Comunicação e Sociedade (E-Journal)
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O feitiço do tempo da comédia
Neste artigo, procura-se refletir sobre o tempo social interrompido pelo humor, como fórmula discursiva, e pela comédia, como recurso performativo. A incongruência das significações produzidas por esta forma estilística significa uma suspensão das regras de tipificação nas interações quotidianas do mundo-da-vida. Estes momentos de suspensão são designados por interrupções (time out). Neste texto mostramos como a relação do humor e da comédia com o tempo comum e com as interrupções revelam chaves interpretativas do tecido social intersubjetivo
Space-time compression and hyperlocalisation: the new flâneurs
The experience of sensations such as time acceleration and space elimination has become common in modern life, which is increasingly organised in tune with the “real time” imposed by digital media. Throughout this article and starting with the concept of “time compression” presented by David Harvey (1999), the authors contrast technological determinism with other perspectives that suggest there is a dialogue-based relationship between technology and society. The text discusses notions such as deterritorialisation and detemporalisation that make it possible to understand the emergence of a fragmented and timeless data space, which corresponds to a “new geography”, in which it is no longer possible to establish a clear boundary between the physical and the digital world. The text is theoretically underpinned by the concept of the cyberflâneur, exploring the similarities with the 19th century flâneur described by Baudelaire (1996). Analysis of a set of artistic and experimental interventions addressing issues such as hyperlocalisation or ubiquity and pervasiveness enables us to use the character of the cyberflâneur in a twofold sense – as a sign of technical acceleration and also as a symbol of resistance to such acceleration. The authors conclude that the exponential evolution and increasing “naturalisation” of technology obligates us to consider its determining role in social dynamics, namely by transforming our relationship with the dimensions of space and time
Diálogo intercultural e relações intergrupais na Europa: contributos dos Estudos Culturais e da Psicologia Social
Neste trabalho discutem-se as contribuições dos Estudos Culturais e da Psicologia Social para as reflexões acerca dos desafios inerentes à promoção do diálogo intercultural na Europa, no contexto atual de relações intergrupais entre diversos Outros, propiciado por fatores como a intensificação dos fluxos migratórios e o avanço das tecnologias da informação e da comunicação. Para tanto, realizam-se articulações entre conceitos e categorias a partir de diferentes perspectivas teóricas nestes campos, de forma a associar discussões sobre processos identitários, alteridade, representações sociais, memória coletiva, assimetrias simbólicas, colonialidade do poder, do ser e do saber, a fim de (re)iniciar alguns debates sobre fenômenos complexos que se entrelaçam na construção do diálogo intercultural. Dessa forma, apresentam-se, ainda, diferentes concepções acerca dos conceitos de multiculturalismo e de interculturalidade, advogando-se a importância de uma perspectiva crítica na compreensão da interculturalidade, que a perceba como um projeto que parte das experiências dos “subalternos”, a fim de buscar a transformação das estruturas sociais, institucionais e epistêmicas, (re)criando diferentes formas de ser, estar, de se relacionar, que impliquem não apenas o mero reconhecimento e tolerância de outras culturas, mas também a sua valorização, em diálogo e transformação mútuos
Women’s voices in diaspora: hip hop, spoken word, Islam and web 2.0
This paper focuses on the artistic production of four hip hop and spoken word artists belonging to the Muslim diaspora, Poetic Pilgrimage, Alia Sharrief, Hanouneh and Alia Gabres, aiming to understand if such cultural practices can be understood as forms of political, civic and social activism, with the potential to broaden or create alternative public spheres (Fraser, 1990). It articulates a form of musical production often associated with Islam, hip hop (Alim, 2005; Miah & Kalra, 2008), with spoken word, produced by Muslim women in diaspora, migrants or descendants of migrants, with different backgrounds and different life stories associated with Islam, allowing them effective voice in their self-representation, considered from their online presence (NTI and web 2.0). The diversity of the cultural producers and their forms of expression considered in this paper is understood as an example of the diversity within Islam and also as a denial of any orientalist stereotypes (Saïd, 1979) about Muslim women
Compressão do espaço-tempo e hiperlocalização: os novos flâneurs
A experiência de sensações tais como a de aceleração do tempo ou de eliminação do espaço vulgarizou-se na vida moderna cada vez mais organizada segundo o ritmo do “tempo real”, instituído pelos média digitais. Neste artigo, partindo do conceito de compressão espaço-tempo de Harvey (1999), confrontamos perspetivas situadas nas correntes do determinismo tecnológico com outras que defendem a relação dialógica entre tecnologia e sociedade. Abordam-se noções como as de desterritorialização e destemporalização que permitem compreender o surgimento de um espaço de dados fragmentado e intemporal, correspondendo a uma “nova geografia”, na qual já não é possível estabelecer uma fronteira clara entre o mundo físico e o digital. O texto estrutura-se tendo como suporte teórico o conceito de flâneur ciberespacial, explorando as semelhanças com o flâneur novecentista, tal como descrito por Baudelaire. A análise de um conjunto de intervenções artísticas e experimentais centradas sobre questões como a hiperlocalização ou a ubiquidade e a pervasividade permite-nos recorrer a esta figura do flâneur ciberespacial num duplo sentido, como sinal da tendência para a aceleração técnica, mas também como símbolo da força de resistência a essa mesma aceleração. Conclui-se que a evolução exponencial e a crescente “naturalização” da tecnologia nos obrigam a considerar o seu papel determinante nas dinâmicas sociais, designadamente, a partir da transformação da nossa relação com as dimensões do espaço e do tempo
Biografias de aprendizagem num espaço europeu de mediação social
Dentro da estrutura de um projeto Erasmus+ europeu, foram entrevistados mediadores estagiários sobre a sua experiência. Os contactos realizaram-se através de entrevistas não estruturadas, biográfico-narrativas qualitativamente profundas, nas quais indivíduos comprometidos com a interação dialógica criaram um entendimento partilhado, dando significado às suas histórias. Trata-se de entrevistas interativas, co-construídas. O detalhe da linguagem da entrevista documenta como a construção do significado ocorre, e como esta é afetada por motivos de pertença a determinados grupos, por discursos sobre etnias e culturas, assim como pelo género, idade, relações profissionais e educacionais, entre outros. A entrevista é sensível aos recursos da linguagem e aos seus usos na co-construção do significado. Este artigo, usando excertos de uma narrativa biográfica, mostra que a forma falante destas narrativas da aprendizagem biográfica dos mediadores pode oferecer uma visão do processo do conhecimento despoletado pela aprendizagem em comunidades de práticas, e que a criação de um espaço comum de experiência pode ser ouvido na conversa biográfica. Os recursos biográficos, a biograficidade e a sua relação com a linguagem e sociedade são considerados e, nas narrativas da entrevista podem ser observadas, ouvidas e partilhadas a criação de um espaço de aprendizagem, um espaço para o desenvolvimento e a revelação de noções e práticas de mediação
Mediação intercultural com álbuns ilustrados
É grande o potencial de utilização de livros-álbum no contexto da mediação intercultural com crianças e jovens, que recorrem à multimodalidade para contar histórias sobre condições sociais de vida mundo atual. Quando criteriosamente selecionados, os livros-álbum permitem aos jovens encontrar representações diversas de multiculturalidade e de atuação intercultural significativas. Apresentam-se alguns exemplos de como um conjunto de livros-álbum da coleção do projeto IDPBC (Identity and diversity in picture book collections) pode ser usado para explorar tópicos de superdiversidade das sociedades modernas, tais como, viver em comunidades culturalmente muito diversas, construção de múltiplas identidades linguísticas, mobilidades humanas (forçadas e voluntárias) e migrações, em massa. Estes recursos ficcionais, que se apresentam como geradores de empatia entre os leitores, podem ser usados para ajudar crianças a compreender a diversidade crescente em que vivem, bem como os fenómenos contemporâneos de migração ou refugiados. Eles podem também contribuir para ajudar os jovens a compreender a complexidade social à escala global e ao nível dos direitos humanos e da convivência na diversidade de uma cidadania global. Sugerem-se por fim abordagens didáticas inclusivas destes materiais, passíveis de serem usadas com crianças (com idades dos cinco aos 12 anos) em situações de acolhimento e mediação intercultural
The chairs of hereditary cancer: understanding time and illness using creative ethnographic drawing
Using scientific illustration, this article aims to examine how time is experienced, understood, and managed in hereditary malignancies, analysing the breast cancer story of a Portuguese woman with BRCA1/2 mutations. Blending lived experience, anthropology, and art, this text results from a transdisciplinary qualitative exercise, incorporating embodied knowledge, speech, and creative ethnographic drawing at the core of the research, using them as methodological and heuristic resources. Based on a narrative collected in an informal interview, it suggests the use of visual and creative methodologies aimed at a reinforced understanding of cancer. Combining text and images, we will analyse the multiple meanings of time that permeate this story, searching for the experiences, uses, and meanings of moments of waiting, interruption, slowness, delay, urgency, and acceleration, before, during and after illness and treatment, using and drawing chairs, as concrete objects and metaphors, to give them form. Waiting emerges as the most relevant experience to understand her hereditary cancer story, linking past, present, and future within a form of suffering that minimizes physical pain
The river becomes the mediator – urban river restoration creating new spaces for intercultural dialogue and mediation
At a basic level, water is a fundamental part of the human experience. Cities are, for the most part, founded on rivers. Water and rivers form a significant metaphor in describing, recording and celebrating historic and personal narratives. The title of this paper is inspired by a Persian fairy tale where a lovelorn princess, needing reassurance that the man she had fallen in love with was true, spoke to and heard back from the river. Symbolised by the river, water is the bringer of life and the connector of people. And yet… in many cities the small urban river is a problem, something to be fenced off and ignored. While cities have rediscovered the importance of major rivers in driving regeneration, smaller tributaries, streams and creeks are covered, diverted or hidden away. But it doesn’t take much for the focus to change. Revitalised riparian public spaces provide a natural and neutral meeting point for all members of the community with the river acting as a physical and metaphorical mediator. Previously unloved and unknown spaces can become a key part of a city’s infrastructure. More importantly, the city residents have a space to meet becoming, in turn, known and loved
A prática da participação mediada em comunidades marginalizadas na Indonésia
The question of participation has often been asked as an issue of degree, namely how much members of a society are allowed to have a voice in their collective life. Rather than evaluating the degree of equality reached between actors, this article attempts to identify existing practices that contextualise participation, and thus enable and constrain it. Two case studies, involving marginalised communities in participatory film production, were analysed: a community of believers in a traditional religion (penghayat) in Elu Loda and a community of people with disabilities in Salam Rejo. These communities were observed during their participation in film workshops, from October 2018 to February 2019. Fourteen participants, two facilitators, and one programme officer of the sponsor were interviewed. In addition, participants and a selection of community members who interacted with the process were invited to fill in a questionnaire designed to elicit their communicative practices in relation to storytelling, making pictures, and community meetings (Elu Loda n=49, Salam Rejo n=31). We studied how personal stories were circulated in these groups and how some individuals used the film as a channel to distribute their version of the stories, while still their collective way of storytelling was disconnected from the workshop. Second, we learned that culture shaped how certain people become more visible than the others and how these people developed skills to be more visible, which opened the door to their participation. Third, the participants’ embeddedness in their culture and community affected what aspects they were inclined to participate in and for what reason: in the workshop’s technical know-how and/or in the content.O tema da participação tem sido frequentemente questionado em termos de abrangência, nomeadamente quanto ao número de membros de uma determinada sociedade que têm voz enquanto coletivo. Este artigo, ao invés de avaliar o nível de igualdade entre atores, tenta identificar práticas correntes que contextualizem o processo de participação, tornando-a, desse modo, possível e limitada. Foram analisados dois casos de estudo que envolvem comunidades marginalizadas, durante um projeto de cinema participativo: uma comunidade de fiéis de uma religião tradicional (penghayat), em Elu Loda, e uma comunidade de pessoas com necessidades especiais, em Salam Rejo. Estas comunidades foram observadas durante a sua participação em oficinas de cinema, entre outubro de 2018 e fevereiro de 2019. Foram entrevistados 14 participantes, dois facilitadores e um representante do patrocinador do programa. Além disso, os participantes e alguns membros da comunidade que estiveram envolvidos no processo foram convidados a responder a um inquérito criado com o objetivo de pôr a descoberto as suas práticas comunicativas relacionadas com a narração de histórias (storytelling), registos fotográficos e reuniões comunitárias (Elu Loda n=49, Salam Rejo n=31). Estudámos o modo como as histórias pessoais circulavam entre esses grupos e como alguns indivíduos usavam o cinema como veículo de apresentação da sua versão das histórias, enquanto a sua forma coletiva de contar histórias permanecia desligada do workshop (oficina). Percebemos ainda que a cultura formata o modo como algumas pessoas se tornam mais visíveis do que outras e como estas desenvolvem competências para se evidenciarem, o que abriu a porta à sua participação. Por fim, descobrimos que a imersão dos participantes na sua cultura e comunidade afeta os aspetos que despertam mais o seu interesse e por que razão: o saber técnico da oficina e/ou o conteúdo