Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas): Portal de Periódicos do IG
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A licenciatura intercultural indígena como ponte entre domínios ontológicos: reflexões a partir dos modos de conhecer Paiter
Este trabalho busca apresentar algumas experiências dos Paiter em licenciatura intercultural indígena e projetos de patrimonialização dela resultantes e discutir em que medida se configuram como ferramentas com potencial reflexivo e agentivo capaz de promover ou não um diálogo entre domínios ontológicos distintos. Como a formação acadêmica destes professores tem impactado em suas reflexões críticas e em suas práticas de ensino-aprendizagem? Como essas reflexões e práticas resultantes dialogam com a ontologia e os modos de conhecer entre os Paiter? Uma via de acesso para responder tais perguntas parece estar nas novas e criativas conformações práticas e conceituais que assumem seus projetos de políticas culturais, desde a educação escolar até a patrimonialização cultural. Por isso pretendemos investigar especificamente três experiências: (1) reflexões de ordem conceitual e prática contidas nos seus trabalhos de conclusão em cursos de licenciatura intercultural indígena; (2) suas consequências para o ensino do português e da língua Paiter nas escolas a partir da normatização escrita; e (3) um projeto de patrimonialização idealizado por um professor Paiter a partir de sua formação na licenciatura, chamado Labğup que culminou na criação de um museu-escola. Cada uma dessas experiências revela, à sua maneira, conflitos ontológicos que são fruto do encontro entre os regimes de conhecimento euro-americano e ameríndios. Por isso, além de inspirarem estratégias políticas criativas dos Paiter quanto ao manejo dos modos de circulação de seus conhecimentos, essas experiências também alimentam uma crítica a práticas epistemológicas e a processos de aprendizagem pressupostos em ambos os regimes de conhecimento
O parentesco como questão computacional
Apresentamos alguns problemas da área de Antropologia Estrutural do ponto de vista da Computação. Usamos grafos mistos na modelagem dos problemas. Desenvolver algoritmos para enumerar estruturas que ocorrem em redes de parentesco de determinados povos são nossos principais objetivos. Essas estruturas são chamadas de anéis. Os anéis de alguns povos considerados contêm alguns atributos como é o caso dos anéis com conexões de nomeação e amizade formal do povo Krahô; e dos anéis cromáticos do povo Enawenê-Nawê onde cada indivíduo possui uma cor (a cor do grupo que o indivíduo pertence). Nestes casos, os anéis de interesse devem obedecer a um certo padrão sobre arcos e sobre cores em vértices. Ao mesmo tempo, novos anéis podem surgir e outros podem desaparecer, quando a análise é feita sobre redes de parentesco dinâmicas onde indivíduos podem se casar, formando assim novos anéis, enquanto que outros podem morrer (ou podem ocorrer divórcios), desfazendo outros anéis.Pretendemos desenvolver algoritmos sobre grafos com o objetivo de dar uma sol/.çp-0ução prática para os problemas. Aplicaremos técnicas de programação como divisão-e-conquista, algoritmos gulosos, algoritmos de aproximação, programação dinâmica, e algoritmos de fluxos, além de técnicas combinatórias com origem na área de Otimização. Ao fim desta pesquisa, esperamos contribuições tanto para a Antropologia quanto para a Computação, e assim, contribuições para mais um caso de pesquisa interdisciplinar. Este texto também apresenta uma forma de encontrar todos os anéis de uma rede, sem qualquer particularidade
Gênero e mercado de cervejas artesanais: percursos, recursos e estratégias de empresirilização de si
A pesquisa analisa a construção do mercado de cervejas artesanais no Brasil a partir dos percursos de empresarialização de mestre cervejeiras, dos valores e representações nos quais a partir de uma estrutura de oportunidades sociais, simbólicas, econômicas e de recursos permitem a transformação de um hobby em uma atividade empresarial, considerando, nomeadamente que se trata de uma atividade socialmente construída como masculina, com recortes de classe social e de gênero. Para realizar esta pesquisa realizei incursões etnográficas no campo de pesquisa, por meio de mapeamento de mulheres atuantes no mercado de cervejas artesanais, e de incursões netnográficas na comunidade do facebook do Coletivo ELA (Empreender, Libertar e Agir), organizado por mestres cervejeiras, de vários estados do Brasil, com o objetivo de desmistificar o machismo no mercado de cervejas artesanais – seja em rótulos, campanhas publicitárias, produção da bebida ou ainda no tratamento que muitas mulheres recebem como consumidoras. A expansão de microcervejarias nesta década é decorrente de um percurso de transformação de um hobby de fazer cerveja em casa, em panelas, em uma nova carreira, reconvertendo trajetórias profissionais para a identificação como mestre cervejeira responsável pela abertura de novos mercados profissionais, utilizando-se do conhecimento e das habilidades aprendidas e desenvolvidas neste fazer artesanal
Políticas Etnográficas e Resistência Ciborgue: os Programas de Compartilhamento de Arquivos em Perspectiva
Este trabalho consiste em refletir acerca das possibilidades de atuação etnográfica junto a realidades sociais constituídas e permeadas, simultânea e simbioticamente, por práticas online e offline. Tal reflexão decorre do processo de produção de minha tese, ainda em andamento, sobre as práticas de resistência manifestadas por/através programas de compartilhamento de arquivos –Napster, The Pirate Bay e Popcorn Time– frente aos esforços de regulação da propriedade internacional na internet –, resistência que chamarei de “resistência ciborgue”. Os programas de compartilhamento de arquivos podem ser entendidos enquanto serviços online de distribuição e compartilhamento não-autorizados de conteúdo protegido por direitos autorais, como filmes e músicas. É possível identificar diversas manifestações de resistências relacionadas a tais programas – o próprio surgimento destes pode ser entendido enquanto expressão de reação às economias morais dominantes –, me atenho, neste trabalho, àquelas diretamente direcionadas às corporações que ameaçam a existência desses serviços. É possível perceber que no cenário de instabilidade e incerteza acerca da continuidade dos programas, a resistência ciborgue demanda, também, uma etnografia ciborgue atenta às manifestações online e off-line que compõem e reforçam a atuação dos programas – os protestos em defesa dos programas se dão tanto nos espaços online e off-line – promovendo a necessidade do debate sobre as possibilidades híbridas nos campos de pesquisa. Nesse sentido, este trabalho busca refletir os modos de investigação de repertórios online e off-line de resistências, assim como a potencialidade de políticas etnográficas ciborgues na produção antropológica
Osikirip: “especiais” Karitiana entre parentes e profissionais de saúde
A comunicação tem como objetivo refletir sobre “práticas de cuidado” (Mol) voltadas aos “especiais” (osikirip) Karitiana. Ao mesmo tempo que são estimulados a buscar instituições não indígenas, usufruindo assim de tratamento médico e benefícios sociais específicos, tal população jamais questiona seus vínculos de parentesco com os mesmos. As “práticas de cuidado”, realizadas ao mesmo tempo por parentes e profissionais de saúde (nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais), nem sempre são convergentes. Essa tensão constitutiva, por sua vez, se coaduna com a maneira com que os Karitiana concebem a existência dos “especiais”, caudatária do estabelecimento de relações perenes com os não indígenas
Viver com Alzheimer – habitar intermundos traçados pelo cuidado
Tenho pesquisado como é viver em determinado mundo portando um diagnóstico de Alzheimer; como é para quem sofre de dilemas orgânico-relacionais que são categorizados como doença pela biomedicina praticada no Centro de Referência para Portadores da Doença de Alzheimer do Hospital Universitário de Brasília, e também para aqueles que cuidam e dão suporte para que se continue a habitar tal mundo. Em meio a dilemas, intenções afetivo-compreensivas-tutelares de cuidado, substâncias terapêuticas e resistências diversas, estabelecem-se uma série de conexões, todas parciais, no intuito de continuar se relacionando de determinada forma com pessoas próximas e de assegurar o funcionamento razoável de certo corpo/organismo. As intervenções do Centro, em diálogo com as cuidadoras, são embasadas em um desejo de manter, em alguma medida e pelo maior tempo possível, lógicas relativamente “normais”, ou “adequadas”, de interação. Sigo o caminho dessas conexões parciais, entendendo-as como acoplamentos, no sentido dado a eles por Donna Haraway, para refletir sobre o que é viver e conviver com o Alzheimer. Discorro, por um lado, sobre o estabelecimento e reestabelecimento cotidiano de relações de parentalidade, cuidado e terapêutica. Por outro, debato alternativas para as noções de corpo e do cuidar que se conectem com o material etnográfico e que dialoguem com as terapêuticas propostas pela biomedicina, assim como com a lógica de cuidados praticada no contexto urbano brasileiro
Interacción humano-perro y control sanitario de la leishmaniosis visceral canina en el Departamento de Alto Paraná de Paraguay, zona de la triple frontera
A leishmaniose visceral canina (LV) doença parasitária sistêmica grave, trasmitida por um flebótomo. No Paraguai é considerada endêmica com aparição cíclica e modificações importantes na zona da “tríplice fronteira” (Paraguai, Argentina e Brasil), espaço de emergência e dispersão. Estudo descritivo quali-quantitativo com entrevistas semi-estruturadas a atores chaves e um inquérito em residências.A maioria tem o cão como "companhia"; dorme fora da casa, permanecem em sua casa. Quanto aos cuidados fornecem ao animal, um saneamento adequado, alimentação, segurança e ambiente; envolvendo-lhes com amor, carinho e bom tratamento. Destacam, como fator principal, encarregarse da saúde dos animais. E dizem têm direitos e demonstram sentimentos para com seus donos. Há aumento dos cães que circulam pelas ruas, muitos abandonados e sem controle e, também, um importante tráfego nas três fronteiras, principalmente, em Foz do Iguaçu. Ainda que, as autoridades sanitárias não incluam como controle a "eutanásia", há uma atitude positiva em relação a aceitação da mesma, que não se reflete na prática, embora isto esteja a aumentar. Médicos veterinários sugerem sacrifício do animal positivo, e fornecem tratamento a pedido de seus proprietários, mesmo que não seja recomendado pelo Ministério da Saúde Pública, nem pela Organização Pan-americana da Saúde (OPAS). Há vacinas, mas com um preço não muito acessível. Os municípios não contam com recursos para o controle sanitário, dispoêm de um Manual de Diagnóstico e Tratamento para a Leishmaniose.O "companheirismo do cão" adicionou um significado importante que considera como um "membro da família", referindo-se a uma profunda conexão com os mesmos. A sociedade exige que os programas de controle tenham uma gestão mais humanitária, que vá além do sacrificio de cães soropositivos. A luta contra a leishmaniose supõe uma visão integral com programas de controle e adoção responsável de cães, e uma maior consciência para a população e autoridades
Medicinas da floresta: conexões e conflitos cosmo-ontológicos
Neste trabalho proponho descrever aspectos de um recente movimento em torno das chamadas “medicinas da floresta”, principalmente o nixi pae (ayahuasca) dos Huni Kuĩ (Kaxinawá). A proposta inclui o acompanhamento de trânsitos contínuos entre a “floresta” e a “cidade” do próprio nixi pae, dos chamados ‘pajés’ e de grupos ayahuasqueiros emergentes, evidenciando conexões e conflitos ontológicos. Uma contribuição significativa deste trabalho pode residir em alimentar reflexões no campo ayahuasqueiro a partir de uma proposição cosmopolítica (STENGERS, 2007), que buscará tomar o nixi pae como uma tecnologia de conectividade. Assim, espera-se desdobrar a semântica de termos como cura e medicina por meio da pragmática dos coletivos (de pajés, substâncias, espíritos) em ação: que efeitos estes geram quando agem em rede, o que movimentam, o que fortalecem, o que é deixado para trás. O nixi pae aparecerá então como peça-chave na ativação de coletivos ontologicamente heterogêneos, abrindo possibilidades para encontros com a alteridade em tentativas de composição de espaços de convivência e coexistência
Tratamento humanitário dos animais de produção: trabalhadores e gado no frigorífico
A construção da condição humana na modernidade em oposição à condição animal diz respeito a distinção entre sujeito e objeto. Entretanto as oposições humano - animal e sujeito - objeto compreendem múltiplas relações, mais complexas do que tais dicotomias expressam. Atualmente existe uma série de normatividades que incidem sobre os ambientes de abate dos animais de produção que visam assegurar um “abate humanitário” e as condições de “bem-estar animal”. Esses próprios termos, que dão nome às instruções normativas, já demonstrariam essa complexidade. As preocupações com as condições de vida e morte dos animais são expressas nos termos das preocupações com as dos humanos, demonstrando um embaralhamento dos pares dicotômicos citados acima. A partir de pesquisa realizada em um frigorífico industrial, que contou com visita ao local e entrevistas com funcionários e ex-funcionários, meu objetivo é trazer luz a esse embaralhamento. A ideia é pensar em como a relação entre humanos e gado expõe as ambiguidades entre as categorias sujeito e objeto e deixam claro a fluidez dessa fronteira. Discutiremos, a partir das ações do gado no frigorífico, bem como a partir de como os trabalhadores pensam e se relacionam com os animais, que o gado destinado ao abate transita entre os polos sujeito e objeto. Como veremos, as interações entre humanos e animais conjugam essas duas realidades, e levam em conta o animal como um objeto manipulável, mas que possui também uma realidade subjetiva
Pode o analista ambiental hesitar? Uma etnografia das experiências sentipensantes envoltas na prática infernal de consultoria ambiental em Belo Monte
A história da hidrelétrica Belo Monte é a história da produção daquilo que Pignarre e Stengers (2011) denominaram “alternativa infernal”. Projetada inicialmente na ditatura militar, a usina teve seu plano suspenso em 1990, dada a forte oposição de ambientalistas e das comunidades indígenas do Xingu. Contudo, em 1994, o governo brasileiro retoma o projeto a partir do anúncio de um “programa de viabilização sócio-política do empreendimento”. Nesse momento, papel decisivo é dado ao trabalho tecno-científico dos expertsde empresas privadas de consultoria ambiental, os quais buscavam reconciliar a opinião pública contrária à obra sem, contudo, comprometer sua viabilidade econômica. Após três anos de atuação como “analista ambiental” em Belo Monte (entre 2010-2013), o presente texto busca registrar etnograficamente (ainda que de modo parcial) como a perplexidade diante das dimensões destrutivas do capitalismo faz parte da experiência dos profissionais da expertiseambiental, embora contida pelos meios e poderes ilimitados que lhes são concedidos pela prática da política do licenciamento ambiental