Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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Produção e circulação do conhecimento entre cientistas e gestores públicos
O presente artigo discute a maneira como a ciência colabora com a política publica a partir da ótica de pesquisadores acadêmicos que mantém relações de consultoria a organismos governamentais. Três questões orientaram nossa análise: como os cientistas pensam e avaliam essa relação; como os cientistas percebem o seu lugar nessa relação e, como se dá a circulação do conhecimento entre esses dois campos. Trata-se de uma reflexão sobre os limites e possibilidades das contribuições do conhecimento cientifico na formulação de políticas públicas no contexto brasileiro, mais particularmente, no Ministério de Desenvolvimento Agrário. Estaremos atentos para a possibilidade dessa relação engendrar ressignificações sobre as práticas comuns a cada um desses campos. A base empírica é constituída por entrevistas com pesquisadores ligados a instituições acadêmica brasileiras e que têm experiência em consultoria a órgãos governamentais. Faremos uso do conceito de translação, elaborado por Bruno Latour, como também da noção de co-produção, de Sheila Jasanoff sobre a prelação recíproca entre ciência, políticas públicas e cultura. Recorreremos também à noção de representação, trabalhada por Isabelle Stengers que pode ajudar a entender o recurso à ciência como uma estratégia de legitimação de decisões políticas em um mundo dominado pela crença na “verdade científica”. Verificou-se uma tensão entre pesquisa e formulação de políticas públicas que pode ser atribuída às diferenças entre as epistemologias científica e política. Entende-se que essa tensão possa ser “resolvida” de diversas maneiras e não necessariamente por mecanismos institucionalizados, como pressupõe outras abordagens. A apropriação do conhecimento cientifico, ocorre um movimento de circulação onde vemos multiplicar os elos pelos quais passam tanto o conhecimento produzido como a demanda pela produção de conhecimento
Sobre o consumo de medicamentos para a melhora cognitiva e do humor: primeiros passos de uma Cartografia das Controvérsias
O avanço biotecnológico tem possibilitado o aparecimento das enhancement technologies, intervenções que visam a melhora do funcionamento ou de características humanas para além do sustento da saúde ou reparo do corpo, sendo uma dessas intervenções o consumo de medicamentos para a melhora da performance cognitiva e do humor, tais como o metilfenidato e os antidepressivos. O metilfenidato, que inicialmente era restrito ao tratamento de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), teve seu uso estendido quando tal diagnóstico passou a abranger pessoas em idade adulta (Conrad, 2007). Atualmente, vemos uma apropriação de seu consumo para fins de enhancement, que tem repercutido na mídia através de notícias de “concurseiros” e executivos que fazem uso dessas substâncias para conseguir estudar ou trabalhar por mais horas. O antidepressivo, surgido nos anos 50, que teve relutância em ser comercializado pela indústria farmacêutica, por falta de mercado para o mesmo (Aguiar, 2004), teve grande expansão nos anos posteriores. Atualmente, o aumento nas prescrições desses medicamentos, leva ao questionamento se este consumo está associado ao aumento de transtornos ou a questões próprias da vida que estão sendo medicalizadas. Vemos assim, uma apropriação e aumento do consumo desses medicamentos que não está livre de controvérsias. Há uma indefinição nas fronteiras que definem o que é tratamento e o que é enhancement. Além disso, questões éticas controversas – como a segurança, a coerção, a justiça distributiva e a redefinição da natureza humana – se fazem presentes, tendo efeitos sobre a produção da subjetividade contemporânea. Nesse sentido, o presente trabalho visa cartografar tais controvérsias envolvidas no consumo de medicamentos para fins de enhancement, buscando entender melhor essa rede sociotécnica heterogênea - composta por humanos e não-humanos -, fruto de associações entre diferentes atores, que tem se estabelecido de determinada maneira, mas pode ser constituída diferentemente, performando outras realidades
Peripécias da Caatinga: quando plantas dialogam com políticas
Este trabalho consiste numa incursão, e por isso, numa tentativa de edificar redes de mútuos diálogos entre o Bioma Caatinga e o atual Projeto de Desenvolvimento Nacional. Ao acompanhar parte do Inventário, Monitoramento e Resgate da Flora em Áreas Impactadas Direta e Indiretamente pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco com Bacias do Nordeste Setentrional, executado pelo Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga (CRAD/Caatinga) - centro esse, coordenado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) -, faço algumas considerações sobre como a constante influência de plantas em políticas e de políticas em plantas, no contexto de uma pesquisa científica, pode ser decisiva na construções dos “fatos”, e que não obstante pode reverberar em discussões internas à antropologia, por exemplo, a relação natureza/cultura. Em todo caso, trata-se de um esforço em descrever procedimentos político-normativos e científicos, de uma forma a ver como seus encadeamentos podem lançar luz em situações de suma importância, tanto para o Semiárido Nordestino, quando para o restante do Brasil. O presente trabalho tenta responder, portanto, uma questão inspirada pela Antropologia da Ciência e da Tecnologia (ACT): afinal, como que plantas podem atuar de forma a frear ou acelerar a política de Integração Nacional
Restaurando naturezas: arranjos sociotécnicos, ecologia(s) e agricultura(s) no Pontal do Paranapanema/SP
A restauração ecológica é uma prática que visa o restabelecimento da estrutura e funções ecológicas característicos de ecossistemas alterados em decorrência de atividades humanas. As controvérsias a respeito dos limites e dimensões do território que devem ser mantidos conservados, ou que devam ser destinados à restauração ecológica constroem-se a partir de perspectivas que extrapolam o campo restrito das ciências naturais e envolvem valores e práticas de distintos atores. Propomos analisar encontros entre cientistas e agricultores envolvidos em projeto de restauração ecológica por meio de implantação sistemas agroflorestais (SAFs) no Pontal do Paranapanema/SP problematizando algumas questões sobre manejo e sobre as novas associações que são promovidas. Para isso selecionamos alguns diálogos com um técnico do projeto (que também é assentado na região) de forma que pudéssemos discutir os encontros e desencontros entre cientistas e agricultores a respeito da natureza. Nosso objetivo central é entender como se constrói a relação entre atores considerando a capacidade da ciência em delimitar e promover limites e modos de ordenamentos assim como em prescrever ações que implicam na modificação dos arranjos sociotécnicos e ecológicos existentes
Mapeando agências: considerações sobre modos de existir no Terminal de Integração do Centro, em Florianópolis/SC
Neste texto, escrito como parte de uma pesquisa de mestrado em andamento, analiso algumas dinâmicas do Terminal de Integração do Centro (TICEN) em Florianópolis/SC – o maior terminal de ônibus da cidade – para realizar uma discussão sobre as configurações corporais, ambientais e ontológicas que ali acontecem. Argumento a favor da perspectiva de que o ambiente não é um local onde sujeitos vivem, mas um mundo trazido a tona em conexão com os sujeitos através das ações de ambos. Junto à descrição de situações onde isto pôde ser presenciado, uso de ocasiões do cotidiano do terminal observadas durante o trabalho de campo para problematizar a adequação das ideias de multiplicidade ontológica e agência a esta perspectiva de análise. Trago informações sobre as projeções feitas sobre o TICEN por aqueles que buscam praticá-lo de formas distintas para explicitar os modos como humanos e não-humanos de vários tipos – desde veículos até o governo e a iniciativa privada – compartilham todos de vida devido a uma continuidade ontológica ao invés de uma multiplicidade ontológica. Lanço mão de ocasiões onde os diversos sujeitos que existem no TICEN constituem-se através dos cruzamentos de modos de existência diferentes para questionar a possibilidade de radicalizar estas diversas subjetividades em pólos ontológicos distintos, e faço uma tentativa de examinar como os significados se constróem para todos os envolvidos nestes cruzamentos. Por fim, traço uma hipótese – apresentada aqui como uma proposta inicial para desenvolvimento em pesquisa – de qual é o movimento por excelência que age na formulação da vida no TICEN.
Tensões em movimento na doença de Alzheimer
O paper pretende analisar a constituição da doença de Alzheimer numa preocupação social a partir da conexão do campo médico com outros campos que fazem dessa doença o “mal do século”. Trata-se, na medida do possível, de mapear a multiplicidade em torno de uma experiência – a da doença de Alzheimer. Para isso, venho seguindo as trilhas, as narrativas e as disputas que essa experiência aciona através de seus diferentes sujeitos – médicos, familiares, doentes, mídia – e de suas diferentes linguagens – textos, falas, gestos, imagens, blogs. Pretende-se compreender o entrecruzamento desses saberes e práticas e a negociação dos mesmos pelos agentes envolvidos na experiência da doença, como os enfermos, familiares, cuidadores e profissionais de saúde, levando em conta gênero, classe e idade no modo de viver e perceber a doença. A pesquisa tem se desenvolvido em diferentes domínios, tais como: na Associação Brasileira de Alzheimer, com a participação nas reuniões do grupo de apoio aos familiares e cuidadores; nos ambulatórios da neurologia e psiquiatria geriátrica num hospital universitário, com o acompanhamento das consultas e discussões de casos clínicos; nos blogs escritos pelos próprios doentes; na mídia, com a leitura de notícias sobre a doença. Além disso, venho colhendo imagens, disponíveis na internet, como algumas séries fotográficas e vídeos, sobre a doença e ido a eventos sobre a doença. Algumas questões que me tem sido importantes são: a complexidade e as nuances do diagnóstico e as coexistências tensas no processo de negociação da doença, como demência e lucidez, rotina e criatividade, terror e humor
Intersexualidades e Biotecnologias: um estudo antropológico acerca da inserção da Hiperplasia Adrenal Congênita no Teste do Pezinho
O presente trabalho busca refletir sobre o gerenciamento sociomédico das intersexualidades em um contexto de biomolecularização da sociedade, no qual, cada vez mais intensamente, as biotecnologias são ferramentas cruciais no processo de definição, remodelação dos corpos e produção de subjetividades. Para tanto, a partir de uma “etnografia dos arquivos”, são analisados os artigos científicos que pautaram a inserção da hiperplasia adrenal congênita (HAC), a qual aparece na literatura médica como a causa mais recorrente de intersexualidade, no Programa de Triagem Neonatal no Brasil. Para além desses artigos científicos, utiliza-se, como fonte de pesquisa, trechos de diários de campo produzidos a partir da “observação participante” em situações específicas: em uma aula sobre diferenciação sexual da Pós-Graduação de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no Brasil e em uma visita ao Serviço de Referência em Triagem Neonatal da mesma localidade. Os resultados até então obtidos apontam para uma série de controvérsias em relação à inserção dessa condição nos programas de triagem, tais como o elevado número de casos “falso-positivos” e o fato da mesma não representar necessariamente um risco à vida dos sujeitos (um dos critérios importantes para inclusão nas triagens). A relação da HAC com uma variação em termos do tamanho da genitália a situa no campo do desvio em relação à norma da dicotomia sexual que é tratado pelos saberes biomédicos como uma patologia. Assim, a inclusão dessa condição no programa de triagem reflete, entre outros elementos, a forma pela qual um “problema social” é transformado em um “problema de saúde pública” e aponta, portanto, para o papel das novas biotecnologias na produção dos corpos e nas normatizações de gênero e sexualidade contemporâneas
Plataformas, Animais de Laboratórios e as novas configurações da pesquisa científica em biomedicina
O objetivo deste trabalho é discutir algumas implicações para o processo de produção de conhecimentos científicos na área da biomedicina produzidas pela implementação da regulamentação do uso de animais não humanos para experimentação e pela adoção de plataformas tecnológicas. A regulamentação se insere nos movimentos internacionais pela restrição ao uso de animais, a qual, entre outros efeitos, altera suas formas de criação e manipulação, bem como os espaços de experimentação. Animais de laboratório são hoje um insumo altamente regulado e caro. A busca de estratégias para otimizar experimentos e maximizar o uso do animal tornou-se prioritária. As plataformas tecnológicas estão associadas a ensaios complexos que envolvem equipamentos de alto custo, expertise e instalações laboratoriais especificas. São espaços de uso coletivo que podem ou não disponibilizar equipe técnica. Em geral, estão vinculadas a políticas públicas para desenvolvimento do potencial de produção de conhecimentos com alto valor econômico, ao contribuírem para aumento da capacidade de processar dados e realizar ensaios entre equipes multi-institucionais. Plataformas são uma das estratégias para a experimentação animal. Esta mudança dispensa as instituições de pesquisa de investirem na adequação à Lei de espaços de uso restrito “laboratórios de pesquisa”. Entre outras mudanças trazidas pelo uso dessa estratégia, nos interessamos pelos deslocamentos entre ensaios realizados a) em um espaço gerido por um pesquisador sênior (e operado por sua equipe) para um coletivo; b) no âmbito das colaborações científicas para a prestação de serviços tecnológicos. Nos interessam seus efeitos emergentes, como as práticas tecno-organizacionais as quais compreendem normas e valores, tomadas de decisão, mecanismos e formas de controle, lógicas de trabalho e organização, além de novas práticas e competências técnicas. A principal questão aqui é discutir se essas práticas configuram ou potencialmente geram novas ontologias
O direito à saúde e as tecnologias biomédicas no combate ao HIV/Aids
A partir das experiências coletadas e registradas no Centro de Testagem e Aconselhamento do Distrito Federal, objetiva-se refletir sobre o impacto da tecnologia biomédica na população e suas apropriações pela política de saúde. Tendo por realidade etnográfica a democratização e difusão dos Testes Rápidos pelo CTA/DF. Ao tomar por realidade etnográfica a democratização e difusão dos testes rápidos pelo CTA/DF, importa para a presente análise, (i) as formas de utilização e apropriação dessas tecnologias pela políticas de saúde; (ii) e como os avanços científicos e tecnológicos informam tais políticas. A tensão entre a dimensão interpessoal e a dimensão tecnológica do atendimento dentro do CTA/DF é a base na qual se constrói o problema da democratização e consumo dos testes rápidos e é, também, a partir de onde os usuários são incentivados a evitar atos considerados de risco por meio de um novo saber de si. Como se verá, o trabalho acaba por trazer à cena uma discussão contemporânea e relevante para a Antropologia: as relações estabelecidas entre a produção científica e tecnológica e a sociedade, a partir do consumo de tecnologias biomédicas. Sem perder de vista o caráter sociopolítico da biotecnologia e sua apropriação pelos agentes sociais e a política de combate às doenças sexualmente transmissíveis a partir das ações preventivas.
Práticas desviantes: da gambiarra a desobediência tecnológica, quebrando a sócio-lógica do capital
Alterar de alguma forma as características - sejam elas de função, de durabilidade ou estéticas –, de objetos, principalmente os produzidos em série, de acordo com nossas necessidades específicas, é uma prática quase inevitável e diária. Por serem práticas simples e corriqueiras tendemos a não prestarmos atenção no seu processo de produção particular, nos conhecimentos envolvidos, bem como na potência transformadora de tais ações. Na bibliografia as mesmas práticas de alteração de objetos vêm sendo conceituada de diferentes formas, com implicações ético-políticas significativas. As conceituações são: gambiarra (BOUFLEUR, 2006 e ROSAS, 2006), desvio de uso (KASPER, 2006, 2009; AKRICH, 1998), desobediência tecnológica (OROZA, 2012) e design não intencional (NID, em seu acrônimo em inglês) (BRANDES & ERLHOFF, 2006; SCHNEIDER, 2010). Estas práticas podem ser vistas como desvios conscientes ou não dos princípios econômicos e técnicos que norteiam a produção industrial, desta forma colocam em xeque os fundamentos éticos e históricos do modo de produção capitalista. Pois podem ser um índice da tentativa sistemática de distensão dos limites do capitalismo, por meio da produção de massa e do consumo, da capacidade de recomposição do planeta. A presente proposta visa realizar uma revisão comparativa dos diferentes conceitos formulados a partir de tais práticas, bem como discutir as implicações práticas que podem emergir de cada um destes conceitos, principalmente a luz das questões ambientais contemporâneas