacionadas com perturbações depressivas. Uma maior proporção de homens recebeu ECT em comparação com mulheres. A idade média dos doentes submetidos a ECT foi significativamente mais baixa do que a dos restantes doentes com depressão. Os resultados do estudo encontram ‑se alinhados com os dados de outros países, destacando a ECT como uma intervenção valiosa na perturbação depressiva major, especialmente em casos graves e resistentes ao tratamento. A maior utilização de ECT pode traduzir melhor compreensão e acessibilidade à técnica.
Conclusão: As perturbações depressivas constituem uma parte significativa das hospitalizações psiquiátricas em Portugal. Este estudo contribui para a compreensão dos padrões de utilização de ECT em Portugal
Doentes com Esquizofrenia que Frequentaram o Regime de Internamento Parcial de Psiquiatria no Centro Hospitalar do Médio Tejo: Um Estudo Descritivo
Introduction: The aim is to evaluate a clinical series of patients with schizophrenia who attended a Partial Hospitalization Program of Psychiatry, in order to understand what challenges these patients pose to us in terms of their treatment, relapse prevention and social reintegration.
Methods: We analyzed a cohort of patients diagnosed with schizophrenia, who attended the Partial Hospitalization Program at a Department of Psychiatry, between the years 2016 and 2020. Data was extracted regarding sociodemographic characterization, attendance of the program, pharmacological treatment, comorbidities, readmissions to the acute ward, post‑discharge social responses and presence of psychotic symptoms.
Results: Thirty three patients were included. Most of them were male (66.67%), with an average age of 35.09 years, mostly coming from Tomar (51.52%) and living with their parents and/or siblings (75.76%). 42.42% were initially unemployed. Patients attended partial hospitalization for an average of 68.71 months. Regarding pharmacological treatment, clozapine established itself as the most common oral antipsychotic and paliperidone as the most common injectable antipsychotic. The average number of antipsychotic medications per patient increased over time accompanied by a significant increase in injectable antipsychotic medications, and a slight decrease in the number of oral antipsychotics. There is also a decrease in the utilization of benzodiazepines, but the utilization of medications to treat extrapyramidal and depressive symptoms remains high. The most frequent medical comorbidity after discharge is overweight/obesity in 30.3% of cases. Acute ward admissions dropped significantly. Regarding post‑discharge social responses, unemployment declined significantly; protected jobs and disability pensions increased significantly. Regarding psychotic symptoms, the number of patients presenting with negative and cognitive symptoms remained high at discharge from the program.
Conclusion: The Partial Hospitalization Program seems to translate in the long term into a smaller number of readmissions in the acute ward. It also contributes to improving the social reintegration of the patients. However, the stability of these patients is mostly achieved through a high cumulative dose of antipsychotic medication. These patients present with significant medical comorbidities and a progressive increase in polypharmacy throughout the years, showing us that we still have a long way to go when it comes to treating patients with schizophrenia.Introdução: Pretende‑se avaliar uma série clínica de doentes com esquizofrenia que frequentaram o regime de Internamento Parcial, de forma a perceber quais os desafios que estes nos colocam relativamente ao seu tratamento, prevenção de recaídas e reinserção social.
Métodos: Foi analisada uma coorte de doentes com esquizofrenia, que frequentaram o regime de Internamento Parcial de um Departamento de Psiquiatria, entre 2016 e 2020. Foram extraídos dados relativos à caracterização sociodemográfica, frequência do internamento parcial, tratamento farmacológico, comorbilidades, reinternamentos em enfermaria de agudos, respostas sociais pós‑alta e presença de sintomas psicóticos.
Resultados: Trinta e três doentes foram incluídos, sendo a maioria do sexo masculino (66,67%), com idade média de 35,09 anos, maioritariamente provenientes do concelho de Tomar (51,52%) e a residir com os pais e/ou irmãos (75,76%). Do total, 42,42% encontravam‑se inicialmente desempregados. Os doentes frequentaram o internamento parcial em média durante 68,71 meses. Relativamente ao tratamento farmacológico, a clozapina consolidou‑se como o antipsicótico oral mais frequente e a paliperidona como o antipsicótico injetável mais frequente. O número médio de medicação antipsicótica por doente aumentou ao longo do tempo, acompanhado por um aumento significativo na medicação antipsicótica injetável e uma ligeira diminuição no número de antipsicóticos orais. Constata‑se também uma diminuição na utilização de benzodiazepinas, porém mantendo‑se elevada a utilização de fármacos para tratar sintomas extrapiramidais e depressivos. A comorbilidade médica mais frequente após a alta é o excesso de peso/obesidade em 30,3% dos casos. Os internamentos em enfermaria de agudos desceram significativamente. Relativamente às respostas sociais pós‑alta, o desemprego diminuiu significativamente; os empregos protegidos e as reformas por invalidez aumentaram significativamente. Relativamente aos sintomas psicóticos, o número de doentes com sintomas negativos e cognitivos permaneceu elevado até à alta do programa.
Conclusão: O regime de internamento parcial parece traduzir‑se a longo prazo num menor número de reinternamentos em enfermaria de agudos, contribuindo também para melhorar a reinserção social dos doentes. No entanto, a estabilidade é alcançada sobretudo através da utilização de uma alta dose cumulativa de medicação antipsicótica. Estes doentes apresentam comorbilidades médicas importantes e um aumento progressivo da polifarmácia ao longo dos anos, mostrando‑nos que ainda temos um longo caminho a percorrer no que diz respeito ao tratamento das pessoas com esquizofrenia
Entre Instituições, Vínculos e Comunidades: Novas Perspetivas em Saúde Mental: Between Institutions, Bonds and Communities: New Perspectives on Mental Health
tDCS em Casa na Depressão Major: Análise do Valor Preditivo dos Biomarcadores de EEG
Introduction: Major depressive disorder (MDD) is a highly prevalent condition with a significant treatment‑resistant population. Transcranial direct current stimulation (tDCS) has emerged as a promising non‑invasive treatment, but biomarkers to predict its efficacy are needed. This study aimed to evaluate the feasibility and effectiveness of home‑administered tDCS in treating MDD and investigate frontal alpha asymmetry (FAA) as a predictor of treatment response.
Methods: A total of 35 patients diagnosed with MDD underwent a four‑week tDCS treatment. Depression severity was measured using the PHQ‑9 scale, and FAA was calculated from EEG recordings. Paired t‑tests and Pearson correlation were used to analyze changes in depression scores and FAA, while logistic regression assessed FAA’s predictive value for treatment response.
Results: Sixty percent of patients showed improvement in depression symptoms post‑treatment, with 63% classified as responders. Significant changes in FAA were observed in responders (p<0.05), and a strong positive correlation was found between FAA changes and reductions in depressive symptoms (r= 0.63). Pre‑treatment FAA was a significant predictor of treatment response (p<0.05), with higher FAA values associated with a lower probability of response.
Conclusion: Home‑administered tDCS is an effective intervention for MDD, with FAA emerging as a valuable biomarker for predicting treatment response. These findings support the use of FAA in personalizing tDCS treatment for MDD.Introdução: A depressão major é uma condição altamente prevalente, com uma população significativa resistente ao tratamento. A estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS) emergiu como um tratamento promissor e não invasivo, mas são necessários biomarcadores para prever a sua eficácia. Este estudo teve como objetivo avaliar a viabilidade e a eficácia da tDCS auto‑administrada em casa no tratamento da depressão major e investigar a assimetria alfa frontal como preditor da resposta ao tratamento.
Métodos: Um total de 35 doentes diagnosticados com depressão major foram submetidos a um tratamento de quatro semanas de tDCS. A gravidade da depressão foi medida utilizando a escala Patient Health Questionnaire ‑ 9 e a assimetria alfa frontal foi calculada a partir de registos de EEG. Foram utilizados testes t emparelhados e a correlação de Pearson para analisar as alterações nas pontuações da depressão e na assimetria alfa frontal, enquanto a regressão logística avaliou o valor preditivo da assimetria alfa frontal para a resposta ao tratamento.
Resultados: Sessenta por cento dos doentes mostraram melhorias nos sintomas de depressão após o tratamento, com 63% classificados como respondedores. Foram observadas alterações significativas na assimetria alfa frontal nos respondedores (p<0,05) e foi encontrada uma forte correlação positiva entre as alterações na assimetria alfa frontal e a redução dos sintomas depressivos (r= 0,63). A assimetria alfa frontal pré‑tratamento foi um preditor significativo da resposta ao tratamento (p<0,05), com valores mais elevados de assimetria alfa frontal associados a uma menor probabilidade de resposta.
Conclusão: A tDCS auto‑administrada em casa é uma intervenção eficaz para a depressão major, com a assimetria alfa frontal a emergir como um biomarcador valioso para prever a resposta ao tratamento. Estes resultados apoiam a utilização da assimetria alfa frontal na personalização do tratamento com tDCS para a depressão major
Início Muito Precoce de Perturbações do Espetro da Esquizofrenia: Um Relato de Caso de um Diagnóstico e Tratamento Desafiadores
Disorders within the schizophrenia spectrum are severe illnesses characterized by disturbances in thinking, perception and behavior that are associated with deterioration in emotional, cognitive, and social functioning. Symptoms typically emerge in early adulthood, but in extremely rare and severe cases they can begin in childhood.
The primary objective of this paper is to provide a concise overview of the scientific evidence regarding very early‑onset schizophrenia based on a clinical case description. Data were sourced from clinical records and meticulously scrutinized within electronic databases, including PubMed and Embase.
We present a case study involving a 16 year old male adolescent with psychotic symptoms, previously diagnosed with obsessive compulsive disorder and autism spectrum disorder. This case epitomizes the challenges associated with the diagnosis of an uncommon and markedly severe manifestation of one of the most debilitating psychiatric conditions, thereby shedding light on the intricate challenges inherent in managing a treatment resistant disease.As perturbações do espectro da esquizofrenia são doenças graves caracterizadas por alterações do pensamento, percepção e comportamento, associadas à deterioração do funcionamento emocional, cognitivo e social. Os sintomas surgem geralmente o início da idade adulta, mas em casos extremamente raros e graves podem ter início na infância.
O principal objetivo deste artigo é rever a principal evidência científica disponível relativa à esquizofrenia de início muito precoce, com base na descrição de um caso clínico. Os dados foram obtidos a partir de registos clínicos e através da pesquisa criteriosa nas bases de dados eletrónicas PubMed e Embase.
Apresentamos o caso de um adolescente de 16 anos com sintomas psicóticos previamente diagnosticado com perturbação obsessivo compulsiva e perturbação do espectro do autismo. Este caso demonstra os desafios associados ao diagnóstico de uma manifestação incomum e particularmente grave de uma das perturbações psiquiátricas mais debilitantes, salientando as complexas dificuldades inerentes ao tratamento de uma doença resistente ao tratamento em idade pediátrica.
Padrões de Prescrição na PHDA no Adulto: A Realidade do CHUC
Introduction: Attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) is one of the most common neuropsychiatric disorders, affecting around 2%‑4% of the adult population. The first‑line therapeutic intervention is psychostimulants such as methylphenidate and amphetamines. Second‑line therapy is used when stimulants are ineffective, intolerant, or contraindicated.
Methods: Retrospective observational study of patients followed up at the Neurodevelopment Consultation at the Psychiatry Service of Coimbra Hospital and University Centre (CHUC), covering 2 years and 9 months of activity (January 2019 to September 2021) with a diagnosis of ADHD, to characterize the sample from a sociodemographic point of view and psychopharmacological prescription. Data was collected in September 2021 using SClínico. Data processing in Excel (version 16.46).
Results: The sample included 416 patients, 82 of whom were diagnosed with ADHD. The study found that 73% of the participants were male, with an average age of 21. Of the patients diagnosed with ADHD, 52.4% had the diagnosis isolated, while 47.6% had ADHD in comorbidity with another psychiatric condition. As for psychopharmacological prescriptions, 65.9% were medicated with methylphenidate, 46.3% with the maximum dose (54 mg once a day), and 7.4% with 36 or 40 mg once a day in both cases, with other doses prescribed less frequently.
Conclusion: Recent international studies report a prevalence of 90%‑92% of methylphenidate prescriptions in ADHD patients, with the reality of CHUC being lower (65.9%) than the international reality. This prevalence may be due to intolerance of adverse effects, low therapeutic adherence, or the presence of multiple comorbidities, which can lead to a decrease in prescriptions. Prescriptions should always be individualized and in accordance with the psychopathology presented. More studies are needed to assess the reality of Portuguese prescribing.Introdução: A perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA) é uma das patologias neuropsiquiátricas mais comuns, afetando cerca de 2%‑4% da população adulta. A intervenção farmacoterapêutica de primeira linha são os psicoestimulantes como o metilfenidato e as anfetaminas. Geralmente, A terapêutica farmacológica de segunda linha é utilizada quando há ineficácia, intolerância ou contraindicação para o uso de estimulantes.
Métodos: Estudo retrospetivo observacional dos doentes seguidos na Consulta de Neurodesenvolvimento no Serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), referente a 2 anos e 9 meses de atividade (Janeiro de 2019 a Setembro de 2021) com o diagnóstico de PHDA, com o objetivo de caracterizar a amostra do ponto de vista sociodemográfico e de prescrição psicofarmacológica. Dados colhidos em setembro de 2021, através do SClínico. Tratamento dos dados em Excel (versão 16.46).
Resultados: A amostra inclui 416 doentes, sendo encontrados 82 doentes com o diagnóstico de PHDA. O estudo revelou que 73% dos participantes eram do sexo masculino, com uma idade média de 21 anos. Dos doentes com diagnóstico de PHDA, 52,4% registam o diagnóstico isoladamente, enquanto que 47,6% tem PHDA em comorbilidade com outra patologia psiquiátrica. Quanto à prescrição psicofarmacológica, 65,9% medicados com metilfenidato, 46,3% medicados com a dose máxima (54 mg uma vez por dia), 7,4% medicados com 36 ou 40 mg uma vez por dia em ambos os casos, estando outras doses prescritas numa frequência inferior.
Conclusão: Estudos recentes internacionais referem uma prevalência de 90%‑92% da prescrição de metilfenidato em doentes com PHDA, contudo a realidade encontrada no CHUC (65,9%) é consideravelmente inferior. Esta prevalência pode dever‑se a efeitos adversos intoleráveis, baixa adesão terapêutica ou à presença de múltiplas comorbilidades que pode condicionar as prescrições. A prescrição deverá ser sempre individualizada e de acordo com a psicopatologia apresentada. De futuro, são necessários mais estudos para avaliar a realidade da prescrição portuguesa
Proximidade Imediata ou Transferência Obrigatória? Debatendo a Transferência Inter ‑Hospitalar de Cidadãos com Doença Mental: Caso Clínico
We present a clinical case of a patient with residence, family and employment in Lisbon who, based on outdated information from the National User Registry, was admitted to a hospital more than 300 km from his residence. The user considers this interfered with family contact and his work situation. It also placed social constraints on transportation back home after discharge. We summarize the legislation that originated the concept of proximity treatment, respecting users right to be treated in their community, a right extended to citizens with mental illness. We debate that, since regulation serves to apply the law, the law should not be harmed by the regulation. We conclude that the medical doctor must question the suitability of outdated information and demand its correction to ensure the treatment provided corresponds to what was expected in the absence of this inaccuracy.Apresentamos à discussão caso clínico de utente com residência, família e emprego na região de Lisboa que, com base em dados desatualizados do Registo Nacional de Utente, foi internado em hospital a mais de 300 km da sua residência. O utente considera que esta situação interferiu no contacto familiar bem como na sua situação laboral.
Colocou ainda constrangimentos sociais no transporte de volta à sua residência após alta. Resume ‑se a legislação que originou o conceito de tratamento de proximidade respeitando o direito do utente a ser tratado na sua comunidade, direito estendido aos cidadãos com doença mental. Debate ‑se que, servindo o regulamento para aplicação do direito, não deve o direito ser prejudicado pelo regulamento. Conclui ‑se que o médico deve questionar a pertinência de dados desatualizados e exigir a sua correção para assegurar que o tratamento fornecido corresponda ao esperado na ausência dessa imprecisão
Tratamento Farmacológico das Dimensões Sintomáticas da Perturbação de Personalidade Borderline: Recomendações Baseadas na Evidência
Borderline personality disorder (BPD) constitutes a hard tot treat personality disorder, characterized by persistent emotional dysregulation, identity and self ‑esteem instability, impulsivity, persistent interpersonal conflicts, and self‑harming behaviors. The intense subjective distress and increased healthcare needs are also characteristic. While psychotherapy remains the gold standard for treatment, pharmacotherapy is essential for many individuals with BPD.
These guidelines aim for a better pharmacological management of BPD, based on a comprehensive literature review that included relevant studies and clinical guidelines from organizations such as National Institute for Health and Care Excellence, World Federation of Societies of Biological Psychiatry and Australian National Health and Medical Research Council. Distinct drugs can effectively target distinct symptom domains: cognitive ‑perceptual alterations, emotional dysregulation, impulsivity, and interpersonal dysfunction.
Key findings indicate that antidepressants, particularly SSRIs and tricyclics, demonstrate efficacy in reducing depressive symptoms and impulsivity. Mood stabilizers, including lamotrigine and valproate, have shown benefits for emotional dysregulation and impulsive behaviors. Antipsychotics, notably aripiprazole and olanzapine, provide relief from severe emotional dysregulation and impulsive aggression. The efficacy of aripiprazole in the treatment of all symptom dimensions is highlighted. However, careful consideration of the side ‑effect profile is crucial, given the potential for adverse effects, particularly in vulnerable populations.
Despite the recognized utility of pharmacological interventions, the limitations within the existing literature, such as methodological variability and lack of consensus on symptom definitions, complicate result interpretation. Therefore, longitudinal studies assessing both short ‑term and long ‑term outcomes of pharmacological treatments are warranted.
A continued commitment to research, within a multidisciplinary framework, is essential for optimizing the clinical management of BPD and enhancing our understanding of the efficacy of pharmacotherapy in this complex disorder.A perturbação de personalidade borderline (PPBL) constitui‑se como uma perturbação da personalidade usualmente exigente quanto ao tratamento, caracterizada por desregulação afetiva persistente, instabilidade da identidade ou autoestima, impulsividade, conflitos interpessoais persistentes e comportamentos autolesivos. O intenso sofrimento subjetivo e o aumento das necessidades de saúde também são característicos desta perturbação. Embora a psicoterapia seja o tratamento gold‑standard, o tratamento farmacológico torna‑se necessário em vários casos.
As presentes recomendações visam uma melhor gestão farmacológica da PPBL, fundamentada numa revisão abrangente da literatura que incluiu estudos relevantes e orientações clínicas de organizações como o National Institute for Health and Care Excellence, a World Federation of Societies of Biological Psychiatry e o Australian National Health and Medical Research Council. Diferentes fármacos podem efetivamente melhores diferentes dimensões sintomáticas: alterações cognitivo‑percetuais, desregulação afetiva, impulsividade e disfunção interpessoal.
As principais conclusões indicam que os antidepressivos, particularmente os ISRS e os tricíclicos, demonstram eficácia na redução dos sintomas depressivos e da impulsividade. Os estabilizadores de humor, incluindo a lamotrigina e o valproato, mostraram benefícios para a desregulação emocional e comportamentos impulsivos. Os antipsicóticos, nomeadamente o aripiprazol e a olanzapina, proporcionam alívio da desregulação emocional severa e da agressão impulsiva. Destaca‑se a eficácia do aripiprazol no tratamento de todas as dimensões sintomáticas. Contudo, uma consideração cuidadosa do perfil de efeitos adversos é crucial, dado o potencial para efeitos indesejáveis, particularmente em populações vulneráveis.
Apesar da utilidade reconhecida das intervenções farmacológicas, as limitações na literatura existente, como a variabilidade metodológica e a falta de consenso nas definições de sintomas, limitam a interpretação dos resultados.
São necessários estudos longitudinais que avaliem tanto os resultados a curto como a longo prazo do tratamento farmacológico. Um compromisso contínuo com a investigação, dentro de um quadro multidisciplinar, é essencial para otimizar a gestão clínica da PPBL e aprimorar a nossa compreensão da eficácia dos psicofármacos nesta perturbação
Pessoas com Diversidade de Género em Portugal: Uma Breve Análise ao BemEstar Psicológico e aos Ambientes Familiar e Social
Introduction: Transgender people experience many life challenges, often by relatives or peers, which can lead to multiple mental health issues.
Methods: Given the described family and social challenges in people with gender diversity and their impact on mental welfare, the need for a brief description of these settings arose. Being so, an original questionnaire was constructed and, afterwards, provided to different healthcare professionals and organizations who contact with transgender people.
Subsequently, these partners applied the questionnaire to people who met the following criteria: self ‑identifying as a transgender person, being 18 years old or older and residing in Portugal. This was done to try to encompass as many adult transgender people as possible who may contact Portuguese health services and have a broad notion of their family, social and psychological background. By having a general comprehension of these matters, we hope to inform the clinical community, impact clinical assessment and promote an empathic relationship with the patient.
Results: Regarding tolerance towards gender diversity, we found that it increased substantially from childhood and adolescence to current life; also, we ascertained that, when the trans person’s household is not tolerant, neither are the peers, and vice ‑versa (p=0.023). As for the topics of gender and sexuality, we found a gap between the amount of trans youth who think about these topics and the amount of households, peers or schools who approach them. In regards to mental health, we found that anxiety, depression and suicidal issues remain significantly present among trans people; however, a non ‑binary gender identity may be a protective mental health factor.
Conclusion: Mental health challenges remain prevalent within trans people, whether they are feelings of anxiety, depression, suicidal issues, family or social struggles. This paper wishes to raise awareness of these struggles to promote a better healthcare professional–patient relationship. We also wish to impact clinical practice, namely to do an early distinction between a case of gender diversity or gender dysphoria, identify potential therapeutic targets and goals and to help formulate a therapeutic plan together with the patient.Introdução: Pessoas transgénero experienciam vários desafios de vida, frequentemente por familiares ou pares, que pode levar a múltiplos desafios à saúde mental.
Métodos: Dados os desafios familiares e sociais em pessoas com diversidade de género e o seu impacto na saúde mental, a necessidade por uma breve descrição destas condicionantes surgiu. Assim sendo, construiu‑se um questionário original e, posteriormente, foi cedido a diferentes profissionais e organizações que contactam com pessoas transgénero. Subsequentemente, estes parceiros aplicaram o questionário a pessoas que cumpriam os seguintes critérios: autoidentificam‑se como uma pessoa transgénero, têm 18 ou mais anos de idade e residem em Portugal. Isto foi feito para tentar englobar o maior número possível de pessoas transgénero adultas que pudessem contactar com os serviços de saúde portugueses e para ter uma noção geral sobre o seu fundo familiar, social e psicológico. Ao ter uma noção global sobre estes assuntos, esperamos informar a comunidade clínica, impactar a avaliação clínica e promover uma relação empática com o utente.
Resultados: Relativamente à tolerância para a diversidade de género, verificou‑se que aumentou substancialmente da infância e adolescência para a vida atual; também se constatou que, quando o agregado familiar da pessoa trans não é tolerante, os pares também não são, e vice ‑versa (p=0,023). Quanto aos tópicos de género e sexualidade, há uma diferença importante entre quantos jovens trans pensam sobre estes tópicos e quantos dos seus agregados, pares e escolas falaram sobre os mesmos. Em relação à saúde mental, constatou‑se que a ansiedade, depressão e questões suicidas permanecem significativamente presentes entre pessoas trans; contudo, uma identidade de género não‑binária pode ser um fator protetor.
Conclusão: Desafios à saúde mental mantém‑se prevalentes entre pessoas trans, sejam sentimentos de ansiedade, depressão, questões suicidárias ou dificuldades familiares ou sociais. Este artigo pretende consciencializar para estes desafios e promover uma melhor relação entre profissional de saúde e utente. Também pretendemos impactar a prática clínica, nomeadamente para fazer uma distinção precoce entre um caso de diversidade de género ou disforia de género, identificar potenciais alvos e objetivos terapêuticos, e formular um plano terapêutico juntamente com o utente