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The other side of death, between fear and hope: biographical narratives of persons at the end of life
Dissertação de mestrado em Sociologia (área de especialização em Desenvolvimento e Políticas Sociais)A morte é o ator principal deste estudo sociológico, onde o medo e a esperança são companheiros
insubstituíveis da “foice vestida de negro”. Todas as civilizações, sem exceção, foram confrontadas com a
questão da morte, mas as respostas que lhe trouxeram variam de sociedade para sociedade. Assim, as
primeiras civilizações, tais como as egípcias, gregas e romanas tiveram uma conceção radicalmente diferente
da morte, do medo e da esperança da das sociedades submetidas ao judaísmo ou ainda ao cristianismo, nas
suas vertentes paulinas e agostinianas. As primeiras valorizaram o ritual como forma de suportar o indizível,
enquanto as segundas promoveram uma teoria da salvação. O século das Luzes, a Revolução Industrial, o
comunismo marxista, a sociedade de consumo ou ainda o mundo chamado de pós-moderno representam
outras tantas formas de negociação com a morte: escamotear do medo e secularização da esperança com a
promessa de um aperfeiçoamento da humanidade, no caso da filosofia iluminista, ou ainda, com a invenção
de um paraíso terrestre, no caso das religiões políticas; o esquecimento da morte e o afastamento de Deus,
no sentido pascaliano, por meio do divertimento oferecido pela sociedade de consumo; a valorização do carpe
diem, da afirmação nietzscheana da vida, do presentismo e da aceitação do destino maffesolianos, do
experienciar a morte no dia-a-dia, como formas de homeopatizar e domar esse mal absoluto, que é a morte
definitiva, no quadro das sociedades pós-modernas. É como se os Homens se atarefassem a romper
propositadamente com o inevitável, a usurpar o poder da morte, a esquecer a intranquilidade e a esquivar as
soluções trazidas pelas religiões tradicionais. O nosso trabalho pretende mostrar que nenhuma sociedade fica
isenta do temor que a morte exerce sobre os Homens e que estes necessitam invariavelmente de uma forma
de esperança, e mesmo de salvação, ainda que não o reconheçam. Não é ao deixar de pensar num problema
que ele deixa de existir. Pelo menos é a essa conclusão que nos levou o nosso trabalho empírico. Recorremos
precisamente às narrativas biográficas de pessoas em fim de vida, no Concelho de Felgueiras, para mostrar o
quanto a perspetiva da finitude aterroriza pessoas vítimas de doença oncológica. No quadro do presente
trabalho, confrontamos os problemas reais vivenciados pelos participantes, com os seus medos e as suas
esperanças, tentando dessa forma compreender como a nova realidade da doença, a da morte anunciada,
tinha impacto na sua vida quotidiana, na sua maneira de pensar e de agir, de encarar o futuro e de viver no
presente. Neste sentido, procedeu-se a uma análise qualitativa das narrativas biográficas centrada nas
dimensões pessoal e humana, socio-relacional, religiosa e espiritual, porquanto as mais valorizadas nos
discursos, com o intuito de propor uma interpretação acerca da vivência da morte baseada nas vozes dos
sujeitos. Privilegiamos os percursos e os retratos dos participantes nas suas vidas quotidianas, sendo que cada
um deles se tornou o autor da sua própria história de vida, sendo que estas histórias individuais se inscrevem
nas histórias coletivas e se cruzam com aquilo a que Max Weber chamou de «experiência humana geral».Death is the main actor of this sociological study, where fear and hope are irreplaceable companions
of "sickle dressed in black." All civilizations, without exception, were confronted with the question of death, but
the answers they found vary from society to society. Thus, the first civilizations, such as the Egyptian, Greek
and Roman had a radically different conception of death, fear and hope of the societies subjected to Judaism
or to Christianity, as in the Pauline and Augustinian aspects. The first civilization valued the ritual as a way to
overcome the unbearable, while the second civilization promoted a theory of salvation. The century of the Lights,
the Industrial Revolution, Marxist communism, the consumer society or still the world called postmodern that
represents so many forms of negotiation with death: conceals the fear and hope of secularization with the
promise of an improvement of humanity, in the case of Enlightenment philosophy, or, with the invention of an
earthly paradise, in the case of political religions; the oblivion of death and separation from God, in Pascal's
sense, through the fun offered by the consumer society; the appreciation of carpe diem, Nietzsche’s affirmation
of life, presenteeism and acceptance of the maffesoli destiny, experiencing death on a daily basis, as forms of
homeopatizar and tame this absolute evil, which is the ultimate death in the context of the postmodern societies.
It is as if men are purposely break the inevitable, to usurp the power of death, to forget the uneasiness and
dodge the solutions brought by traditional religions. Our work aims to show that no society is free from the fear
that death has on men and they invariably require a form of hope, and even salvation, though we do not
recognize it. A problem doesn’t cease to exist even if we stop thinking about it. At least it is this conclusion that
led us to our empirical work. We use precisely the biographical narratives of people’s lifes in the Municipality of
Felgueiras, to show how the perspective of finitude terrorizes victims of oncologic disease. In the present work,
we confront the real problems experienced by the participants, their fears and their hopes, trying in this way to
understand how the new reality of the disease, the announced death, had an impact on their daily lives, in their
way of thinking and acting, to face the future and live in the present. In this sense, we proceeded to a qualitative
analysis of the biographical narrative focused on personal and human dimensions, socio-relational, religious
and spiritual, for the most valued in speeches, in order to propose an interpretation about the experience based
on the voices of death of subjects. We favor the paths and the portraits of the participants in their daily lives,
each one of them became the author of his own life story, and these individual stories are inscribed in the
collective stories and intersect with what Max Weber called 'general human experience.
The voices of announced death: representations, experiences and practices in palliative care
Tese de doutoramento em Ciências da ComunicaçãoTodas as civilizações ficaram confrontadas com a realidade da morte que é o ator principal desta
investigação. Se o medo foi desde sempre o companheiro insubstituível da morte, os homens recorreram
aos rituais para domesticá-la. Foi o caso das civilizações primitivas e antigas (egípcia, greco-romana,
etc.). Foi o caso também nos tempos medievais, com os homens a conviverem com as pandemias, as
guerras e as fomes. É o caso ainda, tanto da época moderna (o Renascimento, o século da Luzes, o
produtivismo do século XIX, as ideologias económicas e políticas do século XX), que secularizou a questão
da esperança difundida pelas religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo), como da época atual, a pós modernidade, que aceita a tragicidade da finitude. Com a modernidade, são a racionalidade científica, a
crença no progresso e o materialismo que tomaram o lugar do mito e da fé, fazendo com que a realidade
da morte fosse recalcada. Com a pós-modernidade, que valoriza o presentismo, a afirmação
nietzscheana da vida e a aceitação trágica do destino, ficou diluído o individualismo e reencontrado a
força vital da mitologia e do ritualismo característicos dos tempos primitivos.
É à luz destes dados históricos e sociais que tentámos compreender as conceções que os nossos
contemporâneos tinham da morte, quais eram as suas representações da morte, como a vivenciavam
no seu quotidiano, quais eram as suas práticas. Para isso, realizámos uma série de entrevistas em meios
hospitalares, e mais particularmente nos serviços de cuidados paliativos, feitas às pessoas em fim de
vida, aos familiares e profissionais de saúde que delas cuidavam. Assim, as biografias dos doentes,
narradas na primeira pessoa, tomaram uma posição de destaque neste trabalho. Pois, é nelas que se
exprimem os medos, as esperanças dos doentes em fim de vida e as suas interações com os seus entes
queridos e com quem os trata. Por isso, procedeu-se a uma análise temática minuciosa centrada nas
dimensões pessoais e humanas, socio-relacionais, religiosas e espirituais, onde cada uma destas
dimensões nos trouxeram à tona as categorias temáticas e suas vertentes. Isto nos possibilitou descobrir
argumentos importantes para construirmos uma interpretação baseada nas vozes dos sujeitos envolvidos
neste estudo. Pretendemos assim compreender a comunicação da morte em contexto hospitalar e extra hospitalar, com o desenvolvimento das novas tecnologias e a proliferação das redes sociais.All civilizations were confronted with the reality of death, which is the main actor of this
investigation. If fear has always been the irreplaceable companion of death, men have resorted torituals
to tame it. This was the case with primitive and ancient civilizations (Egyptian, Greco-Roman, etc.). This
was also the case in medieval times, with men living with pandemics, wars and hunger. It is still the case,
both in the modern era (the Renaissance, the Enlightenment, productivism, the politicaleconomic
ideologies of the 20th century), which secularized the issue of hope spread by monotheistic religions
(Judaism, Christianity), and in the current, post-modernity, which accepts the tragic of fate. With
modernity, scientific rationality, belief in progress and materialism took the place of myth and faith,
causing the reality of death to be repressed. With postmodernity, which values presentism, the
Nietzschean affirmation of life and the acceptance of tragic destiny, individualism was diluted and the
vital force of mythology and ritualismMcharacteristic of primitive times was rediscovered.
It is in the light of these historical and social data that we tried to understand the conceptions
that our contemporaries had of death, what were their representations of death, how they experienced it
in their daily lives, what were their practices. For this, we carried out a series of interviews in palliative
care services, carried out with people at the end of life, their families and the health professionals who
cared for them. Thus, the patients' biographies, narrated in the first person, took a prominent position in
this work. Because, it is in them that the fears, the hopes of the patients at the end of life and their
interactions with their loved ones and with those who treat them are expressed. Therefore, a detailed
thematic analysis was carried out centered on the personal and human, socio-relational, religious and
spiritual dimensions, where each of these dimensions brought to light the thematic categories and their
aspects. This enabled us to discover important arguments to build an interpretation based on the voices
of the subjects involved in this study. Thus, we intend to understand the communication of death in a
hospital and extra-hospital context, with the development of new Technologies and the proliferation of
social networks.Esta tese foi desenvolvida com o financiamento da Fundação para a Ciência e a tecnologia (FCT),
comparticipado pelo Fundo Europeu e por fundos nacionais do MCTES através de uma concessão de
uma bolsa de doutoramento com a referência (SFRH/BD/135758/2018)
A morte na pós-modernidade: um fenómeno real na era digital
Nenhuma época e nenhuma sociedade ficou alheia à questão da morte. E
cada uma trouxe uma resposta específica para vivenciá-la ou rejeitá-la, enfrentá-
la ou contorná-la, esquecê-la ou vencê-la, superá-la ou incorporá-la.
As sociedades primitivas e tradicionais tentaram apaziguá-la por meio dos
rituais; o cristianismo e a modernidade secularizada tentaram ultrapassá-la
ao inventar paraísos celestes e terrestres. A vivência do momento presente, à
semelhança do carpe diem dos Antigos deixou o lugar às projeções de futuros
jubilosos, que implicam necessariamente uma denegação dos prazeres da
vida. Para a religião cristã, tratava-se de superar a finitude da existência pela
crença no além, enquanto que para as religiões secularizadas, também chamadas
de políticas de salvação, tratava-se de construir um mundo perfeito,
alcançável para todos os seres humanos de boa vontade, num futuro mais
ou menos próximo. A pós-modernidade, por sua vez, reconhece o carácter
inelutável da morte, a tragicidade da vida, o carácter místico do instante
presente. Não pretende superar a morte, mas incorporá-la novamente na
vida. O recurso às redes sociais representa para muitos internautas uma forma
de domesticação da morte, um retorno para uma estrutura antropológica
intemporal que é a comunidade. As redes representam outras tantas formas
de socialização pelas quais os indivíduos lutam contra o irremediável. Mostraremos,
assim, que experienciar a morte na nossa contemporaneidade é,
de facto, inseparável da maneira como experienciamos as novas tecnologias.Este trabalho é apoiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020
A morte na pós-modernidade: um fenómeno real na era digital
Nenhuma época e nenhuma sociedade ficou alheia à questão da morte. E cada uma trouxe uma resposta específica para vivenciá-la ou rejeitá-la, enfrentá-la ou contorná-la, esquecê-la ou vencê-la, superá-la ou incorporá-la. As sociedades primitivas e tradicionais tentaram apaziguá-la por meio dos rituais; o cristianismo e a modernidade secularizada tentaram ultrapassá-la ao inventar paraísos celestes e terrestres. A vivência do momento presente, à semelhança do carpe diem dos Antigos deixou o lugar às projeções de futuros jubilosos, que implicam necessariamente uma denegação dos prazeres da vida. Para a religião cristã, tratava-se de superar a finitude da existência pela crença no além, enquanto que para as religiões secularizadas, também chamadas de políticas de salvação, tratava-se de construir um mundo perfeito, alcançável para todos os seres humanos de boa vontade, num futuro mais ou menos próximo. A pós-modernidade, por sua vez, reconhece o carácter inelutável da morte, a tragicidade da vida, o carácter místico do instante presente. Não pretende superar a morte, mas incorporá-la novamente na vida. O recurso às redes sociais representa para muitos internautas uma forma de domesticação da morte, um retorno para uma estrutura antropológica intemporal que é a comunidade. As redes representam outras tantas formas de socialização pelas quais os indivíduos lutam contra o irremediável. Mostraremos, assim, que experienciar a morte na nossa contemporaneidade é, de facto, inseparável da maneira como experienciamos as novas tecnologias
